Quando o então cardeal Joseph Ratzinger disse que a Igreja Católica Apostólica Romana é mãe e não irmã das demais denominações cristãs, ele estava apenas fazendo uma constatação histórica. E, no entanto, a frase causou enorme polêmica tanto na época como agora, quando circulou novamente depois que foi eleito Papa. Tudo o que se passou desde a morte de João Paulo II, no entanto, não é outra coisa senão a prova de que o então cardeal estava certo. O mundo deu foco absoluto ao que João Paulo fez e ao que Bento XVI fará: gente de virtualmente todas as denominações cristãs deu opiniões sobre os caminhos que a Igreja Católica deve adotar. Se a Igreja estivesse de fato fora do tempo, anacrônica e ultrapassada, poucos se dariam a esse trabalho.
Como disse Bento XVI na homilia da missa que marcou o início de seu pontificado: "A Igreja está viva e é jovem."
E anda muito injustiçada. Li em mais de um lugar que a Igreja, no futuro, será responsabilizada pelos milhões de mortos vítimas da Aids na África, por condenar o uso da camisinha. Isso não tem lógica, não faz sentido. A Igreja não condena isoladamente o uso de preservativos; ela prega também a castidade de solteiros e a fidelidade de casados.
Ora, se ela tivesse força suficiente para convencer as pessoas a não usar camisinha, teria também força para que elas se mantivessem castas e fiéis. É ilógica a suposição de que os fiéis seguem uma orientação e não seguem a outra. Pode-se acreditar que a camisinha seja um imperativo no mundo de hoje. Mas não se pode acusar a Igreja de induzir milhões à morte ao discordar disso.
A posição da Igreja neste e em outros assuntos é a prova de sua coragem. A Igreja Católica, como o nome mesmo diz, é uma religião que se pretende universal. Sua missão é se espalhar pelo mundo. Sua existência depende disso. Que ela queira conquistar almas com postulados tão pouco populares é uma prova de sua honestidade, não o contrário. É também um sinal claro do grau de segurança em suas próprias crenças. E, aqui, reside uma enorme confusão conceitual, que Ratzinger, na missa antes do conclave, tentou desfazer mas foi, mais uma vez, mal interpretado: as pessoas só têm ouvidos para ouvir o que querem. Defendendo a doutrina da Igreja, Ratzinger disse que, hoje, todo aquele que defende uma fé clara é rotulado de fundamentalista.
Era, portanto, uma declaração inequívoca de que ter uma fé clara não é ser fundamentalista. Mas, mundo afora, vimos publicadas análises dizendo o oposto: Ratzinger defendera o fundamentalismo.
A raiz da confusão é o significado da palavra "fundamentalismo". Foi no fim do século XIX que protestantes conservadores americanos pregaram o retorno dos cristãos ao que eles chamaram de fundamentos da fé contra toda sorte de inovações. O termo se espalhou , entre 1910 e 1913, com a distribuição de mais de três milhões de cópias de uma série de 12 livros intitulados "Os Fundamentos". O que aqueles cristãos pregavam era uma leitura absolutamente literal dos textos sagrados. Se a Bíblia diz que o mundo foi criado em seis dias, o mundo foi criado em seis dias, ponto final. Com o advento do radicalismo islâmico, por empréstimo, passou-se a também chamá-lo de fundamentalismo. Porque, acreditava-se, o que os fundamentalistas islâmicos pregavam era o retorno do Islamismo aos fundamentos do Islã, à literalidade do Alcorão.
Mas isso foi um equívoco. O que define o fundamentalismo islâmico não é exatamente o apego à literalidade da palavra. O Alcorão, como todos os que já se aventuraram a lê-lo sabem, é carregado de símbolos, metáforas, mensagens cifradas. O que os fundamentalistas fazem é dar ao Alcorão uma interpretação radical e não uma leitura literal. E a sua marca, a sua característica principal, é a tentativa de impor essa interpretação a todos mediante o uso da força e do terror. Uma vez cristalizada a idéia de fundamentalismo como algo essencialmente islâmico o termo passou a ser usado, pejorativamente, para rotular os conservadores cristãos americanos de hoje em dia. Uma volta inconsciente ao início, resultado ou do desapego a conceitos ou do desconhecimento.
Tendo em mente a matriz cristã ou islâmica do termo, chamar de fundamentalista a Igreja herdeira do Concílio Vaticano II, que a revolucionou, é pura ignorância. Nada mais longe da literalidade do que a teologia católica. Da mesma forma, o que a Igreja Católica quer não é a submissão pela força mas a adesão espontânea ao que considera a sua verdade. Isso não quer dizer, no entanto, que a Igreja não se apegue aos fundamentos de sua fé. Isso não a torna fundamentalista, mas faz dela apenas o que ela é: uma fé, uma crença. Não há religião sem verdade, não se pode acreditar "mais ou menos" no que a sua religião diz ser a verdade revelada. Ser crente, de qualquer religião, é exatamente isso: acreditar.
Num mundo como o nosso, admito, nem todos conseguem. Mas é nisso que reside o que as religiões chamam de graça.
"Bento XVI e o fundamentalismo"
Ali Kamel no "O Globo"
“Se um dia disserem que o seu trabalho não é de um profissional, lembre-se: A Arca de Noé foi construída por amadores; profissionais construíram o Titanic…“
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006
"Fundamentalismo Mundial"
Três tipos de fundamentalismo dominam a cena mundial: o do pensamento único representado pela globalização imperante, o suicidário dos muçulmanos cujo principal representante é Bin Laden e o do Estado terrorista da guerra preventiva, corporificado por Bush e por Sharon. Sabidamente, o fundamentalismo não é uma doutrina mas uma maneira excludente de ver a doutrina. O fundamentalista está absolutamente convicto de que sua doutrina é a única verdadeira e todas as demais, falsas. Por isso elas não têm direito, podem e devem ser combatidas.
O fundamentalismo do pensamento único apresenta o modo de produção capitalista com seu mercado globalizado e a ideologia política do neoliberalismo com sua democracia eleitoral e delegatícia como a única forma razoável de organizar o mundo. O que Bush quer impor por própria conta ao Iraque destroçado traduz esse fundamentalismo.
O fundamentalismo suicidário muçulmano parte da convicção de que o Ocidente, inimigo histórico desde os tempos das cruzadas, é o Grande Satã, porque é ateu prático, materialista, imperialista e sexista. Por isso, deve ser combatido em todas as frentes e fazer vítimas mais que se puder com as bênçãos do Altíssimo. São os únicos tão convencidos que aceitam jovialmente ser homens-bomba.
O fundamentalismo do Estado terrorista à la Sharon é movido pela convicção de que os judeus têm o direito, acima de qualquer outro direito dos palestinos, de montar Israel ao tamanho que tinha nos tempos do rei Davi. Por isso Sharon prossegue com as colonizações e enquanto não realizar esse propósito boicotará qualquer projeto de paz.
O fundamentalismo do Estado terrorista à la Bush possui fortes raízes religiosas, ligadas a sua biografia pregressa. Foi por vinte anos dependente de álcool até que em 1984, a convite de um amigo, Don Evans, atual secretário do comércio, começou a freqüentar o círculo bíblico dos evangélicos fundamentalistas. Após dois anos não era mais ébrio de álcool mas ébrio da ideologia salvacionista destes fundamentalistas que se divulgava fortemente dentro do partido republicano.
Segundo ela, �o destino manifesto� dos EUA hoje é melhorar o mundo na medida em que o impregnar com os valores da cultura norte-americana: com liberdade, democracia, e livre mercado. Bush filho fazia a campanha da reeleição do pai se apresentando como �um homem que tem Jesus em seu coração�. O brasilianista Ralph della Cava e o teólogo J. Stam contam que mais tarde, ao postular-se candidato, Bush reuniu os pastores da zona e lhes comunicou: �fui chamado [por Deus]�. Em seguida fez-se o ritual �da imposição das mãos�, sagrando-o Presidente preventivo.
Essa pré-história é importante para se entender a fúria fundamentalista que se apossou de Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001. Optou combater o mal com o mal, ameaçando com guerra preventiva a todos os países do �eixo do mal�. Deixou claro: �Quem não está conosco, está contra nós�, é terrorista.
Antes do ultimato a Saddam Hussein, pediu aos assessores que �o deixassem a sós por dez minutos�. Qual Moisés foi consultar-se com Deus. E numa entrevista ao New York Times de 26/04/03 declarou: "Tenho uma missão a realizar e com os joelhos dobrados peço ao bom Senhor que me ajude a cumpri-la com sabedoria�. Pobre Deus! Como salvaremos a humanidade desses desvairados?
Fundamentalismo Mundial, Leonardo Boff
CulturaBrasil
O fundamentalismo do pensamento único apresenta o modo de produção capitalista com seu mercado globalizado e a ideologia política do neoliberalismo com sua democracia eleitoral e delegatícia como a única forma razoável de organizar o mundo. O que Bush quer impor por própria conta ao Iraque destroçado traduz esse fundamentalismo.
O fundamentalismo suicidário muçulmano parte da convicção de que o Ocidente, inimigo histórico desde os tempos das cruzadas, é o Grande Satã, porque é ateu prático, materialista, imperialista e sexista. Por isso, deve ser combatido em todas as frentes e fazer vítimas mais que se puder com as bênçãos do Altíssimo. São os únicos tão convencidos que aceitam jovialmente ser homens-bomba.
O fundamentalismo do Estado terrorista à la Sharon é movido pela convicção de que os judeus têm o direito, acima de qualquer outro direito dos palestinos, de montar Israel ao tamanho que tinha nos tempos do rei Davi. Por isso Sharon prossegue com as colonizações e enquanto não realizar esse propósito boicotará qualquer projeto de paz.
O fundamentalismo do Estado terrorista à la Bush possui fortes raízes religiosas, ligadas a sua biografia pregressa. Foi por vinte anos dependente de álcool até que em 1984, a convite de um amigo, Don Evans, atual secretário do comércio, começou a freqüentar o círculo bíblico dos evangélicos fundamentalistas. Após dois anos não era mais ébrio de álcool mas ébrio da ideologia salvacionista destes fundamentalistas que se divulgava fortemente dentro do partido republicano.
Segundo ela, �o destino manifesto� dos EUA hoje é melhorar o mundo na medida em que o impregnar com os valores da cultura norte-americana: com liberdade, democracia, e livre mercado. Bush filho fazia a campanha da reeleição do pai se apresentando como �um homem que tem Jesus em seu coração�. O brasilianista Ralph della Cava e o teólogo J. Stam contam que mais tarde, ao postular-se candidato, Bush reuniu os pastores da zona e lhes comunicou: �fui chamado [por Deus]�. Em seguida fez-se o ritual �da imposição das mãos�, sagrando-o Presidente preventivo.
Essa pré-história é importante para se entender a fúria fundamentalista que se apossou de Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001. Optou combater o mal com o mal, ameaçando com guerra preventiva a todos os países do �eixo do mal�. Deixou claro: �Quem não está conosco, está contra nós�, é terrorista.
Antes do ultimato a Saddam Hussein, pediu aos assessores que �o deixassem a sós por dez minutos�. Qual Moisés foi consultar-se com Deus. E numa entrevista ao New York Times de 26/04/03 declarou: "Tenho uma missão a realizar e com os joelhos dobrados peço ao bom Senhor que me ajude a cumpri-la com sabedoria�. Pobre Deus! Como salvaremos a humanidade desses desvairados?
Fundamentalismo Mundial, Leonardo Boff
CulturaBrasil
"arrastão fundamentalista"
...Numa democracia, as opiniões só existem na medida em que existe igualmente liberdade para as exprimir, divergir e criticar./...
Documento completo AQUI
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
12 caricaturas que estão abalando o mundo
Em nações ocidentais, liberdade de religião, expressão e de imprensa são diferentes aspectos da mesma liberdade. Na América, isso é fundamental. A Primeira Emenda une essas liberdades em um fundamento de direito para indivíduos acreditarem, cultuarem, pensarem e falarem de acordo com suas convicções. Como o crescente furor internacional sobre 12 caricaturas dinamarquesas demonstra, muitos muçulmanos no mundo islâmico não vêem a liberdade da mesma maneira. Quatro meses atrás, um jornal dinamarquês publicou charges que mostravam Maomé com variados graus de irreverência, incluindo uma na qual ele veste uma bomba em forma de turbante na cabeça, com um pavio. Tal caricatura é compreensivelmente ofensiva a devotos muçulmanos. O Alcorão desencoraja imagens artísticas no geral, e a tradição islâmica proíbe descrições de Maomé e outros respeitados como profetas. A charge do turbante-bomba conduz um insulto adicional: a implicação que o Islã em sua essência é violento e terrorista. Se somente os muçulmanos ofendidos pudessem protestar para o jornal – e deixar por isso mesmo. Ao invés disso, muitas pessoas através de muito do mundo islâmico têm se expressado furiosamente contra toda a nação da Dinamarca, boicotando seus produtos e – em poucos lugares – ameaçando cidadãos. A fúria agora foi estendida para a Noruega, França, Alemanha, Itália, Holanda, Espanha e Suíça, onde outros jornais imprimiram as mesmas caricaturas em solidariedade com a publicação dinamarquesa. Nos territórios palestinos, a Brigada dos Mártires de al-Aqsa alertou suecos e dinamarqueses para deixarem Gaza e a Margem Ocidental – “ou mais”. Homens armados em Gaza ameaçaram seqüestrar franceses, noruegueses, dinamarqueses e alemães ao menos que seus governos peçam desculpas pelas charges. Perderam eles a ironia? Em alguns países árabes, judeus são rotineiramente descritos em impressões como criaturas sub-humanas ou diabólicas. A preocupação sobre sensibilidades ofendidas pode ser notavelmente unilateral nesse mundo. A caricatura ilumina profundas diferenças entre o Ocidente e tradicionais sociedades islâmicas. Os muçulmanos protestantes consideram nações inteiras como responsáveis pelas ações dos jornais. Em muito do Oriente Médio, isso pode fazer sentido, porque os governos dessa região freqüentemente controlam a imprensa. Em lugares como Dinamarca e França, entretanto, isso simplesmente não ocorre. Mais fundamentalmente, liberdade de imprensa no Ocidente vence tabus de religiões sobre expressão. Na Europa Ocidental, assim como na América, cidadãos gozam de um alto grau de liberdade religiosa. Mas isso não inclui um direito de nunca ser ofendido ou ter a crença de alguém desafiada. Enfaticamente, isso não inclui ter uma religião privilegiada em detrimento das outras. Em um país livre, até mesmo discurso de blasfêmia é protegido – e o assunto, a ser contradito por fiéis. Sociedades islâmicas tendem a rejeitar tal ilimitada liberdade de expressão. Isso é assunto deles. Mas exigir que nações ocidentais rejeitem isso, também, é um passo em direção a um perigoso novo solo.
http://ultimosegundo.ig.com.br/materias/nytimes/2262501-2263000/2262863/2262863_1.xml
© Copyleft http://www.midiaindependente.org:É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.
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Cartoons that are shaking the world
OPINION Tacoma, WA - 12 cartoons that are shaking the world THE NEWS TRIBUNE Published: February 3rd, 2006 02:30 AM
In Western nations, freedom of religion, speech and the press are different aspects of the same liberty. In America, this is fundamental: The First Amendment knits these freedoms together into a bedrock right of individuals to believe, worship, think and speak according to their own convictions. As the escalating international furor over 12 Danish cartoons demonstrates, many Muslims in the Islamic world just don’t see freedom the same way. Four months ago, a Danish newspaper published cartoons that depict Muhammad with varying degrees of irreverence, including one in which he is wearing on his head a turban-shaped bomb with a burning fuse. Such a cartoon is understandably offensive to devout Muslims. The Quran discourages artistic images in general, and Islamic tradition forbids depictions of Muhammad and others regarded as prophets. The bomb-turban cartoon conveys an additional insult: the implication that Islam in its essence is violent and terroristic. If only the offended Muslims could have protested to the newspaper – and left it at that. Instead, many people through much of the Islamic world have been furiously venting against the entire nation of Denmark, boycotting its products and – in a few places – threatening its citizens. That fury has now been extended to Norway, France, Germany, Italy, the Nethlands, Spain and Switzerland, where other newspapers have printed the same cartoons out of solidarity with the Danish publication. In the Palestinian territories, the al-Aqsa Martyrs’ Brigade warned Swedes and Danes to get out of Gaza and the West Bank – “or else.” Gunmen in Gaza have threatened to kidnap French, Norwegians, Danes and Germans unless their governments apologize for the cartoon. Do they miss the irony? In some Arab countries, Jews are routinely depicted in print as subhuman or diabolic creatures. The concern over offended sensibilities can be remarkably one-sided in this world. The cartoon dispute highlights profound differences between the West and traditional Islamic societies. The protesting Muslims hold entire nations responsible for the actions of newspapers. In much of the Middle East that might make sense, because Middle Eastern governments often control the press. In places like Denmark and France, however, it just ain’t so. More fundamentally, freedom of the press in the West trumps religious taboos on expression. In Western Europe, as in America, citizens enjoy a high degree of religious freedom. But that doesn’t include a right never to be offended or have one’s beliefs challenged. It emphatically doesn’t include having a single religion privileged at the expense of others. In a free country, even blasphemous speech is protected – and subject to rebuttal by believers. Islamic societies tend to reject such unbounded freedom of expression. That’s their business. But demanding that Western nations reject it, too, is a step across a dangerous new threshold. http://www.thenewstribune.com/opinion/story/5501716p-4959178c.html
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/02/344774.shtml
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In Western nations, freedom of religion, speech and the press are different aspects of the same liberty. In America, this is fundamental: The First Amendment knits these freedoms together into a bedrock right of individuals to believe, worship, think and speak according to their own convictions. As the escalating international furor over 12 Danish cartoons demonstrates, many Muslims in the Islamic world just don’t see freedom the same way. Four months ago, a Danish newspaper published cartoons that depict Muhammad with varying degrees of irreverence, including one in which he is wearing on his head a turban-shaped bomb with a burning fuse. Such a cartoon is understandably offensive to devout Muslims. The Quran discourages artistic images in general, and Islamic tradition forbids depictions of Muhammad and others regarded as prophets. The bomb-turban cartoon conveys an additional insult: the implication that Islam in its essence is violent and terroristic. If only the offended Muslims could have protested to the newspaper – and left it at that. Instead, many people through much of the Islamic world have been furiously venting against the entire nation of Denmark, boycotting its products and – in a few places – threatening its citizens. That fury has now been extended to Norway, France, Germany, Italy, the Nethlands, Spain and Switzerland, where other newspapers have printed the same cartoons out of solidarity with the Danish publication. In the Palestinian territories, the al-Aqsa Martyrs’ Brigade warned Swedes and Danes to get out of Gaza and the West Bank – “or else.” Gunmen in Gaza have threatened to kidnap French, Norwegians, Danes and Germans unless their governments apologize for the cartoon. Do they miss the irony? In some Arab countries, Jews are routinely depicted in print as subhuman or diabolic creatures. The concern over offended sensibilities can be remarkably one-sided in this world. The cartoon dispute highlights profound differences between the West and traditional Islamic societies. The protesting Muslims hold entire nations responsible for the actions of newspapers. In much of the Middle East that might make sense, because Middle Eastern governments often control the press. In places like Denmark and France, however, it just ain’t so. More fundamentally, freedom of the press in the West trumps religious taboos on expression. In Western Europe, as in America, citizens enjoy a high degree of religious freedom. But that doesn’t include a right never to be offended or have one’s beliefs challenged. It emphatically doesn’t include having a single religion privileged at the expense of others. In a free country, even blasphemous speech is protected – and subject to rebuttal by believers. Islamic societies tend to reject such unbounded freedom of expression. That’s their business. But demanding that Western nations reject it, too, is a step across a dangerous new threshold. http://www.thenewstribune.com/opinion/story/5501716p-4959178c.html
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nota 4 e nota 7
Podemos criticar, satirizar e atacar todas as ideias e convicções, incluindo as religiosas. É isso que define a liberdade. Quem se sente ofendido protesta, responde, escreve cartas, faz petições, organiza boicotes, exprime o seu desagrado por meios pacíficos. Contesta as opiniões, não contesta a liberdade de expressão.
Não há civilizações «superiores» em abstracto. Mas há sociedades organizadas de modo globalmente mais justo e mais decente. A Dinamarca (em 2006) é uma sociedade mais justa e mais decente do que o Irão (em 2006). Não numa abstracção «civilizacional» mas no concreto dos direitos, liberdades e garantias, do nível de vida e das condições necessárias à dignidade humana. Os ocidentais que dizem o contrário disto estão em simples denegação sectária. Ninguém prefere viver no Irão do que na Dinamarca. É apenas nesse sentido que a Dinamarca é «superior» ao Irão. Mas esse sentido não é coisa de somenos.
Os cartoons: nove notas
Não há civilizações «superiores» em abstracto. Mas há sociedades organizadas de modo globalmente mais justo e mais decente. A Dinamarca (em 2006) é uma sociedade mais justa e mais decente do que o Irão (em 2006). Não numa abstracção «civilizacional» mas no concreto dos direitos, liberdades e garantias, do nível de vida e das condições necessárias à dignidade humana. Os ocidentais que dizem o contrário disto estão em simples denegação sectária. Ninguém prefere viver no Irão do que na Dinamarca. É apenas nesse sentido que a Dinamarca é «superior» ao Irão. Mas esse sentido não é coisa de somenos.
Os cartoons: nove notas
Medicina, indústria e turismo
"Ainda é cedo para avaliar o método de ensino da novel Faculdade das Ciências da Saúde da UBI...Qualquer tentativa de avaliação seria completamente desprovida de sentido.
Mas o entusiasmo dos novos alunos no primeiro contacto com o Complexo Hospitalar da Cova da Beira diz o suficiente para sermos optimistas em relação aos futuros médicos formados no novo modelo de ensino.
E isto já é um sinal positivo a servir de aviso aos Velhos do Restelo que tudo fizeram para impedir a atribuição à Covilhã desta nova Faculdade. Não que haja no ar qualquer intenção de pequena vingança. Pelo contrário. Os senhores dos lóbis instalados têm já a partir de agora motivos para repensar as suas atitudes na valorização das iniciativas lançadas no Interior.
O tempo na sua inexorável caminhada ditará a justeza da decisão tomada pelo poder político.
A Faculdade das Ciências da Saúde como consolidação da UBI e articulada com outras iniciativas lançadas projecta a Covilhã comum pólo dinamizador do eixo Guarda-Covihã-Castelo Branco.
Não se vejam aqui laivos de qualquer bairrismo barato e, fora de moda, mas tão somente a realidade dos factos sem contestação.
O Parque de Ciência e Tecnologia é uma rampa de lançamento não só na criação de novos empregos mas também no aprofundamento da investigação que pode dar à região um novo elã de carácter industrial.
O Parque Industrial do Tortosendo aparece como uma nova locomotiva na dinamização do tecido empresarial. Trata-se de lançar os alicerces para igualmente fixar licenciados da UBI e garantir, com os pés bem assentes na terra, um futuro consolidado.
A dimensão do novo Parque traduz as ambições que se desejam para a diversificação das novas indústrias.
A revitalização das Termas de Unhais vê finalmente chegada a sua hora. Para além dos tratamentos termais, é um incentivo para passagem de férias e actividades na área do lazer. Conjugadas com a estrada de ligação à Serra da Estrela pela barragem do padre Alfredo, as Termas passam a dispor de um atractivo e belo passeio turístico que pode dar novo alento às Penhas da Saúde e aliciar novos circuitos pela Torre e Manteigas.
Um outro circuito alternativo é seguir pelas Pedras Lavradas a rota do Sobral de São Miguel, Casegas e Paul com visita a lugares típicos e incursão pela rica gastronomia desde os maranhos às trutas.
Quando houver uma ligação condigna do Sobral de São Miguel ou de Casegas a São Jorge da Beira, temos aí paisagens virgens e locais aprazíveis para descansar o espírito e saborear horizontes de sonho.
A partir da UBI, do Parque de Ciência e Tecnologia, do Parque Industrial do Tortosendo e das Termas de Unhais da Serra, a Covilhã como pólo de desenvolvimento dispõe de virtualidades que lhe auguram um futuro promissor. Com médicos a fixarem-se na região o optimismo é regra. Não desanimem os homens a levar a tarefa até ao fim.
Nós, nesta modesta trincheira, nunca daremos tréguas à passividade e à indiferença e estaremos sempre na linha da frente para que a Covilhã ocupe o lugar que lhe compete na dinamização do eixo da Serra na linha de complementaridade. Na exigência da justiça que sabemos nos pertencer e nas razões que, com toda a evidência, nos assistem".
José Geraldes
Mas o entusiasmo dos novos alunos no primeiro contacto com o Complexo Hospitalar da Cova da Beira diz o suficiente para sermos optimistas em relação aos futuros médicos formados no novo modelo de ensino.
E isto já é um sinal positivo a servir de aviso aos Velhos do Restelo que tudo fizeram para impedir a atribuição à Covilhã desta nova Faculdade. Não que haja no ar qualquer intenção de pequena vingança. Pelo contrário. Os senhores dos lóbis instalados têm já a partir de agora motivos para repensar as suas atitudes na valorização das iniciativas lançadas no Interior.
O tempo na sua inexorável caminhada ditará a justeza da decisão tomada pelo poder político.
A Faculdade das Ciências da Saúde como consolidação da UBI e articulada com outras iniciativas lançadas projecta a Covilhã comum pólo dinamizador do eixo Guarda-Covihã-Castelo Branco.
Não se vejam aqui laivos de qualquer bairrismo barato e, fora de moda, mas tão somente a realidade dos factos sem contestação.
O Parque de Ciência e Tecnologia é uma rampa de lançamento não só na criação de novos empregos mas também no aprofundamento da investigação que pode dar à região um novo elã de carácter industrial.
O Parque Industrial do Tortosendo aparece como uma nova locomotiva na dinamização do tecido empresarial. Trata-se de lançar os alicerces para igualmente fixar licenciados da UBI e garantir, com os pés bem assentes na terra, um futuro consolidado.
A dimensão do novo Parque traduz as ambições que se desejam para a diversificação das novas indústrias.
A revitalização das Termas de Unhais vê finalmente chegada a sua hora. Para além dos tratamentos termais, é um incentivo para passagem de férias e actividades na área do lazer. Conjugadas com a estrada de ligação à Serra da Estrela pela barragem do padre Alfredo, as Termas passam a dispor de um atractivo e belo passeio turístico que pode dar novo alento às Penhas da Saúde e aliciar novos circuitos pela Torre e Manteigas.
Um outro circuito alternativo é seguir pelas Pedras Lavradas a rota do Sobral de São Miguel, Casegas e Paul com visita a lugares típicos e incursão pela rica gastronomia desde os maranhos às trutas.
Quando houver uma ligação condigna do Sobral de São Miguel ou de Casegas a São Jorge da Beira, temos aí paisagens virgens e locais aprazíveis para descansar o espírito e saborear horizontes de sonho.
A partir da UBI, do Parque de Ciência e Tecnologia, do Parque Industrial do Tortosendo e das Termas de Unhais da Serra, a Covilhã como pólo de desenvolvimento dispõe de virtualidades que lhe auguram um futuro promissor. Com médicos a fixarem-se na região o optimismo é regra. Não desanimem os homens a levar a tarefa até ao fim.
Nós, nesta modesta trincheira, nunca daremos tréguas à passividade e à indiferença e estaremos sempre na linha da frente para que a Covilhã ocupe o lugar que lhe compete na dinamização do eixo da Serra na linha de complementaridade. Na exigência da justiça que sabemos nos pertencer e nas razões que, com toda a evidência, nos assistem".
José Geraldes
À sombra do castanheiro
"- Então o Tio Ambrósio, este ano, não vai passar uns dias de férias até às praias do sul? Cá por cima as temperaturas não têm estado nada convidativas para uns mergulhos retemperadores. Até nisto os tempos mudaram...
- Mudaram os tempos e mudaram as vontades, Carlos! Antigamente, por estas alturas, eu quase não era capaz de resistir a um convite, sobretudo do meu afilhado Jacinto, para ir por aí fora, quase sem destino, de aldeia em aldeia, em busca dos costumes das nossas gentes. Era aquilo a que eu chamava encher a alma de portugalidade.
- Eu preferia uns dias descansado, a torrar as costas numa das nossas belas praias, e a regalar-me com um petisco, a meio da tarde, na companhia do meu cunhado Acácio, enquanto a Joana e a irmã Ermelinda passavam em revista, numa daquelas conversas intermináveis, todos os acontecimentos sociais do Cabeço nos últimos tempos.
- Aí tens um dos motivos porque eu costumo dizer que não somos todos iguais. Vocês divertem-se e descansam, em amena cavaqueira, em frente dum copo de cerveja, enquanto as mulheres usam a tesoura social, cortando na vida alheia. Pela minha parte, prefiro sempre um passeio a uma alta montanha, de onde se possa apreciar um panorama que nos encha a alma de coloridos novos, de onde se possa alargar o olhar até ao infinito. Eu não sei, por exemplo, se tu algum dia te deste ao trabalho de subir ao cimo do Colcurinho, de onde se avistam terras de todo o planalto beirão, e uma infinidade de pequenas aldeias semeadas pelas encostas dos montes. É um quadro bonito de se ver!
- Onde eu ainda gostava de voltar era ao Penedo da Torre ou ao Picoto de Cebola. O Tio Ambrósio já lá foi?
- Quando era mais novo e as pernas me deixavam, Carlos! Agora limito-me a visitar os locais onde chega o automóvel. Que eu saiba, ainda não há estrada para o Picoto.
- Só a butes, Tio Ambrósio! O que há é um carreiro, nalguns lados já pouco conhecido por falta de utilizadores. Agora já não há carvoeiros e os pastores já pouco frequentam aquelas paragens. E para o Penedo da Torre ainda é mais difícil. Trata-se dum passeio só acessível a rapaziada de vinte anos e com boa preparação física. Que o diga o meu afilhado Leonardo, que ainda o ano passado me enviou uma bela fotografia com o panorama que dali se pode apreciar, com montes a perderem-se de vista até ao azul do infinito...
- Isso quase pode considerar-se um desporto radical, que já não é bem próprio para homens que precisam de um cajado para auxiliarem as pernas. No entanto, como te disse, há muitos outros lugares onde se pode chegar com maior facilidade, e donde podemos desfrutar de deslumbrantes paisagens, cheias de colorido e de encanto Aqui bem perto tens o alto do Trevim, na serra da Lousã. Ou então a Cruz Alta, na serra Buçaco, ou mesmo a Senhora do Círculo, nos arredores de Condeixa. Vale a pena um passeio a qualquer desses sítios, para respirar um pouco de ar puro e alongar os olhos pela distância, desde o interior das Beiras até ao mar...
- Assim numa escapadela, na companhia do Sanguessuga e do Acácio, todos acompanhados das respectivas famílias, é bem possível que, num domingo destes, ponhamos os pés ao caminho. A Joana maila Ermelinda arranjam uma merenda farta, com pastéis de bacalhau, rissóis de camarão e um arroz à valenciana, e vamos dar ao dente para uma sombra refrescante num desses locais aprazíveis. O problema é o regresso, pois apenas a Ermelinda, entre as mulheres, pode trazer o automóvel.
- Agora, com estas novas leis sobre a ingestão de álcool, os condutores têm que tomar as devidas cautelas. Bebe-se menos, Carlos!
- Que remédio, Tio Ambrósio! Nós temo-nos por cidadãos conscientes! É verdade que, de quando em vez, nos nossos convívios, um ou outro elemento encharca a vela. Mas, em regra, todos os do nosso grupo sabem ocupar o seu lugar.
- Nem outra coisa seria de esperar de pessoas com sólida formação moral. Por isso, façam o favor de aproveitar os domingos para, depois da participação na missa, darem uma volta com as vossas famílias. Mas não se limitem à merenda melhorada. Tenham sempre o objectivo da valorização pessoal. Muitos de nós somos incultos por burrice própria, pois não sabemos aproveitar as ocasiões que se nos oferecem para adquirirmos mais conhecimentos. Uma boa parte dos cabecenses, por exemplo, nunca entraram num museu.
- Isso é verdade, Tio Ambrósio! Mas olhe que as entradas nesses lugares custam sempre mais de quinhentos mil réis por pessoa. Para urna família de cinco ou seis elementos é pesado. A não ser que se troque a merenda por uma visita guiada...
- Tens razão, Carlos! Eu, por vezes, até me esqueço que muitas das nossas famílias vivem com orçamentos apertados...
- E, por isso, resta-nos o gosto da merenda e do convívio com os amigos. Barriga composta e alegria! Contentamo-nos com pouco, não acha?"
O Amigo do Povo
- Mudaram os tempos e mudaram as vontades, Carlos! Antigamente, por estas alturas, eu quase não era capaz de resistir a um convite, sobretudo do meu afilhado Jacinto, para ir por aí fora, quase sem destino, de aldeia em aldeia, em busca dos costumes das nossas gentes. Era aquilo a que eu chamava encher a alma de portugalidade.
- Eu preferia uns dias descansado, a torrar as costas numa das nossas belas praias, e a regalar-me com um petisco, a meio da tarde, na companhia do meu cunhado Acácio, enquanto a Joana e a irmã Ermelinda passavam em revista, numa daquelas conversas intermináveis, todos os acontecimentos sociais do Cabeço nos últimos tempos.
- Aí tens um dos motivos porque eu costumo dizer que não somos todos iguais. Vocês divertem-se e descansam, em amena cavaqueira, em frente dum copo de cerveja, enquanto as mulheres usam a tesoura social, cortando na vida alheia. Pela minha parte, prefiro sempre um passeio a uma alta montanha, de onde se possa apreciar um panorama que nos encha a alma de coloridos novos, de onde se possa alargar o olhar até ao infinito. Eu não sei, por exemplo, se tu algum dia te deste ao trabalho de subir ao cimo do Colcurinho, de onde se avistam terras de todo o planalto beirão, e uma infinidade de pequenas aldeias semeadas pelas encostas dos montes. É um quadro bonito de se ver!
- Onde eu ainda gostava de voltar era ao Penedo da Torre ou ao Picoto de Cebola. O Tio Ambrósio já lá foi?
- Quando era mais novo e as pernas me deixavam, Carlos! Agora limito-me a visitar os locais onde chega o automóvel. Que eu saiba, ainda não há estrada para o Picoto.
- Só a butes, Tio Ambrósio! O que há é um carreiro, nalguns lados já pouco conhecido por falta de utilizadores. Agora já não há carvoeiros e os pastores já pouco frequentam aquelas paragens. E para o Penedo da Torre ainda é mais difícil. Trata-se dum passeio só acessível a rapaziada de vinte anos e com boa preparação física. Que o diga o meu afilhado Leonardo, que ainda o ano passado me enviou uma bela fotografia com o panorama que dali se pode apreciar, com montes a perderem-se de vista até ao azul do infinito...
- Isso quase pode considerar-se um desporto radical, que já não é bem próprio para homens que precisam de um cajado para auxiliarem as pernas. No entanto, como te disse, há muitos outros lugares onde se pode chegar com maior facilidade, e donde podemos desfrutar de deslumbrantes paisagens, cheias de colorido e de encanto Aqui bem perto tens o alto do Trevim, na serra da Lousã. Ou então a Cruz Alta, na serra Buçaco, ou mesmo a Senhora do Círculo, nos arredores de Condeixa. Vale a pena um passeio a qualquer desses sítios, para respirar um pouco de ar puro e alongar os olhos pela distância, desde o interior das Beiras até ao mar...
- Assim numa escapadela, na companhia do Sanguessuga e do Acácio, todos acompanhados das respectivas famílias, é bem possível que, num domingo destes, ponhamos os pés ao caminho. A Joana maila Ermelinda arranjam uma merenda farta, com pastéis de bacalhau, rissóis de camarão e um arroz à valenciana, e vamos dar ao dente para uma sombra refrescante num desses locais aprazíveis. O problema é o regresso, pois apenas a Ermelinda, entre as mulheres, pode trazer o automóvel.
- Agora, com estas novas leis sobre a ingestão de álcool, os condutores têm que tomar as devidas cautelas. Bebe-se menos, Carlos!
- Que remédio, Tio Ambrósio! Nós temo-nos por cidadãos conscientes! É verdade que, de quando em vez, nos nossos convívios, um ou outro elemento encharca a vela. Mas, em regra, todos os do nosso grupo sabem ocupar o seu lugar.
- Nem outra coisa seria de esperar de pessoas com sólida formação moral. Por isso, façam o favor de aproveitar os domingos para, depois da participação na missa, darem uma volta com as vossas famílias. Mas não se limitem à merenda melhorada. Tenham sempre o objectivo da valorização pessoal. Muitos de nós somos incultos por burrice própria, pois não sabemos aproveitar as ocasiões que se nos oferecem para adquirirmos mais conhecimentos. Uma boa parte dos cabecenses, por exemplo, nunca entraram num museu.
- Isso é verdade, Tio Ambrósio! Mas olhe que as entradas nesses lugares custam sempre mais de quinhentos mil réis por pessoa. Para urna família de cinco ou seis elementos é pesado. A não ser que se troque a merenda por uma visita guiada...
- Tens razão, Carlos! Eu, por vezes, até me esqueço que muitas das nossas famílias vivem com orçamentos apertados...
- E, por isso, resta-nos o gosto da merenda e do convívio com os amigos. Barriga composta e alegria! Contentamo-nos com pouco, não acha?"
O Amigo do Povo
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
Histórias da História de Ceira
"O rio Mondego nasce na Serra da Estrela e parte, serra abaixo, em direcção ao mar. Depois de receber as águas do Dão, serpenteia num vale apertado entre encostas até que, subitamente, no lugar da Portela, está ás portas de Coimbra e aproxima-se, finalmente, da planície. É aqui que recebe as boas-vindas do rio Ceira, descido ao seu encontro desde a Serra de S. Pedro do Açor.
Os dois rios encontram-se onde a ponte de ferro, velha de 125 anos, dá passagem à Estrada da Beira, que de Coimbra vai em direcção á Guarda e à fronteira de Vilar Formoso. Ao lado dessa ponte, uma outra, por onde o comboio se dirige à Lousã.
É um lugar cruzamento de caminhos, quer o que é já desusado - o caminho do rio por onde os barqueiros antigamente transportavam pessoas e mercadorias -, quer os outros, cheios de movimento. Ali mesmo, sobre um morro sobranceiro, foi construída a Escola Básica 2,3 de Ceira. As suas janelas mereceram uma paisagem encantadora. As águas dos dois rios que se encontram, as encostas verdes que lhes ladeiam as margens, o casario das povoações próximas, constituem um cenário que encanta quem o vê. E para esta Escola vêm, todos os dias, os jovens da Vila de Ceira e das povoações que lhe estão ligadas.
As terras junto ao Ceira estiveram desde o séc. VIII, como o resto da região, na posse dos muçulmanos. Durante essa ocupação, os mouros permitiam que a vida decorresse com normalidade em troca do pagamento de contribuições. Depois, com o início da reconquista, a região tornou-se terra de constantes lutas. Nessa altura, entre os séculos IX e XII, quando Coimbra era a cidade cristã mais ao sul, a população destes lugares sofreu as angústias de ser uma terra de fronteira, constantemente sujeita à destruição de colheitas e ao perigo de vida provocado pelas incursões, ora cristãs, ora mouras. Quando D. Afonso Henriques tomou o poder, a linha de defesa da região de Coimbra era constituída pelo largo semicírculo formado pelos castelos de Penacova, Arouce (Lousã), Miranda, Penela, Soure, Montemor e Santa Eulália.
Muitos dos confrontos que nesta época se davam entre cristãos e mouros resultavam de rápidas incursões de inimigos no território, geralmente dirigidas, não à povoação em si, mas aos campos de cultivo e às pastagens e matas, a fim de se apoderarem de alimentos, gado ou lenha. Era arriscado sair para longe da povoação, mas ás vezes tornava-se necessário fazê-lo; quando as populações fronteiriças saíam a cortar lenha e madeira, criava-se um destacamento de gente que os protegesse. Dava-se a esta operação o nome de azaria (de azza = machado); se os mouros os surpreendiam, havia uma luta que tomava o nome de azar.
Para diminuir o perigo, construíam-se ou reaproveitavam-se pequenas fortificações, simples torres, que tinham grande importância porque serviam de atalaias de dia e de escutas durante a noite. Quando se detectava a aproximação do inimigo, faziam-se sinais por meio de almenaras (fumo ou fogo) que avisavam do perigo os vigilantes de outros locais. Então tocava-se a rebate e chamava-se o povo. Esta convocação repentina era conhecida por apelidar a terra; o apelido era a resistência ao ataque dos mouros.
Cercando o vale da foz do Ceira, existiam várias destas pequenas fortificações, não se sabe bem se aproveitadas de época anterior ou se construídas na altura. Resta a memória de duas, uma através do nome da terra, Castelo Viegas, outra ainda visível, embora em ruínas, a torre de Bera.
Porém, a acção sistemática de reconquista levada a cabo por D. Afonso Henriques começa a dar os seus frutos. O castelo de Leiria é construído em 1135, procurando-se assim suster as investidas mouras mais a sul. Miranda vê o seu castelo reconstruído em 1136 e recebe foral, tal como Arouce. Os habitantes da região de Ceira, embora livres de ataques directos, por certo ainda sofriam grandes angústias com as notícias das constantes incursões mouras na região de Ladeia, perto do Rabaçal.
A segurança total só terá vindo com a conquista de Santarém em 1142, quando a terra de ninguém, palco de lutas, desceu para sul do Tejo.
Ceira, senhorio de Mestre Julião Pais
Nesta época, o governo não tinha sede certa e permanente. As frequentes viagens da corte faziam com que o centro da administração fosse a cidade, a vila ou o lugar onde o rei se encontrava. Na sua tarefa de governante, o rei era auxiliado pela Cúria Régia, conselho de grandes do reino que o acompanhavam. Dessa Cúria, além do alferes-mor, do mordomo e de outros, fazia parte o chanceler (cancellarius).
Era a este alto funcionário que estava confiada a guarda do selo real que autenticava todos os documentos régios. Superintendia ao trabalho dos funcionários da chancelaria, tanto dos escrivães, como dos notários; todos os actos régios passavam pelas suas mãos, já que muitas vezes supervisionava a redacção ou redigia ele próprio documentos régios e era quem os autenticava com o selo pendente ou com o signum regis. Além disso, o chanceler era também o chefe da magistratura.
Sucedeu que D. Afonso Henriques, após o desastre de Badajoz em 1169, altura em que partiu uma perna, foi obrigado a uma vida mais sedentária. Nessa altura, estabeleceu-se em Coimbra, cidade a que estava ligado Julião Pais, quer por laços familiares quer pela posse de bens. A partir de 1183, é a este senhor de Ceira que é entregue a chancelaria cuja responsabilidade viria a assumir até 1215, ano da sua morte.
O Infante D. Sancho já participava na maior parte dos actos públicos durante os últimos anos do reinado do seu pai. Mas quando chegou o momento de lhe suceder no trono, a continuidade da administração foi sobretudo assegurada por este célebre chanceler que, em 1185, data da morte de D. Afonso I, exercia o cargo havia dois anos. Gerindo os negócios públicos com grande sabedoria, manteve as funções durante todo o reinado de D. Sancho I e ainda nos primeiros tempos do reinado de D. Afonso II.
O título de Mestre que lhe era atribuído tornou-se um reconhecimento da sua grande sabedoria e dos vastos conhecimentos jurídicos que dele fizeram um dos vultos a cuja acção se deveu a consolidação do reino português.
Deve ter sido esse valor que fez com que D. Afonso Henriques, desejando beneficiar o seu ilustre chanceler, Mestre Julião Pais - um dos homens mais importantes do Portugal de então - tenha justamente escolhido Ceira e o seu termo para constituir o senhorio que lhe concedeu em 1180. Não foi possível, no entanto, encontrar até agora notícia de qual o fim que estas terras tiveram após a morte do chanceler Julião, em 1215.
O foral manuelino de vila nova de Ceira
Em 1514, Ceira recebeu de foral D. Manuel.
Na época em que o foral foi outorgado, os lugares da vila possuíam, além da produção agrícola, o valor dos moinhos e pisões que, movidos pela força das águas do rio Ceira, serviriam as populações locais e dos arredores. Além disso, aqui ficava um importante porto fluvial. Numa época em que as estradas não passavam de caminhos e carreiros, o transporte fluvial era o mais fácil e eficaz. Quer mercadorias, quer pessoas, tudo se transportava pelo rio. E nesta confluência de "estradas" fluviais - o Mondego, o Ceira e o Dueça - um porto tinha um valor acrescido.
Em 1643, o Processo de vistoria que, a requerimento do juiz de Ceira, se fez a uns baldios no dito lugar, prova que a povoação era ainda um concelho, visto que ainda tinha juiz.
Entre 1827 e 1836 mantém-se a categoria administrativa, comprovada pelo Livro de Coimas do Concelho de Ceira, um registo de coimas por transgressões de posturas municipais que está interrompido após o último auto de coima registado a 7 de Fevereiro de 1836.
No entanto, no Termo de recenseamento eleitoral do mesmo ano de 1836, Ceira consta já como freguesia do concelho de Coimbra. Embora não tenha sido até agora possível encontrar elementos precisos sobre esta modificação, é de notar que ela é contemporânea das reformas administrativas de Passos Manuel, no início do reinado de Dª. Maria II.
Ceira no séc. XX
Nos finais do séc. XIX, as estradas macadamizadas começaram a reduzir a importância do transporte fluvial. A produção industrial de tecidos tinha tornado obsoletos os pisões, que desapareceram sem deixar memória nas gentes que hoje ali vivem. A industrialização também veio a diminuir o trabalho dos moinhos. Apenas a agricultura familiar continuava a ser uma riqueza apreciável. Talvez tenha sido então que os serviços prestados aos habitantes da cidade de Coimbra se tornaram um dos principais meios de subsistência da população de Ceira.
No início do séc. XX, na obra Notas de Arqueologia e Etnografia do Concelho de Coimbra, a respeito de Ceira, Vergílio Correia refere a ausência de monumentos capazes de interessar os estudiosos. No entanto sublinha o pitoresco do local, descrevendo as inundações que transformam o vale num lago, os pinhais que formam "uma selva escura e densa" nas encostas da Joariça ou Aljuriça, as oliveiras que "laivam de cinzento o vermelho dos barros".
Em meados do séc. XX, a maior parte da população da freguesia de Ceira vivia do cultivo de leiras de terra, feito em grande parte pelas mulheres, já que a maior parte dos homens trabalhava na cidade em diversos ofícios.
Na mesma época, as mulheres ocupavam-se também da lavagem da roupa das senhoras de Coimbra, tarefa em que se tornaram famosas usando a sua antiga sabedoria popular.
A roupa era recolhida nas casas da cidade à Segunda-feira e trazida em grandes trouxas sobre um carro de bois. No dia seguinte, havia que fazer a barrela, tarefa que exigia uma noite passada ali, à beira-rio fizesse o tempo que fizesse. Não havia sujidade que resistisse à acção das cinzas e da água quente.
Durante o resto da semana, era preciso secar dezenas e dezenas de lençóis, toalhas, fronhas, guardanapos... Se o tempo fazia negaças, era um corrilório para os pinhais, onde faziam o estendal, ora a pôr, ora a tirar a roupa. E, na Segunda-feira seguinte, lá partiam de novo para Coimbra, a levar a roupa branquinha e a trazer novas trouxas de roupa suja.
As mulheres de Ceira ainda arranjavam tempo para ir à cidade e andar a vender, de casa em casa, os raminhos de carqueja que então era usada para acender os fogões das cozinhas.
Mas os tempos mudaram e as máquinas de lavar e os novos fogões fizeram desaparecer estes trabalhos, que hoje não são mais do que uma recordação.
Ceira foi elevada a Vila no mês de Junho de 1997.
Hoje, é povoada por pessoas que trabalham essencialmente em Coimbra, no comércio, na indústria e em serviços. São também célebres os seus viveiros de árvores de fruto.
Com o crescimento da cidade de Coimbra, tornou-se numa povoação de subúrbio. No entanto procura manter uma vida cultural própria..."
Trabalho feito por alunos da eb23 - Ceira
Os dois rios encontram-se onde a ponte de ferro, velha de 125 anos, dá passagem à Estrada da Beira, que de Coimbra vai em direcção á Guarda e à fronteira de Vilar Formoso. Ao lado dessa ponte, uma outra, por onde o comboio se dirige à Lousã.
É um lugar cruzamento de caminhos, quer o que é já desusado - o caminho do rio por onde os barqueiros antigamente transportavam pessoas e mercadorias -, quer os outros, cheios de movimento. Ali mesmo, sobre um morro sobranceiro, foi construída a Escola Básica 2,3 de Ceira. As suas janelas mereceram uma paisagem encantadora. As águas dos dois rios que se encontram, as encostas verdes que lhes ladeiam as margens, o casario das povoações próximas, constituem um cenário que encanta quem o vê. E para esta Escola vêm, todos os dias, os jovens da Vila de Ceira e das povoações que lhe estão ligadas.
As terras junto ao Ceira estiveram desde o séc. VIII, como o resto da região, na posse dos muçulmanos. Durante essa ocupação, os mouros permitiam que a vida decorresse com normalidade em troca do pagamento de contribuições. Depois, com o início da reconquista, a região tornou-se terra de constantes lutas. Nessa altura, entre os séculos IX e XII, quando Coimbra era a cidade cristã mais ao sul, a população destes lugares sofreu as angústias de ser uma terra de fronteira, constantemente sujeita à destruição de colheitas e ao perigo de vida provocado pelas incursões, ora cristãs, ora mouras. Quando D. Afonso Henriques tomou o poder, a linha de defesa da região de Coimbra era constituída pelo largo semicírculo formado pelos castelos de Penacova, Arouce (Lousã), Miranda, Penela, Soure, Montemor e Santa Eulália.
Muitos dos confrontos que nesta época se davam entre cristãos e mouros resultavam de rápidas incursões de inimigos no território, geralmente dirigidas, não à povoação em si, mas aos campos de cultivo e às pastagens e matas, a fim de se apoderarem de alimentos, gado ou lenha. Era arriscado sair para longe da povoação, mas ás vezes tornava-se necessário fazê-lo; quando as populações fronteiriças saíam a cortar lenha e madeira, criava-se um destacamento de gente que os protegesse. Dava-se a esta operação o nome de azaria (de azza = machado); se os mouros os surpreendiam, havia uma luta que tomava o nome de azar.
Para diminuir o perigo, construíam-se ou reaproveitavam-se pequenas fortificações, simples torres, que tinham grande importância porque serviam de atalaias de dia e de escutas durante a noite. Quando se detectava a aproximação do inimigo, faziam-se sinais por meio de almenaras (fumo ou fogo) que avisavam do perigo os vigilantes de outros locais. Então tocava-se a rebate e chamava-se o povo. Esta convocação repentina era conhecida por apelidar a terra; o apelido era a resistência ao ataque dos mouros.
Cercando o vale da foz do Ceira, existiam várias destas pequenas fortificações, não se sabe bem se aproveitadas de época anterior ou se construídas na altura. Resta a memória de duas, uma através do nome da terra, Castelo Viegas, outra ainda visível, embora em ruínas, a torre de Bera.
Porém, a acção sistemática de reconquista levada a cabo por D. Afonso Henriques começa a dar os seus frutos. O castelo de Leiria é construído em 1135, procurando-se assim suster as investidas mouras mais a sul. Miranda vê o seu castelo reconstruído em 1136 e recebe foral, tal como Arouce. Os habitantes da região de Ceira, embora livres de ataques directos, por certo ainda sofriam grandes angústias com as notícias das constantes incursões mouras na região de Ladeia, perto do Rabaçal.
A segurança total só terá vindo com a conquista de Santarém em 1142, quando a terra de ninguém, palco de lutas, desceu para sul do Tejo.
Ceira, senhorio de Mestre Julião Pais
Nesta época, o governo não tinha sede certa e permanente. As frequentes viagens da corte faziam com que o centro da administração fosse a cidade, a vila ou o lugar onde o rei se encontrava. Na sua tarefa de governante, o rei era auxiliado pela Cúria Régia, conselho de grandes do reino que o acompanhavam. Dessa Cúria, além do alferes-mor, do mordomo e de outros, fazia parte o chanceler (cancellarius).
Era a este alto funcionário que estava confiada a guarda do selo real que autenticava todos os documentos régios. Superintendia ao trabalho dos funcionários da chancelaria, tanto dos escrivães, como dos notários; todos os actos régios passavam pelas suas mãos, já que muitas vezes supervisionava a redacção ou redigia ele próprio documentos régios e era quem os autenticava com o selo pendente ou com o signum regis. Além disso, o chanceler era também o chefe da magistratura.
Sucedeu que D. Afonso Henriques, após o desastre de Badajoz em 1169, altura em que partiu uma perna, foi obrigado a uma vida mais sedentária. Nessa altura, estabeleceu-se em Coimbra, cidade a que estava ligado Julião Pais, quer por laços familiares quer pela posse de bens. A partir de 1183, é a este senhor de Ceira que é entregue a chancelaria cuja responsabilidade viria a assumir até 1215, ano da sua morte.
O Infante D. Sancho já participava na maior parte dos actos públicos durante os últimos anos do reinado do seu pai. Mas quando chegou o momento de lhe suceder no trono, a continuidade da administração foi sobretudo assegurada por este célebre chanceler que, em 1185, data da morte de D. Afonso I, exercia o cargo havia dois anos. Gerindo os negócios públicos com grande sabedoria, manteve as funções durante todo o reinado de D. Sancho I e ainda nos primeiros tempos do reinado de D. Afonso II.
O título de Mestre que lhe era atribuído tornou-se um reconhecimento da sua grande sabedoria e dos vastos conhecimentos jurídicos que dele fizeram um dos vultos a cuja acção se deveu a consolidação do reino português.
Deve ter sido esse valor que fez com que D. Afonso Henriques, desejando beneficiar o seu ilustre chanceler, Mestre Julião Pais - um dos homens mais importantes do Portugal de então - tenha justamente escolhido Ceira e o seu termo para constituir o senhorio que lhe concedeu em 1180. Não foi possível, no entanto, encontrar até agora notícia de qual o fim que estas terras tiveram após a morte do chanceler Julião, em 1215.
O foral manuelino de vila nova de Ceira
Em 1514, Ceira recebeu de foral D. Manuel.
Na época em que o foral foi outorgado, os lugares da vila possuíam, além da produção agrícola, o valor dos moinhos e pisões que, movidos pela força das águas do rio Ceira, serviriam as populações locais e dos arredores. Além disso, aqui ficava um importante porto fluvial. Numa época em que as estradas não passavam de caminhos e carreiros, o transporte fluvial era o mais fácil e eficaz. Quer mercadorias, quer pessoas, tudo se transportava pelo rio. E nesta confluência de "estradas" fluviais - o Mondego, o Ceira e o Dueça - um porto tinha um valor acrescido.
Em 1643, o Processo de vistoria que, a requerimento do juiz de Ceira, se fez a uns baldios no dito lugar, prova que a povoação era ainda um concelho, visto que ainda tinha juiz.
Entre 1827 e 1836 mantém-se a categoria administrativa, comprovada pelo Livro de Coimas do Concelho de Ceira, um registo de coimas por transgressões de posturas municipais que está interrompido após o último auto de coima registado a 7 de Fevereiro de 1836.
No entanto, no Termo de recenseamento eleitoral do mesmo ano de 1836, Ceira consta já como freguesia do concelho de Coimbra. Embora não tenha sido até agora possível encontrar elementos precisos sobre esta modificação, é de notar que ela é contemporânea das reformas administrativas de Passos Manuel, no início do reinado de Dª. Maria II.
Ceira no séc. XX
Nos finais do séc. XIX, as estradas macadamizadas começaram a reduzir a importância do transporte fluvial. A produção industrial de tecidos tinha tornado obsoletos os pisões, que desapareceram sem deixar memória nas gentes que hoje ali vivem. A industrialização também veio a diminuir o trabalho dos moinhos. Apenas a agricultura familiar continuava a ser uma riqueza apreciável. Talvez tenha sido então que os serviços prestados aos habitantes da cidade de Coimbra se tornaram um dos principais meios de subsistência da população de Ceira.
No início do séc. XX, na obra Notas de Arqueologia e Etnografia do Concelho de Coimbra, a respeito de Ceira, Vergílio Correia refere a ausência de monumentos capazes de interessar os estudiosos. No entanto sublinha o pitoresco do local, descrevendo as inundações que transformam o vale num lago, os pinhais que formam "uma selva escura e densa" nas encostas da Joariça ou Aljuriça, as oliveiras que "laivam de cinzento o vermelho dos barros".
Em meados do séc. XX, a maior parte da população da freguesia de Ceira vivia do cultivo de leiras de terra, feito em grande parte pelas mulheres, já que a maior parte dos homens trabalhava na cidade em diversos ofícios.
Na mesma época, as mulheres ocupavam-se também da lavagem da roupa das senhoras de Coimbra, tarefa em que se tornaram famosas usando a sua antiga sabedoria popular.
A roupa era recolhida nas casas da cidade à Segunda-feira e trazida em grandes trouxas sobre um carro de bois. No dia seguinte, havia que fazer a barrela, tarefa que exigia uma noite passada ali, à beira-rio fizesse o tempo que fizesse. Não havia sujidade que resistisse à acção das cinzas e da água quente.
Durante o resto da semana, era preciso secar dezenas e dezenas de lençóis, toalhas, fronhas, guardanapos... Se o tempo fazia negaças, era um corrilório para os pinhais, onde faziam o estendal, ora a pôr, ora a tirar a roupa. E, na Segunda-feira seguinte, lá partiam de novo para Coimbra, a levar a roupa branquinha e a trazer novas trouxas de roupa suja.
As mulheres de Ceira ainda arranjavam tempo para ir à cidade e andar a vender, de casa em casa, os raminhos de carqueja que então era usada para acender os fogões das cozinhas.
Mas os tempos mudaram e as máquinas de lavar e os novos fogões fizeram desaparecer estes trabalhos, que hoje não são mais do que uma recordação.
Ceira foi elevada a Vila no mês de Junho de 1997.
Hoje, é povoada por pessoas que trabalham essencialmente em Coimbra, no comércio, na indústria e em serviços. São também célebres os seus viveiros de árvores de fruto.
Com o crescimento da cidade de Coimbra, tornou-se numa povoação de subúrbio. No entanto procura manter uma vida cultural própria..."
Trabalho feito por alunos da eb23 - Ceira
Vale do rio Ceira
Vale do rio Ceira visto por Eugénio de Andrade.
"Pelo vale, realmente fértil, corre o Ceira: uma faixinha de água, liricamente debruada de choupos e amieiros, que não tarda a entrar no Mondego. Ao fundo, o monte do Senhor da Serra e, mais longe, entre lilás e violeta, a serra da Lousã. Duas vezes por dia, no meio daquele verde todo, dando serventia a duas ou três casas que por ali havia, passava um comboiinho, que se desfazia ao apitar. Os terraços da casa precipitavam-se no abismo quase a prumo, e entre as fragas rompia um vegetação áspera, em tufos. Ao entardecer, avistava-se às vezes, a sair de uma loca, uma raposa, que logo desaparecia entre as giestas e as urzes; e os milhafres pairavam sereninhos. Por detrás da casa, os pinheiros, os eucaliptos e as acácias eram um imenso leque aberto. E à roda, um silêncio maior que o mundo.
Penso em Coimbra e é este o rumor que me chega: um amanhecer de pássaros, o coaxar das rãs pela noite fora".
Eugénio de Andrade, «Poesia e Prosa».
"Pelo vale, realmente fértil, corre o Ceira: uma faixinha de água, liricamente debruada de choupos e amieiros, que não tarda a entrar no Mondego. Ao fundo, o monte do Senhor da Serra e, mais longe, entre lilás e violeta, a serra da Lousã. Duas vezes por dia, no meio daquele verde todo, dando serventia a duas ou três casas que por ali havia, passava um comboiinho, que se desfazia ao apitar. Os terraços da casa precipitavam-se no abismo quase a prumo, e entre as fragas rompia um vegetação áspera, em tufos. Ao entardecer, avistava-se às vezes, a sair de uma loca, uma raposa, que logo desaparecia entre as giestas e as urzes; e os milhafres pairavam sereninhos. Por detrás da casa, os pinheiros, os eucaliptos e as acácias eram um imenso leque aberto. E à roda, um silêncio maior que o mundo.
Penso em Coimbra e é este o rumor que me chega: um amanhecer de pássaros, o coaxar das rãs pela noite fora".
Eugénio de Andrade, «Poesia e Prosa».
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Pelo alto da Serra do Açor
Há muitos séculos que as verdes pastagens da Serra do Açor atraíam grupos de pastores que para aí levavam os seus rebanhos. Diz-se mesmo que esses pastores seriam os Lusitanos, hábeis criadores de cavalos que povoavam os Montes Hermínios (Estrela).
Ao longo dos tempos as populações foram criando condições para a sua subsistência, conquistando à Serra cada pequena leira cultivada em socalcos. A agricultura, a pastorícia e a apicultura constituíram assim as principais actividades das populações do Piódão.
Pelo alto da Serra do Açor, próximo do Piódão, passava a antiga estrada real que ligava Coimbra à Covilhã por onde circulavam caravanas de carros de bois que traziam do litoral o peixe e o sal para levarem no regresso a carne, o queijo e os lanifícios destas terras do interior. Por ali passavam mercadores e pastores e até salteadores. Diz-se também que terão sido os ataques dos salteadores que incentivaram a união dos solitários pastores, espalhados por aquelas agrestes penedias onde criavam éguas, cavalos, ovelhas e cabras.
Situado num vale profundo e isolado, escondido nas faldas da Serra do Açor, o Piódão foi considerado, desde tempos remotos, como o local de eleição para refúgio de muitos foragidos da justiça. Ali se terá acolhido o fidalgo Diogo Lopes Pacheco, o único dos assassinos de D. Inês de Castro que logrou escapar à fúria de D. Pedro, quando, em segredo, vinha de Espanha a Portugal. Também aqui se teria refugiado João Brandão, misto de herói e assassino. Diz-se dele que atacava os seus inimigos pela calada da noite para se refugiar durante o dia em casa do Pároco do Piódão. E fala-se ainda de outros salteadores, em tempos mais ou menos remotos, como José do Telhado ou o Oliveirão.
Na sua origem a população pode ter alguns fora-da-lei, mas tem também a fidalguia e abastança dos seus senhores, com direito a tribuna própria na Igreja da Lourosa. Foi desta memória que ficou uma conhecida quadra popular.
"Gente nobre do Piódão
Gente de grande tesouro
Vão à missa à Lourosa
Com as suas esporas de ouro."
A criação da freguesia do Piódão data de 1676 e há notícia de ter sido um curato de apresentação anual no cabido da Sé de Coimbra.
No final de Oitocentos o Piódão transformou-se no pólo cultural de uma vasta região beirã por obra do seu jovem pároco, o padre Manuel Fernandes Nogueira, ali colocado em 1885 quando tinha apenas 25 anos. A ele se ficou a dever a fundação do seminário-colégio em 1886 que preparava os jovens para os estudos universitários e, mais frequentemente, para a vida eclesiástica. E ali ensinava, quase sozinho, todas as disciplinas do curso preparatório do Seminário.
Tendo funcionado até l906, a qualidade do ensino do Colégio do Piódão ultrapassou os limites do seu isolamento, atraindo centenas de jovens oriundos das mais diversas terras dos concelhos de Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Alguns dos seus alunos tornaram-se depois figuras de destaque na vida política e eclesiástica Portuguesa.
A acção do padre Manuel Fernandes Nogueira, actualmente homenageado por uma estátua no largo da aldeia, não se limitou ao aspecto académico e cultural da povoação. Incentivou o desenvolvimento da agricultura e da silvicultura, criando na população laços estreitos de vida comunitária, e participando activamente no desenvolvimento económico da freguesia. Com o encerramento do Colégio, retoma-se o antigo esquecimento, interrompido a breves espaços pelos esforços isolados dos seus povos.
Só na década de 70 é que o Piódão consegue enfim aceder, e se tornar acessível, ao resto do mundo, com a abertura da estrada até à aldeia, em 1972, e a instalação de energia eléctrica, em 1978. Até àquela data, a única estrada existente terminava a cerca de 12 Km do Piódão e a distância só podia ser ultrapassada a pé, por caminhos demasiado estreitos para permitir a passagem dos carros de bois.
Tempos difíceis ainda frescos na memória das suas gentes, amenizados todavia por uma vida comunitária de entreajuda. Tempos idos em o povo do Piódão moldava o destino com as próprias mãos.
Por todo o povoado nasce agora uma sensação de vazio: a estrada que lhes trouxe o conforto dos tempos modernos, quebra-lhes a solidariedade e a vontade, tira-lhes o destino das mãos e leva-lhes para longe os filhos da terra.
Ficam os mais velhos trabalhando os estreitos socalcos de terra pouco profunda onde a máquina não pode trabalhar.
E fica também, ainda, o sabor da chanfana, do cabrito assado ou do presunto e a imprescindível companheira das noites frias de inverno, a aguardente de mel ou de medronho.
Aldeia do Piódão / Turismo Rural / C.M.C.
Ao longo dos tempos as populações foram criando condições para a sua subsistência, conquistando à Serra cada pequena leira cultivada em socalcos. A agricultura, a pastorícia e a apicultura constituíram assim as principais actividades das populações do Piódão.
Pelo alto da Serra do Açor, próximo do Piódão, passava a antiga estrada real que ligava Coimbra à Covilhã por onde circulavam caravanas de carros de bois que traziam do litoral o peixe e o sal para levarem no regresso a carne, o queijo e os lanifícios destas terras do interior. Por ali passavam mercadores e pastores e até salteadores. Diz-se também que terão sido os ataques dos salteadores que incentivaram a união dos solitários pastores, espalhados por aquelas agrestes penedias onde criavam éguas, cavalos, ovelhas e cabras.
Situado num vale profundo e isolado, escondido nas faldas da Serra do Açor, o Piódão foi considerado, desde tempos remotos, como o local de eleição para refúgio de muitos foragidos da justiça. Ali se terá acolhido o fidalgo Diogo Lopes Pacheco, o único dos assassinos de D. Inês de Castro que logrou escapar à fúria de D. Pedro, quando, em segredo, vinha de Espanha a Portugal. Também aqui se teria refugiado João Brandão, misto de herói e assassino. Diz-se dele que atacava os seus inimigos pela calada da noite para se refugiar durante o dia em casa do Pároco do Piódão. E fala-se ainda de outros salteadores, em tempos mais ou menos remotos, como José do Telhado ou o Oliveirão.
Na sua origem a população pode ter alguns fora-da-lei, mas tem também a fidalguia e abastança dos seus senhores, com direito a tribuna própria na Igreja da Lourosa. Foi desta memória que ficou uma conhecida quadra popular.
"Gente nobre do Piódão
Gente de grande tesouro
Vão à missa à Lourosa
Com as suas esporas de ouro."
A criação da freguesia do Piódão data de 1676 e há notícia de ter sido um curato de apresentação anual no cabido da Sé de Coimbra.
No final de Oitocentos o Piódão transformou-se no pólo cultural de uma vasta região beirã por obra do seu jovem pároco, o padre Manuel Fernandes Nogueira, ali colocado em 1885 quando tinha apenas 25 anos. A ele se ficou a dever a fundação do seminário-colégio em 1886 que preparava os jovens para os estudos universitários e, mais frequentemente, para a vida eclesiástica. E ali ensinava, quase sozinho, todas as disciplinas do curso preparatório do Seminário.
Tendo funcionado até l906, a qualidade do ensino do Colégio do Piódão ultrapassou os limites do seu isolamento, atraindo centenas de jovens oriundos das mais diversas terras dos concelhos de Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Alguns dos seus alunos tornaram-se depois figuras de destaque na vida política e eclesiástica Portuguesa.
A acção do padre Manuel Fernandes Nogueira, actualmente homenageado por uma estátua no largo da aldeia, não se limitou ao aspecto académico e cultural da povoação. Incentivou o desenvolvimento da agricultura e da silvicultura, criando na população laços estreitos de vida comunitária, e participando activamente no desenvolvimento económico da freguesia. Com o encerramento do Colégio, retoma-se o antigo esquecimento, interrompido a breves espaços pelos esforços isolados dos seus povos.
Só na década de 70 é que o Piódão consegue enfim aceder, e se tornar acessível, ao resto do mundo, com a abertura da estrada até à aldeia, em 1972, e a instalação de energia eléctrica, em 1978. Até àquela data, a única estrada existente terminava a cerca de 12 Km do Piódão e a distância só podia ser ultrapassada a pé, por caminhos demasiado estreitos para permitir a passagem dos carros de bois.
Tempos difíceis ainda frescos na memória das suas gentes, amenizados todavia por uma vida comunitária de entreajuda. Tempos idos em o povo do Piódão moldava o destino com as próprias mãos.
Por todo o povoado nasce agora uma sensação de vazio: a estrada que lhes trouxe o conforto dos tempos modernos, quebra-lhes a solidariedade e a vontade, tira-lhes o destino das mãos e leva-lhes para longe os filhos da terra.
Ficam os mais velhos trabalhando os estreitos socalcos de terra pouco profunda onde a máquina não pode trabalhar.
E fica também, ainda, o sabor da chanfana, do cabrito assado ou do presunto e a imprescindível companheira das noites frias de inverno, a aguardente de mel ou de medronho.
Aldeia do Piódão / Turismo Rural / C.M.C.
A Ceifa
Antigamente os de Fajão não conheciam a foice.Para ceifar o centeio eram precisos quatro homens:
Um levava um cepo,outro dobrava o centeio para cima do cepo, o terceiro punha um formão em cima do centeio e o quarto batia com o maço no formão.
Qando andavam a ceifar, calhou a passar por ali um almocreve.Este viu aquilo e vai aqui assim:
Quanto dão vocês a quem vos trouxer um bichinho que ceifa isso tudo em pouco tempo?
-Trinta mil réis e uma carga de presuntos. Á volta o almocreve trouxe-lhes o foicinho.
Ao outro dia eles foram ceifar o centeio, mas como não tinham prática, o primeiro que experimentou o “bichinho” fez logo um golpe na mão esquerda..”Ai o bichinho que já me mordeu!” Atirou com o foicinho para o meio da ceara e fugiram todos.
No dia seguinte voltaram lá armados de paus.”Vamos lá a ver que tal está o bicho”. Lá estava o foicinho no mesmo sítio, mas com a orvalhada da noite tinha algumas malhas de ferrugem.
“Olhem como ele está !Até está malhado !...”
Vai um e dá-lhe uma paulada na ponta que estava virada para cima.O foicinho fez bilharda e foi encavalitar-se no pescoço de um dos homens. Então o outro que era compadre dele, acudiu a tirar o foicinho, mas com tanta infelicidade que ceifou a cabeça ao homen.Apanhou de repente a cabeça e colocou-lha em cima; como estava quente, colou logo e o homen começou a andar, mas a cara ficou virada para as costas,de modo que o compadre dizia:
“ó compadre ,não sei se vais se vens”.
Contos de Fajão
Um levava um cepo,outro dobrava o centeio para cima do cepo, o terceiro punha um formão em cima do centeio e o quarto batia com o maço no formão.
Qando andavam a ceifar, calhou a passar por ali um almocreve.Este viu aquilo e vai aqui assim:
Quanto dão vocês a quem vos trouxer um bichinho que ceifa isso tudo em pouco tempo?
-Trinta mil réis e uma carga de presuntos. Á volta o almocreve trouxe-lhes o foicinho.
Ao outro dia eles foram ceifar o centeio, mas como não tinham prática, o primeiro que experimentou o “bichinho” fez logo um golpe na mão esquerda..”Ai o bichinho que já me mordeu!” Atirou com o foicinho para o meio da ceara e fugiram todos.
No dia seguinte voltaram lá armados de paus.”Vamos lá a ver que tal está o bicho”. Lá estava o foicinho no mesmo sítio, mas com a orvalhada da noite tinha algumas malhas de ferrugem.
“Olhem como ele está !Até está malhado !...”
Vai um e dá-lhe uma paulada na ponta que estava virada para cima.O foicinho fez bilharda e foi encavalitar-se no pescoço de um dos homens. Então o outro que era compadre dele, acudiu a tirar o foicinho, mas com tanta infelicidade que ceifou a cabeça ao homen.Apanhou de repente a cabeça e colocou-lha em cima; como estava quente, colou logo e o homen começou a andar, mas a cara ficou virada para as costas,de modo que o compadre dizia:
“ó compadre ,não sei se vais se vens”.
Contos de Fajão
domingo, 5 de fevereiro de 2006
Teacher Quality
Everybody says kids deserve quality teachers. The disagreements begin when we start trying to define what a "quality teacher" is, how to nurture them and how to keep them in our classrooms. This special edition of Rethinking Schools takes a hard look at how communities, schools, teacher unions, social justice groups and other key players are working to improve teacher quality, where they agree and where they differ, and where we go from here.
Piódão - Arquitectura
"Subindo pela escarpa abrupta em forma de anfiteatro, humildemente entalhada na paisagem que a envolve, a aldeia do Piódão mantém ainda o traçado antigo e irregular, tão característico das aldeias medievais. A sensação de harmonia e integração no meio é de tal forma intensa, que tudo parece ter sido concebido de uma só vez, numa genial composição urbanística. Ruas estreitas e sinuosas abrem-se aqui e além em recantos diversificados. Solta-se a vista do chão de xisto, quando do fundo se ouvem as águas da ribeira do Piódão, entrecruzadas pelo chilrear cristalino da passarada. Ou esbarra então o olhar, nas paredes escuras do casario, para enfim se elevar pela montanha que o domina, até ao cume quase coberto pelas nuvens. No chão, nas paredes das casas, e nas lousas que lhes servem de cobertura, o xisto impera par toda a aldeia, pontilhada pelo azul forte das portas e dos frisos das janelas. A unidade da cor é explicada como consequência do isolamento a que o Piódão esteve sujeito: a loja do Píodão só vendia tinta de uma cor, tal era a inacessibilidade do lugar. 0 interior das casas era geralmente dividido em dois pisos: em baixo um piso amplo, a loja, destinado a guardar os produtos de uma bem organizada agricultura de subsistência; e em cima, a madeira de castanho formava as divisões que constituíam a habitação da família. Por cima de muitas das portas da aldeia vêem-se ainda algumas pequenas cruzes, diz-se, para afastar a trovoada. No domingo de Ramos os fiéis levam um ramo de oliveira para benzer e, nas noites de tempestade, fazem com ele uma cruz que é posta em cima das brasas da lareira ou na porta principal, invocando assim a protecção de Santa Bárbara para afastar a trovoada. As casas descem de socalco em socalco ao sabor do monte, para se alargarem então na vasta praça que constitui o centro, a sala de visitas do Piódão, onde se ergue, orgulhosamente imaculada, a pequena Igreja Matriz. À noite, quando os candeeiros despejam a sua luz suave e amarelecida, toda a Aldeia parece metamorfosear-se num presépio iluminado e vivo, merecendo bem a designação de Aldeia Presépio. É provável que a primitiva igreja do Piódão, dedicada ao culto de Nossa Senhora da Conceição, tenha sido construída no decurso do séc. XVII, conforme apontam algumas referências. Conta-se que um dia os habitantes juntaram todo o ouro disponível e mandaram um velho pastor pedir ao Bispo de Coimbra autorização para construir a igreja. Perante tão dispendiosa solicitação, preparava-se o Bispo para recusar o pedido, quando o velho pastor, abrindo o seu barrete serrano, lhe mostrou as luzidias moedas de ouro necessárias a tal empreitada, A existência de uma escultura em calcário dedicada a Nossa Senhora da Conceição da segunda metade desse século e anterior a 1676, data da criação da freguesia, poderá também ser contemporânea da edificação da Igreja. No final do séc. XIX a fachada da Igreja Matriz ameaçava ruir e foi reconstruida ao sabor do gosto neo-barroco, ecléctico e romântico da época, por iniciativa do cónego Manuel Fernandes Nogueira. As quatro finas torres cilíndricas rematadas em cones, parecem conferir movimento à frontaria, enquanto a torre sineira de planta quadrada se encosta a meio da fachada sul da Igreja. Os três retábulos que alberga datam do séc. XVIII, originariamente em talha dourada. A restauração a que foi submetida há alguns anos, retirou do seu interior os belos azulejos oitocentistas com motivos florais azuis e de fabrico coimbrão. Perto da Igreja podem-se ainda descobrir as ruínas de um mosteiro dos monges de Cister, ordem religiosa reformada por S. Bernardo de Clairvaux. Os monges brancos de S. Bernardo construíam sempre os seus mosteiros em estreitos vales - Benedictus montes, Bernardus valles - tal como fizeram no Piódão, e a enorme influência que exerceram em todas as vertentes da cultura portuguesa, remonta já aos tempos da Reconquista."
Aldeia do Piódão/Turismo Rural/C.M.C.
Aldeia do Piódão/Turismo Rural/C.M.C.
sábado, 4 de fevereiro de 2006
A Redenção
A Redenção / GPS
O viajante dos anos 90 leva o GPS ( Global Position System ), que lhe permite situar qualquer ponto do planeta em apenas um minuto. 20 satélites fazem parte desta rede que emite ondas de localização durante todo o dia. O GPS mede o tempo que demora um sinal a chegar ao satélite. A latitude e a longitude são mostradas no ecrã do GPS em graus , minutos e segundos. Também a altitude pode ser determinada.
A margem de erro é de apenas 20 metros. Pode ser utilizado, em quaisquer condições atmosféricas.
A Redenção vai ter oportunidade de o utilizar. Pesa apenas 397 gramas.
A Redenção / CHECK LIST
Documentação - pessoal e do veículo.
Segurança - cartões de crédito.
Saúde - pulseira com os dados clínicos.
Água - purificadores químicos.
Navegação - mapas, curvímetro e GPS.
Sinalização - frascos de fumo.
Alimentação - comida liofilizada.
Descanso - mantas (hipotérmicas ou de alumínio).
Higiene - duche solar.
Equipamento - Mochilas.
Calçado - sapatos de lona.
Roupa - Polos.
Utensílios - navalha multiuso.
E Também...PC portátil e equipamento fotográfico.
Segunda-feira, Julho 21, 2003
Ensign GPS
A Redenção pode ser acompanhada pelo Ensign GPS que indicará a posição do viajante 24 horas por dia em qualquer lugar do mundo. Vai receber o sinal a partir de 3 satélites (pelo menos).
Antes da Redenção
Antes de partir. Curvímetro e Contaquilómetros. Durante a expedição a Bússola. Depois os Binóculos.
Mapas, Escalas, e Curvas de nível.
FALTAM...dias.
O viajante dos anos 90 leva o GPS ( Global Position System ), que lhe permite situar qualquer ponto do planeta em apenas um minuto. 20 satélites fazem parte desta rede que emite ondas de localização durante todo o dia. O GPS mede o tempo que demora um sinal a chegar ao satélite. A latitude e a longitude são mostradas no ecrã do GPS em graus , minutos e segundos. Também a altitude pode ser determinada.
A margem de erro é de apenas 20 metros. Pode ser utilizado, em quaisquer condições atmosféricas.
A Redenção vai ter oportunidade de o utilizar. Pesa apenas 397 gramas.
A Redenção / CHECK LIST
Documentação - pessoal e do veículo.
Segurança - cartões de crédito.
Saúde - pulseira com os dados clínicos.
Água - purificadores químicos.
Navegação - mapas, curvímetro e GPS.
Sinalização - frascos de fumo.
Alimentação - comida liofilizada.
Descanso - mantas (hipotérmicas ou de alumínio).
Higiene - duche solar.
Equipamento - Mochilas.
Calçado - sapatos de lona.
Roupa - Polos.
Utensílios - navalha multiuso.
E Também...PC portátil e equipamento fotográfico.
Segunda-feira, Julho 21, 2003
Ensign GPS
A Redenção pode ser acompanhada pelo Ensign GPS que indicará a posição do viajante 24 horas por dia em qualquer lugar do mundo. Vai receber o sinal a partir de 3 satélites (pelo menos).
Antes da Redenção
Antes de partir. Curvímetro e Contaquilómetros. Durante a expedição a Bússola. Depois os Binóculos.
Mapas, Escalas, e Curvas de nível.
FALTAM...dias.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
A biblioteca de Marcelo
... Serão pessoas muito agradáveis, muito justamente orgulhosas por terem ... e, exceptuando os seus narizes, serão pessoas muito bem parecidas. Conseguirão ir à lua. Mas nenhum deles, para salvar a sua vida, será capaz de escrever uma tragédia...
Karen Blixen
Karen Blixen
Devoção
(...) Querem ir a Meca. Mas, são pobres como mais pobres não se pode ser. Nunca viram mais "dinares" juntos do que os que são precisos para comprar no "suco" um par de calças. (...)
Petróleo, Pier Paolo Pasolini - Compra de um Escravo
Petróleo, Pier Paolo Pasolini - Compra de um Escravo
Carícias distantes!
Existem coisas na vida que podem ser simples, mesmo que não sejam fáceis. Ser verdadeiro é uma dessas coisas. Contar uma mentira (mesmo uma mentira branda) pode ser fácil, mas não é simples. Você precisa ter certeza de que tudo o que disser no futuro não irá "expô-lo"; você terá que inventar histórias para encobrir. Então, pense sobre isso: não ser verdadeiro pode parecer mais fácil no momento, mas não será tão simples no futuro. Por outro lado, ser verdadeiro pode ser difícil, mas é um bocado mais simples.
Celline Opps See you late in my Blogger Rio de Janeiro from Brazil
Comentário a um post do Sem Ordem
OPTEI
Celline Opps See you late in my Blogger Rio de Janeiro from Brazil
Comentário a um post do Sem Ordem
OPTEI
A - 23
O olhar escondido mergulha nas curvas da montanha e salta o limiar do sonho.
Lançando-se no impossível da queda que o esmagaria.
A carne está perto do olhar numa última tentativa.
A vida num olhar.
Estava eu ali por causa dela.
Qual seria a sua confissão?
Na força dos seus olhos o insuportável espaço dos pensamentos perdidos.
É um momento existencial da memória.
Como seria a vida sem esta confissão no palco da felicidade?
O seu olhar equilibra as coisas.
O absurdo de respirar na força física esse corpo é um convite perdido pela inocência das almas, a ti e a mim.
A 23 - azul cinza no branco manto da razão eterna.
Um olhar escondido espreita a tua alma.
Não vi onde estava, não prestei a devida atenção ao facto de ir a conduzir.
Caminhava depressa.
Um olhar furtivo à minha volta foi totalmente indiferente.
Uma multidão distante adorava a tua carícia.
Novas emoções não o intimidaram.
Estava muitas vezes escondido a espreitar a tua alma. Sentia essa necessidade, essa carícia distante.
A 23 - nevoeiro, chuva fraca e almas distantes. Olhares escondidos a espreitarem a tua alma.
A brancura do olhar estampado num rosto.
Deserto.
Desvio os olhos no silêncio da estrada.
Esta é a viagem para ir buscar o sustento da família.
Sem mapas, sem mágoas, sem perguntas.
O que é isto?
Uma forma de esquecimento, uma semana.
A 23 - luz solar de uma razão eterna.
Lançando-se no impossível da queda que o esmagaria.
A carne está perto do olhar numa última tentativa.
A vida num olhar.
Estava eu ali por causa dela.
Qual seria a sua confissão?
Na força dos seus olhos o insuportável espaço dos pensamentos perdidos.
É um momento existencial da memória.
Como seria a vida sem esta confissão no palco da felicidade?
O seu olhar equilibra as coisas.
O absurdo de respirar na força física esse corpo é um convite perdido pela inocência das almas, a ti e a mim.
A 23 - azul cinza no branco manto da razão eterna.
Um olhar escondido espreita a tua alma.
Não vi onde estava, não prestei a devida atenção ao facto de ir a conduzir.
Caminhava depressa.
Um olhar furtivo à minha volta foi totalmente indiferente.
Uma multidão distante adorava a tua carícia.
Novas emoções não o intimidaram.
Estava muitas vezes escondido a espreitar a tua alma. Sentia essa necessidade, essa carícia distante.
A 23 - nevoeiro, chuva fraca e almas distantes. Olhares escondidos a espreitarem a tua alma.
A brancura do olhar estampado num rosto.
Deserto.
Desvio os olhos no silêncio da estrada.
Esta é a viagem para ir buscar o sustento da família.
Sem mapas, sem mágoas, sem perguntas.
O que é isto?
Uma forma de esquecimento, uma semana.
A 23 - luz solar de uma razão eterna.
Elogio do aprendizado
Aprenda o mais simples! Para aqueles
cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!
Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Freqüente a Escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.
Bertolt Brecht
cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!
Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Freqüente a Escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.
Bertolt Brecht
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
Contra a união civil homossexual
Documento da "CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. CONSIDERAÇÕES SOBRE OS PROJETOS DE RECONHECIMENTO LEGAL DAS UNIÕES ENTRE PESSOAS HOMOSSEXUAIS" na íntegra.
INTRODUÇÃO
1. Diversas questões relativas à homossexualidade foram recentemente tratadas várias vezes pelo Santo Padre João Paulo II e pelos competentes Dicastérios da Santa Sé.(1) Trata-se, com efeito, de um fenómeno moral e social preocupante, inclusive nos Países onde ainda não se tornou relevante sob o ponto de vista do ordenamento jurídico. A preocupação é, todavia, maior nos Países que já concederam ou se propõem conceder reconhecimento legal às uniões homossexuais, alargando-o, em certos casos, mesmo à habilitação para adoptar filhos. As presentes Considerações não contêm elementos doutrinais novos; entendem apenas recordar os pontos essenciais sobre o referido problema e fornecer algumas argumentações de carácter racional, que possam ajudar os Bispos a formular intervenções mais específicas, de acordo com as situações particulares das diferentes regiões do mundo: intervenções destinadas a proteger e promover a dignidade do matrimónio, fundamento da família, e a solidez da sociedade, de que essa instituição é parte constitutiva. Têm ainda por fim iluminar a actividade dos políticos católicos, a quem se indicam as linhas de comportamento coerentes com a consciência cristã, quando tiverem de se confrontar com projectos de lei relativos a este problema.(2) Tratando-se de uma matéria que diz respeito à lei moral natural, as seguintes argumentações são propostas não só aos crentes, mas a todos os que estão empenhados na promoção e defesa do bem comum da sociedade.
I. NATUREZA
E CARACTERÍSTICAS IRRENUNCIÁVEIS
DO MATRIMÔNIO
2. O ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e sobre a complementaridade dos sexos propõe uma verdade, evidenciada pela reta razão e reconhecida como tal por todas as grandes culturas do mundo. O matrimônio não é uma união qualquer entre pessoas humanas. Foi fundado pelo Criador, com uma sua natureza, propriedades essenciais e finalidades.(3) Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas. Assim se aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas.
3. A verdade natural sobre o matrimônio foi confirmada pela Revelação contida nas narrações bíblicas da criação e que são, ao mesmo tempo, expressão da sabedoria humana originária, em que se faz ouvir a voz da própria natureza. São três os dados fundamentais do plano criador relativamente ao matrimônio, de que fala o Livro do Gênesis.
Em primeiro lugar, o homem, imagem de Deus, foi criado « homem e mulher » (Gn 1, 27). O homem e a mulher são iguais enquanto pessoas e complementares enquanto homem e mulher. A sexualidade, por um lado, faz parte da esfera biológica e, por outro, é elevada na criatura humana a um novo nível, o pessoal, onde corpo e espírito se unem.
Depois, o matrimônio é instituído pelo Criador como forma de vida em que se realiza aquela comunhão de pessoas que requer o exercício da faculdade sexual. « Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher e os dois tornar-se-ão uma só carne » (Gn 2, 24).
Por fim, Deus quis dar à união do homem e da mulher uma participação especial na sua obra criadora. Por isso, abençoou o homem e a mulher com as palavras: « Sede fecundos e multiplicai-vos » (Gn 1, 28). No plano do Criador, a complementaridade dos sexos e a fecundidade pertencem, portanto, à própria natureza da instituição do matrimônio.
Além disso, a união matrimonial entre o homem e a mulher foi elevada por Cristo à dignidade de sacramento. A Igreja ensina que o matrimônio cristão é sinal eficaz da aliança de Cristo e da Igreja (cf. Ef 5, 32). Este significado cristão do matrimônio, longe de diminuir o valor profundamente humano da união matrimonial entre o homem e a mulher, confirma-o e fortalece-o (cf. Mt 19, 3-12; Mc 10, 6-9).
4. Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. Os atos homossexuais, de fato, « fecham o ato sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar ».(4)
Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais « são condenadas como graves depravações... (cf. Rm 1, 24-27; 1 Cor 6, 10; 1 Tm 1, 10). Desse juízo da Escritura não se pode concluir que todos os que sofrem de semelhante anomalia sejam pessoalmente responsáveis por ela, mas nele se afirma que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados ».(5) Idêntico juízo moral se encontra em muitos escritores eclesiásticos dos primeiros séculos,(6) e foi unanimemente aceite pela Tradição católica.
Também segundo o ensinamento da Igreja, os homens e as mulheres com tendências homossexuais « devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Deve evitar-se, para com eles, qualquer atitude de injusta discriminação ».(7) Essas pessoas, por outro lado, são chamadas, como os demais cristãos, a viver a castidade.(8) A inclinação homossexual é, todavia, « objetivamente desordenada »,(9) e as práticas homossexuais « são pecados gravemente contrários à castidade ».(10)
II. ATITUDES PERANTE O PROBLEMA
DAS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
5. Em relação ao fenômeno das uniões homossexuais, existentes de fato, as autoridades civis assumem diversas atitudes: por vezes, limitam-se a tolerar o fenômeno; outras vezes, promovem o reconhecimento legal dessas uniões, com o pretexto de evitar, relativamente a certos direitos, a discriminação de quem convive com uma pessoa do mesmo sexo; nalguns casos, chegam mesmo a favorecer a equivalência legal das uniões homossexuais com o matrimônio propriamente dito, sem excluir o reconhecimento da capacidade jurídica de vir a adotar filhos.
Onde o Estado assume uma política de tolerância de fato, sem implicar a existência de uma lei que explicitamente conceda um reconhecimento legal de tais formas de vida, há que discernir bem os diversos aspectos do problema. É imperativo da consciência moral dar, em todas as ocasiões, testemunho da verdade moral integral, contra a qual se opõem tanto a aprovação das relações homossexuais como a injusta discriminação para com as pessoas homossexuais. São úteis, portanto, intervenções discretas e prudentes, cujo conteúdo poderia ser, por exemplo, o seguinte: desmascarar o uso instrumental ou ideológico que se possa fazer de dita tolerância; afirmar com clareza o caráter imoral desse tipo de união; advertir o Estado para a necessidade de conter o fenômeno dentro de limites que não ponham em perigo o tecido da moral pública e que, sobretudo, não exponham as jovens gerações a uma visão errada da sexualidade e do matrimônio, que os privaria das defesas necessárias e, ao mesmo tempo, contribuiria para difundir o próprio fenômeno. Àqueles que, em nome dessa tolerância, entendessem chegar à legitimação de específicos direitos para as pessoas homossexuais conviventes, há que lembrar que a tolerância do mal é muito diferente da aprovação ou legalização do mal.
Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência.
III. ARGUMENTAÇÕES RACIONAIS
CONTRA O RECONHECIMENTO LEGAL
DAS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
6. A compreensão das razões que inspiram o dever de se opor desta forma às instâncias que visem legalizar as uniões homossexuais exige algumas considerações éticas específicas, que são de diversa ordem.
De ordem relativa à recta razão
A função da lei civil é certamente mais limitada que a da lei moral.(11) A lei civil, todavia, não pode entrar em contradição com a recta razão sob pena de perder a força de obrigar a consciência.(12) Qualquer lei feita pelos homens tem razão de lei na medida que estiver em conformidade com a lei moral natural, reconhecida pela recta razão, e sobretudo na medida que respeitar os direitos inalienáveis de toda a pessoa.(13) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à recta razão, porque dão à união entre duas pessoas do mesmo sexo garantias jurídicas análogas às da instituição matrimonial. Considerando os valores em causa, o Estado não pode legalizar tais uniões sem faltar ao seu dever de promover e tutelar uma instituição essencial ao bem comum, como é o matrimônio.
Poderá perguntar-se como pode ser contrária ao bem comum uma lei que não impõe nenhum comportamento particular, mas apenas se limita a legalizar uma realidade de fato, que aparentemente parece não comportar injustiça para com ninguém. A tal propósito convém refletir, antes de mais, na diferença que existe entre o comportamento homossexual como fenômeno privado, e o mesmo comportamento como relação social legalmente prevista e aprovada, a ponto de se tornar numa das instituições do ordenamento jurídico. O segundo fenômeno, não só é mais grave, mas assume uma relevância ainda mais vasta e profunda, e acabaria por introduzir alterações na inteira organização social, que se tornariam contrárias ao bem comum. As leis civis são princípios que estruturam a vida do homem no seio da sociedade, para o bem ou para o mal. « Desempenham uma função muito importante, e por vezes determinante, na promoção de uma mentalidade e de um costume ».(14) As formas de vida e os modelos que nela se exprimem não só configuram externamente a vida social, mas ao mesmo tempo tendem a modificar, nas novas gerações, a compreensão e avaliação dos comportamentos. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial.
De ordem biológica e antropológica
7. Nas uniões homossexuais estão totalmente ausentes os elementos biológicos e antropológicos do matrimônio e da família, que poderiam dar um fundamento racional ao reconhecimento legal dessas uniões. Estas não se encontram em condição de garantir de modo adequado a procriação e a sobrevivência da espécie humana. A eventual utilização dos meios postos à sua disposição pelas recentes descobertas no campo da fecundação artificial, além de comportar graves faltas de respeito à dignidade humana,(15) não alteraria minimamente essa sua inadequação.
Nas uniões homossexuais está totalmente ausente a dimensão conjugal, que representa a forma humana e ordenada das relações sexuais. Estas, de fato, são humanas, quando e enquanto exprimem e promovem a mútua ajuda dos sexos no matrimônio e se mantêm abertas à transmissão da vida.
Como a experiência confirma, a falta da bipolaridade sexual cria obstáculos ao desenvolvimento normal das crianças eventualmente inseridas no interior dessas uniões. Falta-lhes, de fato, a experiência da maternidade ou paternidade. Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano. Não há dúvida que uma tal prática seria gravemente imoral e pôr-se-ia em aberta contradição com o princípio reconhecido também pela Convenção internacional da ONU sobre os direitos da criança, segundo o qual, o interesse superior a tutelar é sempre o da criança, que é a parte mais fraca e indefesa.
De ordem social
8. A sociedade deve a sua sobrevivência à família fundada sobre o matrimônio. É, portanto, uma contradição equiparar à célula fundamental da sociedade o que constitui a sua negação. A conseqüência imediata e inevitável do reconhecimento legal das uniões homossexuais seria a redefinição do matrimônio, o qual se converteria numa instituição que, na sua essência legalmente reconhecida, perderia a referência essencial aos fatores ligados à heterossexualidade, como são, por exemplo, as funções procriadora e educadora. Se, do ponto de vista legal, o matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente for considerado apenas como um dos matrimônio possíveis, o conceito de matrimônio sofrerá uma alteração radical, com grave prejuízo para o bem comum. Colocando a união homossexual num plano jurídico análogo ao do matrimônio ou da família, o Estado comporta-se de modo arbitrário e entra em contradição com os próprios deveres.
Em defesa da legalização das uniões homossexuais não se pode invocar o princípio do respeito e da não discriminação de quem quer que seja. Uma distinção entre pessoas ou a negação de um reconhecimento ou de uma prestação social só são inaceitáveis quando contrárias à justiça.(16) Não atribuir o estatuto social e jurídico de matrimônio a formas de vida que não são nem podem ser matrimoniais, não é contra a justiça; antes, é uma sua exigência.
Nem tão pouco se pode razoavelmente invocar o princípio da justa autonomia pessoal. Uma coisa é todo o cidadão poder realizar livremente atividades do seu interesse, e que essas atividades que reentrem genericamente nos comuns direitos civis de liberdade, e outra muito diferente é que atividades que não representam um significativo e positivo contributo para o desenvolvimento da pessoa e da sociedade possam receber do Estado um reconhecimento legal especifico e qualificado. As uniões homossexuais não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimônio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social.
De ordem jurídico
9. Porque as cópias matrimoniais têm a função de garantir a ordem das gerações e, portanto, são de relevante interesse público, o direito civil confere-lhes um reconhecimento institucional. As uniões homossexuais, invés, não exigem uma específica atenção por parte do ordenamento jurídico, porque não desempenham essa função em ordem ao bem comum.
Não é verdadeira a argumentação, segundo a qual, o reconhecimento legal das uniões homossexuais tornar-se-ia necessário para evitar que os conviventes homossexuais viessem a perder, pelo simples fato de conviverem, o efetivo reconhecimento dos direitos comuns que gozam enquanto pessoas e enquanto cidadãos. Na realidade, eles podem sempre recorrer – como todos os cidadãos e a partir da sua autonomia privada – ao direito comum para tutelar situações jurídicas de interesse recíproco. Constitui porém uma grave injustiça sacrificar o bem comum e o recto direito de família a pretexto de bens que podem e devem ser garantidos por vias não nocivas à generalidade do corpo social.(17)
IV. COMPORTAMENTOS DOS POLÍTICOS CATÓLICOS
PERANTE LEGISLAÇÕES FAVORÁVEIS
ÀS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
10. Se todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais, os políticos católicos são-no de modo especial, na linha da responsabilidade que lhes é própria. Na presença de projetos de lei favoráveis às uniões homossexuais, há que ter presentes as seguintes indicações éticas.
No caso que se proponha pela primeira vez à Assembleia legislativa um projeto de lei favorável ao reconhecimento legal das uniões homossexuais, o parlamentar católico tem o dever moral de manifestar clara e publicamente o seu desacordo e votar contra esse projeto de lei. Conceder o sufrágio do próprio voto a um texto legislativo tão nocivo ao bem comum da sociedade é um acto gravemente imoral.
No caso de o parlamentar católico se encontrar perante uma lei favorável às uniões homossexuais já em vigor, deve opor-se-lhe, nos modos que lhe forem possíveis, e tornar conhecida a sua oposição: trata-se de um ato devido de testemunho da verdade. Se não for possível revogar completamente uma lei desse gênero, o parlamentar católico, atendo-se às orientações dadas pela Encíclica Evangelium vitae, « poderia dar licitamente o seu apoio a propostas destinadas a limitar os danos de uma tal lei e diminuir os seus efeitos negativos no plano da cultura e da moralidade pública », com a condição de ser « clara e por todos conhecida » a sua « pessoal e absoluta oposição » a tais leis, e que se evite o perigo de escândalo.(18) Isso não significa que, nesta matéria, uma lei mais restritiva possa considerar-se uma lei justa ou, pelo menos, aceitável; trata-se, pelo contrário, da tentativa legítima e obrigatória de proceder à revogação, pelo menos parcial, de uma lei injusta, quando a revogação total não é por enquanto possível.
CONCLUSÃO
11. A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimónio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade actual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do património comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade.
O Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida a 28 de Março de 2003 ao abaixo-assinado Cardeal Prefeito, aprovou as presentes Considerações, decididas na Sessão Ordinária desta Congregação, e mandou que fossem publicadas.
Roma, sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 3 de Junho de 2003, memória de São Carlos Lwanga e companheiros, mártires.
Joseph Card. Ratzinger
Prefecto
Angelo Amato, S.D.B.
Arzobispo titular de Sila
Secretario
(1) Cf. João Paulo II, Alocuções por ocasião da recitação do Angelus, 20 de Fevereiro de 1994 e 19 de Junho de 1994; Discurso aos participantes na Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Família, 24 de Março de 1999; Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2359, 2396; Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Persona humana, 29 de Dezembro de 1975, n. 8; Carta sobre a cura pastoral das pessoas homossexuais, 1 de Outubro de 1986; Algumas Considerações sobre a Resposta a propostas de lei em matéria de não discriminação das pessoas homossexuais, 24 de Julho de 1992; Conselho Pontifício para a Família, Carta aos Presidentes das Conferências Episcopais da Europa sobre a resolução do Parlamento Europeu em matéria de cópias homossexuais, 25 de Março de 1994; Família, matrimónio e « uniões de facto », 26 de Julho de 2000, n. 23.
(2) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao empenho e comportamento dos católicos na vida política, 24 de Novembro de 2002, n. 4.
(3) Cf. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes, n. 48.
(4) Catecismo da Igreja Católica, n. 2357.
(5) Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Persona humana, 29 de Dezembro de 1975, n. 8.
(6) Cf. por exemplo, S. Policarpo, Carta aos Filipenses, V, 3; S. Justino, Primeira Apologia, 27, 1-4; Atenágoras, Súplica em favor dos cristãos, 34.
(7) Catecismo da Igreja Católica, n. 2358; cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a cura pastoral das pessoas homossexuais, 1 de Outubro de 1986, n. 10.
(8) Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2359; Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a cura pastoral das pessoas homossexuais, 1 de Outubro de 1986, n. 12.
(9) Catecismo da Igreja Católica, n. 2358.
(10) Ibid., n. 2396.
(11) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae, 25 de Março de 1995, n. 71.
(12) Cf. ibid., n. 72.
(13) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 95, a. 2.
(14) João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae, 25 de Março de 1995, n. 90.
(15) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Donum vitae, 22 de Fevereiro de 1987, II. A. 1-3.
(16) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 63, a. 1, c.
(17) Deve, além disso, ter-se presente que existe sempre « o perigo de uma legislação, que faça da homossexualidade uma base para garantir direitos, poder vir de facto a encorajar uma pessoa com tendências homossexuais a declarar a sua homossexualidade ou mesmo a procurar um parceiro para tirar proveito das disposições da lei » (Congregação para a Doutrina da Fé, Algumas Considerações sobre a Resposta a propostas de lei em matéria de não discriminação das pessoas homossexuais, 24 de Julho de 1992, n. 14).
(18) João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae, 25 de Março de 1995, n. 73."
Centro de Mídia Independente
CMI
INTRODUÇÃO
1. Diversas questões relativas à homossexualidade foram recentemente tratadas várias vezes pelo Santo Padre João Paulo II e pelos competentes Dicastérios da Santa Sé.(1) Trata-se, com efeito, de um fenómeno moral e social preocupante, inclusive nos Países onde ainda não se tornou relevante sob o ponto de vista do ordenamento jurídico. A preocupação é, todavia, maior nos Países que já concederam ou se propõem conceder reconhecimento legal às uniões homossexuais, alargando-o, em certos casos, mesmo à habilitação para adoptar filhos. As presentes Considerações não contêm elementos doutrinais novos; entendem apenas recordar os pontos essenciais sobre o referido problema e fornecer algumas argumentações de carácter racional, que possam ajudar os Bispos a formular intervenções mais específicas, de acordo com as situações particulares das diferentes regiões do mundo: intervenções destinadas a proteger e promover a dignidade do matrimónio, fundamento da família, e a solidez da sociedade, de que essa instituição é parte constitutiva. Têm ainda por fim iluminar a actividade dos políticos católicos, a quem se indicam as linhas de comportamento coerentes com a consciência cristã, quando tiverem de se confrontar com projectos de lei relativos a este problema.(2) Tratando-se de uma matéria que diz respeito à lei moral natural, as seguintes argumentações são propostas não só aos crentes, mas a todos os que estão empenhados na promoção e defesa do bem comum da sociedade.
I. NATUREZA
E CARACTERÍSTICAS IRRENUNCIÁVEIS
DO MATRIMÔNIO
2. O ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e sobre a complementaridade dos sexos propõe uma verdade, evidenciada pela reta razão e reconhecida como tal por todas as grandes culturas do mundo. O matrimônio não é uma união qualquer entre pessoas humanas. Foi fundado pelo Criador, com uma sua natureza, propriedades essenciais e finalidades.(3) Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas. Assim se aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas.
3. A verdade natural sobre o matrimônio foi confirmada pela Revelação contida nas narrações bíblicas da criação e que são, ao mesmo tempo, expressão da sabedoria humana originária, em que se faz ouvir a voz da própria natureza. São três os dados fundamentais do plano criador relativamente ao matrimônio, de que fala o Livro do Gênesis.
Em primeiro lugar, o homem, imagem de Deus, foi criado « homem e mulher » (Gn 1, 27). O homem e a mulher são iguais enquanto pessoas e complementares enquanto homem e mulher. A sexualidade, por um lado, faz parte da esfera biológica e, por outro, é elevada na criatura humana a um novo nível, o pessoal, onde corpo e espírito se unem.
Depois, o matrimônio é instituído pelo Criador como forma de vida em que se realiza aquela comunhão de pessoas que requer o exercício da faculdade sexual. « Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher e os dois tornar-se-ão uma só carne » (Gn 2, 24).
Por fim, Deus quis dar à união do homem e da mulher uma participação especial na sua obra criadora. Por isso, abençoou o homem e a mulher com as palavras: « Sede fecundos e multiplicai-vos » (Gn 1, 28). No plano do Criador, a complementaridade dos sexos e a fecundidade pertencem, portanto, à própria natureza da instituição do matrimônio.
Além disso, a união matrimonial entre o homem e a mulher foi elevada por Cristo à dignidade de sacramento. A Igreja ensina que o matrimônio cristão é sinal eficaz da aliança de Cristo e da Igreja (cf. Ef 5, 32). Este significado cristão do matrimônio, longe de diminuir o valor profundamente humano da união matrimonial entre o homem e a mulher, confirma-o e fortalece-o (cf. Mt 19, 3-12; Mc 10, 6-9).
4. Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. Os atos homossexuais, de fato, « fecham o ato sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar ».(4)
Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais « são condenadas como graves depravações... (cf. Rm 1, 24-27; 1 Cor 6, 10; 1 Tm 1, 10). Desse juízo da Escritura não se pode concluir que todos os que sofrem de semelhante anomalia sejam pessoalmente responsáveis por ela, mas nele se afirma que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados ».(5) Idêntico juízo moral se encontra em muitos escritores eclesiásticos dos primeiros séculos,(6) e foi unanimemente aceite pela Tradição católica.
Também segundo o ensinamento da Igreja, os homens e as mulheres com tendências homossexuais « devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Deve evitar-se, para com eles, qualquer atitude de injusta discriminação ».(7) Essas pessoas, por outro lado, são chamadas, como os demais cristãos, a viver a castidade.(8) A inclinação homossexual é, todavia, « objetivamente desordenada »,(9) e as práticas homossexuais « são pecados gravemente contrários à castidade ».(10)
II. ATITUDES PERANTE O PROBLEMA
DAS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
5. Em relação ao fenômeno das uniões homossexuais, existentes de fato, as autoridades civis assumem diversas atitudes: por vezes, limitam-se a tolerar o fenômeno; outras vezes, promovem o reconhecimento legal dessas uniões, com o pretexto de evitar, relativamente a certos direitos, a discriminação de quem convive com uma pessoa do mesmo sexo; nalguns casos, chegam mesmo a favorecer a equivalência legal das uniões homossexuais com o matrimônio propriamente dito, sem excluir o reconhecimento da capacidade jurídica de vir a adotar filhos.
Onde o Estado assume uma política de tolerância de fato, sem implicar a existência de uma lei que explicitamente conceda um reconhecimento legal de tais formas de vida, há que discernir bem os diversos aspectos do problema. É imperativo da consciência moral dar, em todas as ocasiões, testemunho da verdade moral integral, contra a qual se opõem tanto a aprovação das relações homossexuais como a injusta discriminação para com as pessoas homossexuais. São úteis, portanto, intervenções discretas e prudentes, cujo conteúdo poderia ser, por exemplo, o seguinte: desmascarar o uso instrumental ou ideológico que se possa fazer de dita tolerância; afirmar com clareza o caráter imoral desse tipo de união; advertir o Estado para a necessidade de conter o fenômeno dentro de limites que não ponham em perigo o tecido da moral pública e que, sobretudo, não exponham as jovens gerações a uma visão errada da sexualidade e do matrimônio, que os privaria das defesas necessárias e, ao mesmo tempo, contribuiria para difundir o próprio fenômeno. Àqueles que, em nome dessa tolerância, entendessem chegar à legitimação de específicos direitos para as pessoas homossexuais conviventes, há que lembrar que a tolerância do mal é muito diferente da aprovação ou legalização do mal.
Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência.
III. ARGUMENTAÇÕES RACIONAIS
CONTRA O RECONHECIMENTO LEGAL
DAS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
6. A compreensão das razões que inspiram o dever de se opor desta forma às instâncias que visem legalizar as uniões homossexuais exige algumas considerações éticas específicas, que são de diversa ordem.
De ordem relativa à recta razão
A função da lei civil é certamente mais limitada que a da lei moral.(11) A lei civil, todavia, não pode entrar em contradição com a recta razão sob pena de perder a força de obrigar a consciência.(12) Qualquer lei feita pelos homens tem razão de lei na medida que estiver em conformidade com a lei moral natural, reconhecida pela recta razão, e sobretudo na medida que respeitar os direitos inalienáveis de toda a pessoa.(13) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à recta razão, porque dão à união entre duas pessoas do mesmo sexo garantias jurídicas análogas às da instituição matrimonial. Considerando os valores em causa, o Estado não pode legalizar tais uniões sem faltar ao seu dever de promover e tutelar uma instituição essencial ao bem comum, como é o matrimônio.
Poderá perguntar-se como pode ser contrária ao bem comum uma lei que não impõe nenhum comportamento particular, mas apenas se limita a legalizar uma realidade de fato, que aparentemente parece não comportar injustiça para com ninguém. A tal propósito convém refletir, antes de mais, na diferença que existe entre o comportamento homossexual como fenômeno privado, e o mesmo comportamento como relação social legalmente prevista e aprovada, a ponto de se tornar numa das instituições do ordenamento jurídico. O segundo fenômeno, não só é mais grave, mas assume uma relevância ainda mais vasta e profunda, e acabaria por introduzir alterações na inteira organização social, que se tornariam contrárias ao bem comum. As leis civis são princípios que estruturam a vida do homem no seio da sociedade, para o bem ou para o mal. « Desempenham uma função muito importante, e por vezes determinante, na promoção de uma mentalidade e de um costume ».(14) As formas de vida e os modelos que nela se exprimem não só configuram externamente a vida social, mas ao mesmo tempo tendem a modificar, nas novas gerações, a compreensão e avaliação dos comportamentos. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial.
De ordem biológica e antropológica
7. Nas uniões homossexuais estão totalmente ausentes os elementos biológicos e antropológicos do matrimônio e da família, que poderiam dar um fundamento racional ao reconhecimento legal dessas uniões. Estas não se encontram em condição de garantir de modo adequado a procriação e a sobrevivência da espécie humana. A eventual utilização dos meios postos à sua disposição pelas recentes descobertas no campo da fecundação artificial, além de comportar graves faltas de respeito à dignidade humana,(15) não alteraria minimamente essa sua inadequação.
Nas uniões homossexuais está totalmente ausente a dimensão conjugal, que representa a forma humana e ordenada das relações sexuais. Estas, de fato, são humanas, quando e enquanto exprimem e promovem a mútua ajuda dos sexos no matrimônio e se mantêm abertas à transmissão da vida.
Como a experiência confirma, a falta da bipolaridade sexual cria obstáculos ao desenvolvimento normal das crianças eventualmente inseridas no interior dessas uniões. Falta-lhes, de fato, a experiência da maternidade ou paternidade. Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano. Não há dúvida que uma tal prática seria gravemente imoral e pôr-se-ia em aberta contradição com o princípio reconhecido também pela Convenção internacional da ONU sobre os direitos da criança, segundo o qual, o interesse superior a tutelar é sempre o da criança, que é a parte mais fraca e indefesa.
De ordem social
8. A sociedade deve a sua sobrevivência à família fundada sobre o matrimônio. É, portanto, uma contradição equiparar à célula fundamental da sociedade o que constitui a sua negação. A conseqüência imediata e inevitável do reconhecimento legal das uniões homossexuais seria a redefinição do matrimônio, o qual se converteria numa instituição que, na sua essência legalmente reconhecida, perderia a referência essencial aos fatores ligados à heterossexualidade, como são, por exemplo, as funções procriadora e educadora. Se, do ponto de vista legal, o matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente for considerado apenas como um dos matrimônio possíveis, o conceito de matrimônio sofrerá uma alteração radical, com grave prejuízo para o bem comum. Colocando a união homossexual num plano jurídico análogo ao do matrimônio ou da família, o Estado comporta-se de modo arbitrário e entra em contradição com os próprios deveres.
Em defesa da legalização das uniões homossexuais não se pode invocar o princípio do respeito e da não discriminação de quem quer que seja. Uma distinção entre pessoas ou a negação de um reconhecimento ou de uma prestação social só são inaceitáveis quando contrárias à justiça.(16) Não atribuir o estatuto social e jurídico de matrimônio a formas de vida que não são nem podem ser matrimoniais, não é contra a justiça; antes, é uma sua exigência.
Nem tão pouco se pode razoavelmente invocar o princípio da justa autonomia pessoal. Uma coisa é todo o cidadão poder realizar livremente atividades do seu interesse, e que essas atividades que reentrem genericamente nos comuns direitos civis de liberdade, e outra muito diferente é que atividades que não representam um significativo e positivo contributo para o desenvolvimento da pessoa e da sociedade possam receber do Estado um reconhecimento legal especifico e qualificado. As uniões homossexuais não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimônio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social.
De ordem jurídico
9. Porque as cópias matrimoniais têm a função de garantir a ordem das gerações e, portanto, são de relevante interesse público, o direito civil confere-lhes um reconhecimento institucional. As uniões homossexuais, invés, não exigem uma específica atenção por parte do ordenamento jurídico, porque não desempenham essa função em ordem ao bem comum.
Não é verdadeira a argumentação, segundo a qual, o reconhecimento legal das uniões homossexuais tornar-se-ia necessário para evitar que os conviventes homossexuais viessem a perder, pelo simples fato de conviverem, o efetivo reconhecimento dos direitos comuns que gozam enquanto pessoas e enquanto cidadãos. Na realidade, eles podem sempre recorrer – como todos os cidadãos e a partir da sua autonomia privada – ao direito comum para tutelar situações jurídicas de interesse recíproco. Constitui porém uma grave injustiça sacrificar o bem comum e o recto direito de família a pretexto de bens que podem e devem ser garantidos por vias não nocivas à generalidade do corpo social.(17)
IV. COMPORTAMENTOS DOS POLÍTICOS CATÓLICOS
PERANTE LEGISLAÇÕES FAVORÁVEIS
ÀS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
10. Se todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais, os políticos católicos são-no de modo especial, na linha da responsabilidade que lhes é própria. Na presença de projetos de lei favoráveis às uniões homossexuais, há que ter presentes as seguintes indicações éticas.
No caso que se proponha pela primeira vez à Assembleia legislativa um projeto de lei favorável ao reconhecimento legal das uniões homossexuais, o parlamentar católico tem o dever moral de manifestar clara e publicamente o seu desacordo e votar contra esse projeto de lei. Conceder o sufrágio do próprio voto a um texto legislativo tão nocivo ao bem comum da sociedade é um acto gravemente imoral.
No caso de o parlamentar católico se encontrar perante uma lei favorável às uniões homossexuais já em vigor, deve opor-se-lhe, nos modos que lhe forem possíveis, e tornar conhecida a sua oposição: trata-se de um ato devido de testemunho da verdade. Se não for possível revogar completamente uma lei desse gênero, o parlamentar católico, atendo-se às orientações dadas pela Encíclica Evangelium vitae, « poderia dar licitamente o seu apoio a propostas destinadas a limitar os danos de uma tal lei e diminuir os seus efeitos negativos no plano da cultura e da moralidade pública », com a condição de ser « clara e por todos conhecida » a sua « pessoal e absoluta oposição » a tais leis, e que se evite o perigo de escândalo.(18) Isso não significa que, nesta matéria, uma lei mais restritiva possa considerar-se uma lei justa ou, pelo menos, aceitável; trata-se, pelo contrário, da tentativa legítima e obrigatória de proceder à revogação, pelo menos parcial, de uma lei injusta, quando a revogação total não é por enquanto possível.
CONCLUSÃO
11. A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimónio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade actual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do património comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade.
O Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida a 28 de Março de 2003 ao abaixo-assinado Cardeal Prefeito, aprovou as presentes Considerações, decididas na Sessão Ordinária desta Congregação, e mandou que fossem publicadas.
Roma, sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 3 de Junho de 2003, memória de São Carlos Lwanga e companheiros, mártires.
Joseph Card. Ratzinger
Prefecto
Angelo Amato, S.D.B.
Arzobispo titular de Sila
Secretario
(1) Cf. João Paulo II, Alocuções por ocasião da recitação do Angelus, 20 de Fevereiro de 1994 e 19 de Junho de 1994; Discurso aos participantes na Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Família, 24 de Março de 1999; Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2359, 2396; Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Persona humana, 29 de Dezembro de 1975, n. 8; Carta sobre a cura pastoral das pessoas homossexuais, 1 de Outubro de 1986; Algumas Considerações sobre a Resposta a propostas de lei em matéria de não discriminação das pessoas homossexuais, 24 de Julho de 1992; Conselho Pontifício para a Família, Carta aos Presidentes das Conferências Episcopais da Europa sobre a resolução do Parlamento Europeu em matéria de cópias homossexuais, 25 de Março de 1994; Família, matrimónio e « uniões de facto », 26 de Julho de 2000, n. 23.
(2) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao empenho e comportamento dos católicos na vida política, 24 de Novembro de 2002, n. 4.
(3) Cf. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes, n. 48.
(4) Catecismo da Igreja Católica, n. 2357.
(5) Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Persona humana, 29 de Dezembro de 1975, n. 8.
(6) Cf. por exemplo, S. Policarpo, Carta aos Filipenses, V, 3; S. Justino, Primeira Apologia, 27, 1-4; Atenágoras, Súplica em favor dos cristãos, 34.
(7) Catecismo da Igreja Católica, n. 2358; cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a cura pastoral das pessoas homossexuais, 1 de Outubro de 1986, n. 10.
(8) Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2359; Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a cura pastoral das pessoas homossexuais, 1 de Outubro de 1986, n. 12.
(9) Catecismo da Igreja Católica, n. 2358.
(10) Ibid., n. 2396.
(11) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae, 25 de Março de 1995, n. 71.
(12) Cf. ibid., n. 72.
(13) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 95, a. 2.
(14) João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae, 25 de Março de 1995, n. 90.
(15) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Donum vitae, 22 de Fevereiro de 1987, II. A. 1-3.
(16) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 63, a. 1, c.
(17) Deve, além disso, ter-se presente que existe sempre « o perigo de uma legislação, que faça da homossexualidade uma base para garantir direitos, poder vir de facto a encorajar uma pessoa com tendências homossexuais a declarar a sua homossexualidade ou mesmo a procurar um parceiro para tirar proveito das disposições da lei » (Congregação para a Doutrina da Fé, Algumas Considerações sobre a Resposta a propostas de lei em matéria de não discriminação das pessoas homossexuais, 24 de Julho de 1992, n. 14).
(18) João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae, 25 de Março de 1995, n. 73."
Centro de Mídia Independente
CMI
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
Fajão
/.../Um campo de erva queimada, ao centro, uma pequena elevação de terreno. Declives moderados à esquerda, à direita e à frente.
Do lado de trás, declive abrupto. O máximo de simplicidade e simetria. /.../
Beckett,Samuel / Dias Felizes
Do lado de trás, declive abrupto. O máximo de simplicidade e simetria. /.../
Beckett,Samuel / Dias Felizes
Penedos de Fajão
Entre estes penedos
que daqui parecem,
verdes ervas crecem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d'outras são regadas
que matam d'amores.
Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mestura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam d'amores.
Celestes jardins,
as flores, estrelas,
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
Anjos que as regam
matam-me d'amores.
Redondilhas. Camões
que daqui parecem,
verdes ervas crecem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d'outras são regadas
que matam d'amores.
Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mestura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam d'amores.
Celestes jardins,
as flores, estrelas,
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
Anjos que as regam
matam-me d'amores.
Redondilhas. Camões
terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Alto do Cavalo, lugar mítico
Alto do Cavalo (lugar mítico), ainda com um manto de neve nos seus 900 metros. As obras do parque eólico, essas é que não param. Muitas são as máquinas e os homens em delicadas manobras. Um novo troço de estrada está a nascer por estas bandas. Está um dia muito bonito. A temperatura é agradável e a paisagem GRANDIOSA "esmaga" a alma humana, por mais "dura" que ela se mostre, nesta paisagem de ENORME - pelo horizonte que se estende a perder de vista. Para Sul, Para a Beira Serra, para a Beira Litoral, para a Estrela, Açor e Lousã, mesmo "aqui" ao pé de mim.
A Fonte, a Curva do Gelo e o Alto do Cavalo (lugar mítico) onde no passado ocorreu um crime hediondo, lugares visitados pela água gelada que se desprendeu das nuvens. Aqui foi possível ver os seus cristais pequeníssimos e hexagonais. Agruparam-se e chegaram à superfície terrestre sob a forma de flocos de neve.
A Fonte, a Curva do Gelo e o Alto do Cavalo (lugar mítico) onde no passado ocorreu um crime hediondo, lugares visitados pela água gelada que se desprendeu das nuvens. Aqui foi possível ver os seus cristais pequeníssimos e hexagonais. Agruparam-se e chegaram à superfície terrestre sob a forma de flocos de neve.
Ler é importante
A Associação de Professores de Português (APP), no sentido de promover junto dos alunos, da escola e da sociedade a ideia de que ler é importante, convida professores e escolas a organizarem sessões de leitura nas aulas de português.
Os professores e escolas participantes no Projecto convidarão encarregados de educação, vizinhos da escola, antigos alunos ou personalidades relevantes a visitarem uma sala de aula, de 27 a 31 de Março (última semana de aulas do 2º período), e lerem um texto por si escolhido.
Este projecto deve proporcionar aprendizagens eficazes nos alunos e, na sociedade, o desenvolvimento de uma ideia favorável à leitura.
A APP publica no seu Sítio Web (www.app.pt/lc) uma Página de apoio a este projecto, com lista de discussão, textos de apoio, guião de actividades e lista de turmas participantes.
Lembramos que em 2004 a 1ª edição deste projecto envolveu cerca de 350 turmas em 60 concelhos portugueses e nas escolas portuguesas de 4 países estrangeiros. Os números de 2005 foram semelhantes. Autarcas, vizinhos, empresários, encarregados de educação, militares, ministros, membros do clero, diplomatas, deputados e eurodeputados, antigos alunos e estudantes voltaram à escola para ler os textos que escolheram e para transmitir o gosto pela leitura.
Muitos professores enviaram relatos que nos incitam a continuar este projecto.
A APP apoia e apela a todos os professores de português para que desenvolvam este Projecto educativo.
Associação de Professores de Português
Os professores e escolas participantes no Projecto convidarão encarregados de educação, vizinhos da escola, antigos alunos ou personalidades relevantes a visitarem uma sala de aula, de 27 a 31 de Março (última semana de aulas do 2º período), e lerem um texto por si escolhido.
Este projecto deve proporcionar aprendizagens eficazes nos alunos e, na sociedade, o desenvolvimento de uma ideia favorável à leitura.
A APP publica no seu Sítio Web (www.app.pt/lc) uma Página de apoio a este projecto, com lista de discussão, textos de apoio, guião de actividades e lista de turmas participantes.
Lembramos que em 2004 a 1ª edição deste projecto envolveu cerca de 350 turmas em 60 concelhos portugueses e nas escolas portuguesas de 4 países estrangeiros. Os números de 2005 foram semelhantes. Autarcas, vizinhos, empresários, encarregados de educação, militares, ministros, membros do clero, diplomatas, deputados e eurodeputados, antigos alunos e estudantes voltaram à escola para ler os textos que escolheram e para transmitir o gosto pela leitura.
Muitos professores enviaram relatos que nos incitam a continuar este projecto.
A APP apoia e apela a todos os professores de português para que desenvolvam este Projecto educativo.
Associação de Professores de Português
segunda-feira, 30 de janeiro de 2006
Camba: o passado e o presente
As primeiras casas que formavam a Camba, ainda hoje se podem ver ao fundo da aldeia, num local hoje designado de Povo de Baixo. Deste aglomerado, parte das casas estão já em ruínas e outras foram reconstruídas.
A CAMBA NOS ANOS 50
"No século IX, a Camba fazia parte da freguesia de Vale d`Égua, concelho de Fajão, extinto nesse século. Hoje a aldeia de Vale d`Égua, não é mais do que um conjunto de ruínas, deslocando-se a população para aldeias vizinhas, principalmente para Camba.
Os Cambenses dedicavam-se essencialmente à agricultura, tendo como produção principal o milho. A pastorícia foi outra grande actividade. Era frequente encontrar grandes rebanhos de cabras pelas encostas, por esse facto, a vegetação naquela época era rara, e ainda, devido às frequentes roças que o mato era sujeito, para colocar nos currais e servir de estrume para as terras (esterco).
Cada família, criava o seu Porco que fornecia carne para todo o ano, conservada em salgadeiras.
A apicultura e o fabrico da famosa aguardente de mel, constituia uma ocupação comum a todas as familias.
Para adquirir produtos diversos, a loja mais próxima era no Porto da Balsa, surgindo depois em Camba a tasca do Ti Zé dos Santos e a do Ti Eduardo, que serviam também de local de encontro e convívio
No ano de 1948, com o inicio da construção da Barragem do Alto Ceira e dos túneis de canalização de água, que perfuram as serras até levar água para a Barragem de Stª Luzia, a vida dos Cambenses sofre algumas alterações. Esta obra da responsabilidade da antiga Companhia Eléctrica das Beiras, deu emprego a muitos Cambenses, homens e mulheres, quer na apanha de seixos (*), quer na abertura dos túneis, construção de estradas e barragem. Ainda hoje se sentem os efeitos desse trabalho árduo, devido ás terriveis condições de trabalho dessa época, especialmente dentro túneis, resultando em doenças respiratórias graves e outras que têm feito as suas vitimas entre os Cambenses e todos os que alí trabalharam.
A construção da barragem trouxe a estas paragens gente de vários pontos do país, acabando alguns por criar laços familiares com Cambenses e se fixarem em Camba.
Com a conclusão da obra, os Serviços Florestais foram outra ocupação para grande número de Cambenses, empregados na abertura de estradas e plantação de floresta nas encostas da região.
Com o fim dos postos de trabalho na região, a maioria dos Cambenses, principalmente os homens, debandaram para as grandes cidades em busca de emprego, ficando em Camba na sua maioria mulheres e crianças que continuaram a ocupar-se da agricultura e dos seus rebanhos, acabando mais tarde por se juntar aos seus, principalmente as crianças que cedo deixaram a Camba em busca de uma vida melhor.
Apesar da grande maioria dos Cambenses ter deixado a sua terra, o seu amor e dedicação a Camba é enorme. Presentemente a aldeia está bastante mais desenvolvida a todos os níveis.
O número de habitações duplicou nos ultimos 50 anos, o que fez surgir outras actividades como são a construção civil e o comércio. Existem dois estabelecimentos comerciais em Camba, o Ti Mário e o Bar da Casa de Convívio, locais onde hoje em dia os Cambenses se juntam para conviver, conversar e adquir alguns produtos.
A pastoricia é uma actividade quase nula, restando apenas um rebanho. Os Cambenses dedicam-se hoje em dia á produção e comercialização de Mel de excelente qualidade, Aguardente de Mel, Castanhas e Batata.
A Camba é um ponto de passagem para muitos automobilistas e turistas, sendo possivel pernoitar na nossa aldeia em quartos que poderão ser alugados na nossa Casa de Convivio.
As vias de comunicação estão a ser melhoradas em toda a região do Alto Ceira, sendo já possivel ter acesso á sede do concelho por estrada alcatroada, assim como para as aldeias vizinhas.
A aldeia está a ficar com um aspecto agradável, dispondo já de algumas infraestruturas básicas, levadas a cabo pela autarquia e pela Comissão Associativa de Melhoramentos de Camba, como são por exemplo a Casa de Convívio, calcetamento de ruas, abastecimento de àgua, recinto polidesportivo, implantação de Posto Médico servindo as aldeias vizinhas com médico de 15 em 15 dias.
(*) Seixos são pedras ou penedos brancos que se encontram em abundancia nesta região e que foram utilizados como matéria –prima na constituição do betão da Barragem do Alto Ceira."
Comissão Associativa de Melhoramentos de CAMBA
A CAMBA NOS ANOS 50
"No século IX, a Camba fazia parte da freguesia de Vale d`Égua, concelho de Fajão, extinto nesse século. Hoje a aldeia de Vale d`Égua, não é mais do que um conjunto de ruínas, deslocando-se a população para aldeias vizinhas, principalmente para Camba.
Os Cambenses dedicavam-se essencialmente à agricultura, tendo como produção principal o milho. A pastorícia foi outra grande actividade. Era frequente encontrar grandes rebanhos de cabras pelas encostas, por esse facto, a vegetação naquela época era rara, e ainda, devido às frequentes roças que o mato era sujeito, para colocar nos currais e servir de estrume para as terras (esterco).
Cada família, criava o seu Porco que fornecia carne para todo o ano, conservada em salgadeiras.
A apicultura e o fabrico da famosa aguardente de mel, constituia uma ocupação comum a todas as familias.
Para adquirir produtos diversos, a loja mais próxima era no Porto da Balsa, surgindo depois em Camba a tasca do Ti Zé dos Santos e a do Ti Eduardo, que serviam também de local de encontro e convívio
No ano de 1948, com o inicio da construção da Barragem do Alto Ceira e dos túneis de canalização de água, que perfuram as serras até levar água para a Barragem de Stª Luzia, a vida dos Cambenses sofre algumas alterações. Esta obra da responsabilidade da antiga Companhia Eléctrica das Beiras, deu emprego a muitos Cambenses, homens e mulheres, quer na apanha de seixos (*), quer na abertura dos túneis, construção de estradas e barragem. Ainda hoje se sentem os efeitos desse trabalho árduo, devido ás terriveis condições de trabalho dessa época, especialmente dentro túneis, resultando em doenças respiratórias graves e outras que têm feito as suas vitimas entre os Cambenses e todos os que alí trabalharam.
A construção da barragem trouxe a estas paragens gente de vários pontos do país, acabando alguns por criar laços familiares com Cambenses e se fixarem em Camba.
Com a conclusão da obra, os Serviços Florestais foram outra ocupação para grande número de Cambenses, empregados na abertura de estradas e plantação de floresta nas encostas da região.
Com o fim dos postos de trabalho na região, a maioria dos Cambenses, principalmente os homens, debandaram para as grandes cidades em busca de emprego, ficando em Camba na sua maioria mulheres e crianças que continuaram a ocupar-se da agricultura e dos seus rebanhos, acabando mais tarde por se juntar aos seus, principalmente as crianças que cedo deixaram a Camba em busca de uma vida melhor.
Apesar da grande maioria dos Cambenses ter deixado a sua terra, o seu amor e dedicação a Camba é enorme. Presentemente a aldeia está bastante mais desenvolvida a todos os níveis.
O número de habitações duplicou nos ultimos 50 anos, o que fez surgir outras actividades como são a construção civil e o comércio. Existem dois estabelecimentos comerciais em Camba, o Ti Mário e o Bar da Casa de Convívio, locais onde hoje em dia os Cambenses se juntam para conviver, conversar e adquir alguns produtos.
A pastoricia é uma actividade quase nula, restando apenas um rebanho. Os Cambenses dedicam-se hoje em dia á produção e comercialização de Mel de excelente qualidade, Aguardente de Mel, Castanhas e Batata.
A Camba é um ponto de passagem para muitos automobilistas e turistas, sendo possivel pernoitar na nossa aldeia em quartos que poderão ser alugados na nossa Casa de Convivio.
As vias de comunicação estão a ser melhoradas em toda a região do Alto Ceira, sendo já possivel ter acesso á sede do concelho por estrada alcatroada, assim como para as aldeias vizinhas.
A aldeia está a ficar com um aspecto agradável, dispondo já de algumas infraestruturas básicas, levadas a cabo pela autarquia e pela Comissão Associativa de Melhoramentos de Camba, como são por exemplo a Casa de Convívio, calcetamento de ruas, abastecimento de àgua, recinto polidesportivo, implantação de Posto Médico servindo as aldeias vizinhas com médico de 15 em 15 dias.
(*) Seixos são pedras ou penedos brancos que se encontram em abundancia nesta região e que foram utilizados como matéria –prima na constituição do betão da Barragem do Alto Ceira."
Comissão Associativa de Melhoramentos de CAMBA
domingo, 29 de janeiro de 2006
Interminavelmente
E não me admiraria nada , a continuar este Inverno do nosso descontentamento, que um dia destes caia o governo.
Última hora
Notícia de última hora.
Gripe das aves afecta 50 mil águias, nova estirpe do vírus SCP3-1.
Sintomas: tudo sem pio...
Gripe das aves afecta 50 mil águias, nova estirpe do vírus SCP3-1.
Sintomas: tudo sem pio...
Neve
Lugares da Alma
Lugares da Alma
(A Monsenhor Nunes Pereira)
Que sabia estes versos de cor.
Canta-se ainda à noitinha, pela roda de um braseiro. Por invernias, onde se pena de frio.
Por lugares onde Serra, e as Beiras dão de mão. E com o Rio Ceira, sempre encostado em seu perfeito ciúme.
O ciúme que o rio tem daquela Serra.. E por lugares, e mundos como Ceiroquinho.
Boiças, Algares, Relvas, Teixeira e Água d’Alte. Caratão, Porto da Balsa, Castanheira.
Fajão, Góis. Ou ainda Celavisa, Arganil, Gralhas, Vale da Maceira, Sargaçosa.
Ou (e fique-se por aqui): Barrigueiro, Ponte das Três Entradas, Mata.
Mas é verdade.
Ainda se canta por estes lugares, com uma guitarra servindo de base. A base necessária ao mote geral da fagulha, saltando no madeiro.
Ainda se canta por aqui (soprando aos ares, e ao frio da noite), coisas da chuva e do vento. Algumas até bem transpiradas:
Esta noite sonhei eu,
A outra sonhado tinha,
Que estava na tua cama,
Acordei, estava na minha.
Tudo, praticamente tudo, o que aqui pertence, que pertence a estes lugares, é chamado a um versejar popular. A porta, e seu trinco.
A rola, e suas queixas. O provento que o pai ganha.
A sede, e a boca (na sua fonte). O terreiro, o vira, o adro da igreja, o jogo do pião.
A fruta do chão, o manjerico, o rosmaninho, a baga do loureiro. E ainda mais: o rio, as pedras de lavar, os quintais, as voltas do lugar, a mó, a nora, o lume, a cinza.
É verdade, sim senhora. Ainda se canta por estes lugares, na companhia de um grilo qualquer, que ninguém manda calar.
E para que tal aconteça, basta (apenas) o tempero de uma pinga, que ajude o cantar, a fazer-se delgadinho.
Jorge Serrão
(A Monsenhor Nunes Pereira)
Que sabia estes versos de cor.
Canta-se ainda à noitinha, pela roda de um braseiro. Por invernias, onde se pena de frio.
Por lugares onde Serra, e as Beiras dão de mão. E com o Rio Ceira, sempre encostado em seu perfeito ciúme.
O ciúme que o rio tem daquela Serra.. E por lugares, e mundos como Ceiroquinho.
Boiças, Algares, Relvas, Teixeira e Água d’Alte. Caratão, Porto da Balsa, Castanheira.
Fajão, Góis. Ou ainda Celavisa, Arganil, Gralhas, Vale da Maceira, Sargaçosa.
Ou (e fique-se por aqui): Barrigueiro, Ponte das Três Entradas, Mata.
Mas é verdade.
Ainda se canta por estes lugares, com uma guitarra servindo de base. A base necessária ao mote geral da fagulha, saltando no madeiro.
Ainda se canta por aqui (soprando aos ares, e ao frio da noite), coisas da chuva e do vento. Algumas até bem transpiradas:
Esta noite sonhei eu,
A outra sonhado tinha,
Que estava na tua cama,
Acordei, estava na minha.
Tudo, praticamente tudo, o que aqui pertence, que pertence a estes lugares, é chamado a um versejar popular. A porta, e seu trinco.
A rola, e suas queixas. O provento que o pai ganha.
A sede, e a boca (na sua fonte). O terreiro, o vira, o adro da igreja, o jogo do pião.
A fruta do chão, o manjerico, o rosmaninho, a baga do loureiro. E ainda mais: o rio, as pedras de lavar, os quintais, as voltas do lugar, a mó, a nora, o lume, a cinza.
É verdade, sim senhora. Ainda se canta por estes lugares, na companhia de um grilo qualquer, que ninguém manda calar.
E para que tal aconteça, basta (apenas) o tempero de uma pinga, que ajude o cantar, a fazer-se delgadinho.
Jorge Serrão
sábado, 28 de janeiro de 2006
Testemunhos
"Quando era a época das castanhas comia-mo-las assadas à lareira; por vezes a fome era tanta que eu engolia umas cruas, outras a escaldar, outras ainda com camisa, algumas até marchavam com casca, só com medo que os meus irmãos tirassem mais do que eu.
De vez em quando um deles berrava:
- Mãe, o Fernando está a comer as castanhas com camisa!
E, eu com a boca cheia, fazia que não. Entretanto ia enchendo os bolsos para depois".
Fernando Pimenta, Cerdeira
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor
"Havia um velho do Vale Derradeiro que andava a regatear os preços na feira do Mont´Alto. Alguém viu e disse:
- Deixa lá o velho do Vale Derradeiro, que se lhe deres um pontapé no migalheiro chega para pagar a tenda e o tendeiro.
Ora, uns ladrões ouviram isto e logo resolveram ir a casa dele, mas revolveram tudo sem encontrar o dito dinheiro. Então, ameaçaram-no de morte e ele, coitado, teve de dizer que as suas poupanças estavam escondidas no corticito. Eles foram lá e levaram-lhe tudo, tudo, quanto tinha."
História recolhida na Malhada Chã
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor
"Vira-se no Colmeal um que já morreu para o Padre que, coitado, também já morreu:
- Ó Senhor Padre, ficou-me um bocado de carne de porco espetada nos dentes desde o Entrudo até agora. Será pecado comê-la na Quaresma?
Responde-lhe o Padre:
- Bem, homem... se ela já lá está suponho que não será pecado...
Vai ele e atira-lhe:
- Então olhe, muito obrigado pelo indulto. É que eu tenho um presunto espetado nos dentes da forquilha e estou com umas ganas de comer nele..."
História contada por Maria da Luz, da Aldeia Velha, Colmeal
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor
"Estas salas (...) eram caiadas e nessas paredes já muito antigas havia sempre muitos buracos, que davam sempre um aspecto de penúria, pelo que as pessoas, em especial nas quadras festivas, usavam forrar as paredes com papel de jornais que se iam pedir a uns senhores que eram assinantes da Comarca de Arganil, que sempre os guardavam, para esse fim. Assim as paredes eram vestidas com esses jornais, tornando-se limpas e airosas, mas não por muito tempo, uma vez que os jornais eram colados com farinha amassada, que também servia de alimento para os ratos, que logo se encarregavam de destruir toda essa decoração."
António Santos Vicente "Vida e Tradições das Aldeias Serranas"
(...) "Ia a passar coberto de suor, dei as boas tardes a uma vaga forma feminina sentada à entrada da sua furna de troglodita, e recebo, juntamente com o troco de salvação, este juro imprevisto:
- O senhor vai alagado! Quer beber uma pinga? Ele é arreganhado, mas para um remedeio...
- Bem haja...
- Prove, ao menos. Nós achamo-lo bom, porque não temos outro...
Azedo como rabo-de gato, realmente, mas dado com a infinita doçura deste santo povo (...) a quem nenhum desterro, nenhum abandono, nenhuma incultura, nenhuma pobreza consegue avinagrar o coração."
Miguel Torga, "Diário IX" (Piódão, 16 de Dezembro de 1962
"O quarto tinha as paredes forradas com jornais velhos, luxo com que distinguiam o hóspede...
Deitei-me, e passado pouco tempo, qualquer coisa a mexer entre a parede e os jornais produzia uns ruídos que não me deixavam adormecer.
Chamei o meu anfitrião (...) e contei-lhe o que se passava.
Veio e descobriu: - São os ratos, que querem furar os papéis.
Saiu, foi agarrar um gato e deixou-o fechado no quarto de sentinela."
Vasco de Campos, "Serra! Caminhos de um Médico"
"Certo dia, na altura do racionamento (1945/46), vinha o Ti Alberto das bandas do Soeirinho com dois quilos de "açúcar ilegal" dentro da maleta de relojoeiro, eis senão quando topa com a Guarda, que logo o manda parar e pede para abrir aquela estranha mala metálica.
- Com que então açúcar! -Diz-lhe, triunfante, o cabo.
- Que, senhor guarda - responde ele logo. - É potassa!
E assim, por entre sorrisos cúmplices, se saiu o "Ti Alberto relojoeiro" desta embrulhada, continuando sem mais delongas o seu caminho."
História recolhida nos Cepos
Dr. Paulo Ramalho,Tempos Difíceis- Tradição e Mudança na Serra do Açor
De vez em quando um deles berrava:
- Mãe, o Fernando está a comer as castanhas com camisa!
E, eu com a boca cheia, fazia que não. Entretanto ia enchendo os bolsos para depois".
Fernando Pimenta, Cerdeira
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor
"Havia um velho do Vale Derradeiro que andava a regatear os preços na feira do Mont´Alto. Alguém viu e disse:
- Deixa lá o velho do Vale Derradeiro, que se lhe deres um pontapé no migalheiro chega para pagar a tenda e o tendeiro.
Ora, uns ladrões ouviram isto e logo resolveram ir a casa dele, mas revolveram tudo sem encontrar o dito dinheiro. Então, ameaçaram-no de morte e ele, coitado, teve de dizer que as suas poupanças estavam escondidas no corticito. Eles foram lá e levaram-lhe tudo, tudo, quanto tinha."
História recolhida na Malhada Chã
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor
"Vira-se no Colmeal um que já morreu para o Padre que, coitado, também já morreu:
- Ó Senhor Padre, ficou-me um bocado de carne de porco espetada nos dentes desde o Entrudo até agora. Será pecado comê-la na Quaresma?
Responde-lhe o Padre:
- Bem, homem... se ela já lá está suponho que não será pecado...
Vai ele e atira-lhe:
- Então olhe, muito obrigado pelo indulto. É que eu tenho um presunto espetado nos dentes da forquilha e estou com umas ganas de comer nele..."
História contada por Maria da Luz, da Aldeia Velha, Colmeal
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor
"Estas salas (...) eram caiadas e nessas paredes já muito antigas havia sempre muitos buracos, que davam sempre um aspecto de penúria, pelo que as pessoas, em especial nas quadras festivas, usavam forrar as paredes com papel de jornais que se iam pedir a uns senhores que eram assinantes da Comarca de Arganil, que sempre os guardavam, para esse fim. Assim as paredes eram vestidas com esses jornais, tornando-se limpas e airosas, mas não por muito tempo, uma vez que os jornais eram colados com farinha amassada, que também servia de alimento para os ratos, que logo se encarregavam de destruir toda essa decoração."
António Santos Vicente "Vida e Tradições das Aldeias Serranas"
(...) "Ia a passar coberto de suor, dei as boas tardes a uma vaga forma feminina sentada à entrada da sua furna de troglodita, e recebo, juntamente com o troco de salvação, este juro imprevisto:
- O senhor vai alagado! Quer beber uma pinga? Ele é arreganhado, mas para um remedeio...
- Bem haja...
- Prove, ao menos. Nós achamo-lo bom, porque não temos outro...
Azedo como rabo-de gato, realmente, mas dado com a infinita doçura deste santo povo (...) a quem nenhum desterro, nenhum abandono, nenhuma incultura, nenhuma pobreza consegue avinagrar o coração."
Miguel Torga, "Diário IX" (Piódão, 16 de Dezembro de 1962
"O quarto tinha as paredes forradas com jornais velhos, luxo com que distinguiam o hóspede...
Deitei-me, e passado pouco tempo, qualquer coisa a mexer entre a parede e os jornais produzia uns ruídos que não me deixavam adormecer.
Chamei o meu anfitrião (...) e contei-lhe o que se passava.
Veio e descobriu: - São os ratos, que querem furar os papéis.
Saiu, foi agarrar um gato e deixou-o fechado no quarto de sentinela."
Vasco de Campos, "Serra! Caminhos de um Médico"
"Certo dia, na altura do racionamento (1945/46), vinha o Ti Alberto das bandas do Soeirinho com dois quilos de "açúcar ilegal" dentro da maleta de relojoeiro, eis senão quando topa com a Guarda, que logo o manda parar e pede para abrir aquela estranha mala metálica.
- Com que então açúcar! -Diz-lhe, triunfante, o cabo.
- Que, senhor guarda - responde ele logo. - É potassa!
E assim, por entre sorrisos cúmplices, se saiu o "Ti Alberto relojoeiro" desta embrulhada, continuando sem mais delongas o seu caminho."
História recolhida nos Cepos
Dr. Paulo Ramalho,Tempos Difíceis- Tradição e Mudança na Serra do Açor
sexta-feira, 27 de janeiro de 2006
Um mundo em transformação
... Podemos afirmar que vivemos num mundo caracterizado pela galopante complexidade, interdependência e inconstância dos processos, mas crescentemente homogeneizado, económica (e culturalmente!).
Esta mundialização acentuou-se,fundamentalmente pela aceleração das trocas comerciais entre as nações após a assinatura em 1947 do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), pela importância desempenhada pelas comunicações (maior rapidez e menores custos), pelo progresso tecnológico (relacionado com o processo produtivo, a comercialização, a gestão, etc), pela crescente preocupação com as questões do ambiente (preservação, poluição, gestão dos recursos, etc.), que conduziram ao aumento exponencial dos fluxos comerciais e financeiros.
As empresas ultrapassam fronteiras, o investimento directo no estrangeiro cresce rapidamente. A mundialização ainda é mais marcante quando se pensa nos fluxos respeitantes aos serviços, aos dados informáticos, às telecomunicações, entre outros.(...)
(Multinacionais e Pequenas e Médias Empresas na Industrialização de Espaços Periféricos / Um mundo industrial em transformação pág.2 , Rui Gama , Faculdade de Letras, Coimbra,1994)
Esta mundialização acentuou-se,fundamentalmente pela aceleração das trocas comerciais entre as nações após a assinatura em 1947 do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), pela importância desempenhada pelas comunicações (maior rapidez e menores custos), pelo progresso tecnológico (relacionado com o processo produtivo, a comercialização, a gestão, etc), pela crescente preocupação com as questões do ambiente (preservação, poluição, gestão dos recursos, etc.), que conduziram ao aumento exponencial dos fluxos comerciais e financeiros.
As empresas ultrapassam fronteiras, o investimento directo no estrangeiro cresce rapidamente. A mundialização ainda é mais marcante quando se pensa nos fluxos respeitantes aos serviços, aos dados informáticos, às telecomunicações, entre outros.(...)
(Multinacionais e Pequenas e Médias Empresas na Industrialização de Espaços Periféricos / Um mundo industrial em transformação pág.2 , Rui Gama , Faculdade de Letras, Coimbra,1994)
A Escola de Ceiroquinho
Escola
...Foi um grande triunfo para os ceiroquinhenses a construção da sua escola. Nela aprenderam a ler e escrever muitas gerações e, por isso, os ceiroquinhenses têm por ela uma estima, um carinho e um amor mnito grande.
Naquela casa todos têm a sua pedra, pedra sagrada, simbolo da fé da tenacidade e união dos ceiroquinhenses.
A escola custou algumas dezenas de contos e o Estado apenas deu 4 contos para a compra do mobiliário e a Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra 1.000$00. O resto foi produto de subscrição entre os ceiroquinhenses e dias de trabalho oferecidos graciosamente pelos habitantes de Ceiroquinho, enquanto o terreno onde foi construída foi oferecido por Américo Fernandes./...
Ceiroquinho
...Foi um grande triunfo para os ceiroquinhenses a construção da sua escola. Nela aprenderam a ler e escrever muitas gerações e, por isso, os ceiroquinhenses têm por ela uma estima, um carinho e um amor mnito grande.
Naquela casa todos têm a sua pedra, pedra sagrada, simbolo da fé da tenacidade e união dos ceiroquinhenses.
A escola custou algumas dezenas de contos e o Estado apenas deu 4 contos para a compra do mobiliário e a Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra 1.000$00. O resto foi produto de subscrição entre os ceiroquinhenses e dias de trabalho oferecidos graciosamente pelos habitantes de Ceiroquinho, enquanto o terreno onde foi construída foi oferecido por Américo Fernandes./...
Ceiroquinho
Este governo
Este governo, estes senhores, esta sequência de nomes de pessoas, acontecimentos ou factos estabelecidos por ordem de datas sucessivas, marca a maneira, o tempo, de actuar desta época rosa. A história encarregar-se-á de ser a ciência auxiliar de muitas memórias curtas.
Syberia
Syberia desafia o jogador a resolver enigmas na pessoa de Kate, advogada de New York em representação de uma companhia americana que quer comprar uma fábrica em Valadilene, França. O negócio com a proprietária de nome Anna Voralberg, oriunda de uma família rica, torna-se complicado. Kate descobre que Ann morreu. A venda da fábrica torna-se assim um problema. Ann deixa uma espécie de testamento onde indica o nome de um irmão, Hans Voralberg, agora o legítimo dono da fábrica.
Kate deve viajar a diversos lugares na busca de Hans com o propósito de negociar a venda da fábrica. Ela descobre que há muitas coisas na história da família que não se encaixam e não são bem o que parecem.
Kate deve viajar a diversos lugares na busca de Hans com o propósito de negociar a venda da fábrica. Ela descobre que há muitas coisas na história da família que não se encaixam e não são bem o que parecem.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2006
Kate no frio gelado da paisagem
O autómato Oscar da primeira aventura leva Kate cada vez mais para o Norte...um mistério que regressa no frio gelado da paisagem...
Kate Walker
Os trabalhos do linho
"Os trabalhos do linho (que assumiam particular importância nas freguesias de Pombeiro da Beira e S. Martinho da Cortiça) eram, desde a sementeira à confecção final do vestuário, uma das poucas actividades económicas exclusivamente femininas. Entrar no mundo do linho era entrar no reino branco das mulheres. As transmutações quase alquímicas porque a planta passava até adquirir o estatuto definitivo de "tecido fino" associavam-se inevitavelmente a uma simbologia de pureza; e as mulheres eram as guardiãs desse segredo. Saberemos nós construir os alicerces desses dias futuros sobre as raízes sãs dos dias passados? As próximas gerações comerão o pão que nós amassarmos. (Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor)
Pombeiro da Beira
Vestígios arqueológicos conferem na sua origem raízes romanas, certamente relacionadas com a exploração mineira da região. Alguns historiadores indicam que Pombeiro é fundação de povos «columbus», ou «columbinus», ou «columbarius», isto é, exploradores de minas de estanho e chumbo. Pombeiro fez parte do senhorio de Arganil até 3 de Fevereiro de 1355, data em que foi trocado entre o monarca e Martim Lourenço da Cunha por terras de Torres do Bairro e Vilarinho de Apar, do distrito de Aveiro. Seu filho João Lourenço da Cunha sucedeu-lhe na posse do senhorio e foi o primeiro marido de D. Leonor de Teles. A nona senhora de Pombeiro, D. Maria de Briteiros da Cunha casou em segundas núpcias com D. António de Castelo Branco. D. Manuel I concedeu-lhe carta de foral em 10 de Novembro de 1513,o qual foi renovado por D. João III, passando a ser vila e sede de concelho. A 6 de Abril de 1662, D. Pedro de Castelo Branco da Cunha, neto da nona senhora de Pombeiro, foi nomeado conde da terra. Este condado foi unido mais tarde ao marquezado de Belas. As suas armas eram em campo azul, um leão, de ouro, rompente, armado de púrpura e o seu timbre o mesmo leão das armas. Na Igreja Matriz, inaugurada na noite de Natal de 1622, fica o túmulo de sétimo senhor de Pombeiro, Mateus da Cunha. Em 1663, o Cónego da Sé de Coimbra, Tomé Nunes, no lugar da Póvoa da Judia (actual Póvoa da Rainha Santa), mandou edificar uma capela, com a forma octogonal, destinada a servir-lhe de sepultura e que colocou sob a invocação da Rainha Santa Isabel, sendo as pinturas que actualmente adornam o retábulo da autoria da segunda Viscondessa de Sanchas Frias. Era natural de Pombeiro o visconde de Sanchas Frias que, no século passado escreveu um interessante estudo sobre a história local. Em 1885 é extinto o concelho de Pombeiro e passa a fazer parte, como freguesia, do concelho de Arganil. Pelo Decreto Nº. 38.875, de 26 de Agosto de 1952, a povoação e freguesia de Pombeiro passou-se a denominar Pombeiro da Beira e a povoação de Vilarinho, desta freguesia, passou a denominar-se Vilarinho do Alva.
S. Martinho da Cortiça
Pero Salgado, tesoureiro do rei D. Dinis fez iniciar, em 1298, a construção da ponte que unia as duas margens do rio Alva no lugar da Ponte da Mucela. Por volta de 1500 passou a ser senhor da Sanguinheda, onde instituiu um morgadio (incluindo também a Carapinha), Simão da Cunha, terceiro filho do quinto donatário de Pombeiro. Por testamento datado de 27 de Outubro de 1535 deixou em legado estes terrenos à sua irmã, D. Inês da Cunha. Embora continuando-se o senhorio nos condes de Pombeiro, o domínio passou para os senhores de Melo. No início do século XVII, a freguesia conjuntamente com a Carapinha foi constituída em curato, mas a casa da Câmara situava-se na Sanguinheda e era aí que tinham assento os magistrados. Aquando das lutas liberais, logo depois do incidente regional conhecido pelo nome de «queima da pólvora», a povoação da Cortiça foi incendiada. Pertenceu ao concelho de Farinha Podre até 31 de Dezembro de 1853, passando então para o de Tábua. Passou a fazer parte do concelho de Arganil a partir de 24 de Outubro de 1855, englobando nessa altura a freguesia de Paradela, a qual foi anexada ao concelho de Tábua em 1895 e depois ao de Penacova em 1898."
Resenha Histórica do Concelho de Arganil
Pombeiro da Beira
Vestígios arqueológicos conferem na sua origem raízes romanas, certamente relacionadas com a exploração mineira da região. Alguns historiadores indicam que Pombeiro é fundação de povos «columbus», ou «columbinus», ou «columbarius», isto é, exploradores de minas de estanho e chumbo. Pombeiro fez parte do senhorio de Arganil até 3 de Fevereiro de 1355, data em que foi trocado entre o monarca e Martim Lourenço da Cunha por terras de Torres do Bairro e Vilarinho de Apar, do distrito de Aveiro. Seu filho João Lourenço da Cunha sucedeu-lhe na posse do senhorio e foi o primeiro marido de D. Leonor de Teles. A nona senhora de Pombeiro, D. Maria de Briteiros da Cunha casou em segundas núpcias com D. António de Castelo Branco. D. Manuel I concedeu-lhe carta de foral em 10 de Novembro de 1513,o qual foi renovado por D. João III, passando a ser vila e sede de concelho. A 6 de Abril de 1662, D. Pedro de Castelo Branco da Cunha, neto da nona senhora de Pombeiro, foi nomeado conde da terra. Este condado foi unido mais tarde ao marquezado de Belas. As suas armas eram em campo azul, um leão, de ouro, rompente, armado de púrpura e o seu timbre o mesmo leão das armas. Na Igreja Matriz, inaugurada na noite de Natal de 1622, fica o túmulo de sétimo senhor de Pombeiro, Mateus da Cunha. Em 1663, o Cónego da Sé de Coimbra, Tomé Nunes, no lugar da Póvoa da Judia (actual Póvoa da Rainha Santa), mandou edificar uma capela, com a forma octogonal, destinada a servir-lhe de sepultura e que colocou sob a invocação da Rainha Santa Isabel, sendo as pinturas que actualmente adornam o retábulo da autoria da segunda Viscondessa de Sanchas Frias. Era natural de Pombeiro o visconde de Sanchas Frias que, no século passado escreveu um interessante estudo sobre a história local. Em 1885 é extinto o concelho de Pombeiro e passa a fazer parte, como freguesia, do concelho de Arganil. Pelo Decreto Nº. 38.875, de 26 de Agosto de 1952, a povoação e freguesia de Pombeiro passou-se a denominar Pombeiro da Beira e a povoação de Vilarinho, desta freguesia, passou a denominar-se Vilarinho do Alva.
S. Martinho da Cortiça
Pero Salgado, tesoureiro do rei D. Dinis fez iniciar, em 1298, a construção da ponte que unia as duas margens do rio Alva no lugar da Ponte da Mucela. Por volta de 1500 passou a ser senhor da Sanguinheda, onde instituiu um morgadio (incluindo também a Carapinha), Simão da Cunha, terceiro filho do quinto donatário de Pombeiro. Por testamento datado de 27 de Outubro de 1535 deixou em legado estes terrenos à sua irmã, D. Inês da Cunha. Embora continuando-se o senhorio nos condes de Pombeiro, o domínio passou para os senhores de Melo. No início do século XVII, a freguesia conjuntamente com a Carapinha foi constituída em curato, mas a casa da Câmara situava-se na Sanguinheda e era aí que tinham assento os magistrados. Aquando das lutas liberais, logo depois do incidente regional conhecido pelo nome de «queima da pólvora», a povoação da Cortiça foi incendiada. Pertenceu ao concelho de Farinha Podre até 31 de Dezembro de 1853, passando então para o de Tábua. Passou a fazer parte do concelho de Arganil a partir de 24 de Outubro de 1855, englobando nessa altura a freguesia de Paradela, a qual foi anexada ao concelho de Tábua em 1895 e depois ao de Penacova em 1898."
Resenha Histórica do Concelho de Arganil
"Syberia 2"
Kate Walker está de volta. A ex-advogada continua a saga do universo criado pela história de Benoit Sokal. O autómato Oscar da primeira aventura leva Kate cada vez mais para o Norte...um mistério que regressa no frio gelado da paisagem...
quarta-feira, 25 de janeiro de 2006
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