domingo, 11 de dezembro de 2005

A verdadeira bravura

A verdadeira bravura não se demonstra nos campos de batalha, não está no enfrentamento de animais ferozes ou de perigos que ponham sua vida em risco.
A verdadeira bravura está em sair de casa para beber com os amigos;
não avisar a esposa; chegar em casa de madrugada, caindo de bêbado ser recebido por ela com uma vassoura na mão; e ainda ter peito para perguntar:
Vai varrer ou vai voar?

o Projeto Manhattan

... Nos Estados Unidos, o Projeto Manhattan, cujo setor científico foi liderado pelo físico Robert Oppenheimer, usou a reação nuclear em cadeia para explodir a primeira bomba atômica perto do laboratório de Los Alamos, em 1945. A segunda e a terceira caíram sobre Hiroxima e Nagasáqui, no Japão, selando a vitória norte-americana na guerra. O Projeto Manhattan envolveu vários dos melhores talentos da Física, como o italiano Enrico Fermi, o alemão Hans Bethe e o húngaro Leo Szilard. Após a guerra, Oppenheimer tornou-se pacifista e lutou contra o uso das armas nucleares, sendo perseguido pelo governo norte-americano. Outros físicos do Projeto Manhattan tiveram trajetória semelhante, como o australiano sir Mark Oliphant (1901-2000), falecido no último dia 17 de julho, na Austrália. Os cientistas renegados do Projeto Manhattan não foram os únicos a serem colhidos pelas malhas da política belicista dos anos 30-40. Lise Meitner e Albert Einstein, por exemplo, tiveram que fugir da Alemanha para salvar suas vidas, pelo simples fato de serem judeus./...
Com Ciência

o céu profundo e escuro...

O céu profundo e escuro sempre fascinou o homem desde a antiguidade. À medida que a história do homem avançava junto com a sua tecnologia, foi ficando cada vez mais claro que descobrir o que nos rodeava era apenas uma questão de tempo. Soma-se a isso as antigas disputas territoriais, que, de uma maneira ou de outra, sempre contribuíram para o progresso de uma nação em relação às outras. Pensava-se antes que quem dominasse os mares dominaria a Terra, depois, quem dominasse os ares, conquistaria a também a Terra, de modo que, inevitavelmente...
Observatório

sábado, 10 de dezembro de 2005

Este é o melhor do ano

...Sebastião lembra-se de Pound:
«O que amas de verdade é a tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado»

Jornada de África, Manuel Alegre, pp.53



Selecção 2005, a escolha dos melhores


A escolha dos melhores ou dos mais adequados a um fim, num conjunto de grupo continua. Hoje a equipa do Sem Ordem escolheu, não no sentido de excluir, eliminar, mas antes; fazer a selecção das nossas leituras no ano de 2005 tal e qual uma escolha pessoal e nunca com sentido eliminatório.

ESTE é um Desabafo Angolano, de quem nasceu em S.Paulo de Luanda no ano Mágico de 1963...


Agora a frase batida...Melhor blog...E o vencedor é...


ANGOLA -Da Utopia para a Realidade- "Desabafos Angolanos"

Duzentos mil

...crescendo de interesse por este espaço. Mas está na hora de tomar decisões quanto aos caminhos a percorrer, um processo que diz respeito aos membros da equipa, mas também aos leitores, em particular àqueles que acompanham regularmente este trabalho.

os amigos, a melhor oferta

Para o Carlos Cravo, Carlos Antunes, Carlos Gama e João Folgado


O dia entoa a sua última canção, o latejar final da tarde espera-nos./
...Sei-o. O tempo tudo devasta. Sei-o. O ruído da nostalgia torna-se insuportável. Caminho de uma estação à outra do inferno./
...alheio ao fulgor que alumia o dormitório como uma carruagem de soledades que nunca se detém./
A noite abre os seus olhos infinitos e torna-se impossível reconhecer os poucos vestígios de vida abandonados por detrás destas paredes./
...O frio converte em ruínas a paisagem deste outono./
...a voz de um amigo vinda de lugares que nunca visitaste./
...As estantes também sofreram muitas mudanças./
...Com os anos.../
Aprendemos a domesticar as recordações e a construí-las à nossa imagem e semelhança.
Alcáçova
...A ruína, essa outra forma da memória./
...Sou eu mesmo.

A.Sáez Delgado
Dias, Fumo

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

«benefícios» de uma chamada «evolução»

...os «benefícios» de uma chamada «evolução» que certamente se daria sem o derrubamento da ditadura, com uma mais completa submissão ao imperialismo e a aquisição tecnológica e «desenvolvimentista» feita à custa da exploração dos trabalhadores e do povo.

Mundo Global

Vivimos en un mundo globalizado en el que crece cada día la desigualdad; se extiende la injusticia; se desarrolla la rapiña de la riqueza en un pillaje planetario en beneficio de unos pocos; se saquea el entorno sin freno y sin escrúpulos, causando destrucciones monumentales que ponen en peligro la pervivencia del planeta; se mercantiliza absolutamente todo, desde las palabras a las cosas, desde la naturaleza a la cultura, y el ser humano sólo tiene valor como productor o como consumidor.
rebelion

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Piódão

No vale profundo entre as serras do Açor e de Barreiros...


/...Subindo pela escarpa abrupta em forma de anfiteatro, humildemente entalhada na paisagem que a envolve, a aldeia do Piódão mantém ainda o traçado antigo e irregular, tão característico das aldeias medievais.
A sensação de harmonia e integração no meio é de tal forma intensa, que tudo parece ter sido concebido de uma só vez, numa genial composição urbanística.
Ruas estreitas e sinuosas abrem-se aqui e além em recantos diversificados. Solta-se a vista do chão de xisto, quando do fundo se ouvem as águas da ribeira do Piódão, entrecruzadas pelo chilrear cristalino da passarada.
No chão, nas paredes das casas, e nas lousas que lhes servem de cobertura, o xisto impera por toda a aldeia, pontilhada pelo azul forte das portas e dos frisos das janelas. A unidade da cor é explicada como consequência do isolamento a que o Piódão esteve sujeito: a loja do Piódão só vendia tinta de uma cor, tal era a inacessibilidade do lugar.
As casas descem de socalco em socalco ao sabor do monte, para se alargarem então na vasta praça que constitui o centro, a sala de visitas do Piódão, onde se ergue, orgulhosamente imaculada, a pequena Igreja Matriz./...
(Paisagem Protegida da Serra do Açor, PPSA)
Fotos de Portugal

(r) evolução

Salgueiro Maia

Como diz o poema de Sophia de Mello Breyner:
“Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos”.

Autocrítica

Aqui, a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...

Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)

A certeza da vitória
Nesta rota...

Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!

Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
ah! minhas palavras minhas!

(António Cardoso)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

A Luz não se Apagou

O Benfica ganhou ao Manchester.
O «glorioso» regressou às noites europeias.
Envie a sua opinião para superliga2005@sapo.pt.
AQUI

Penedos de Góis e de Fajão

CUNHA, P. PROENÇA & REIS, R. PENA DOS (1991) - A etapa sedimentar pliocénica na região de Coimbra - Góis (Bacia Ocidental Portuguesa - Portugal Central). I Congreso del Grupo Español del Terciario (Comunicaciones), Vic, 18-20 de Marzo, pp. 271-274.



Abstract - The analysis of the Pliocene sedimentary record of the Coimbra - Góis region (Lusitanian Basin - Central Portugal) allowed the identification of the architecture and the interpretation of the depositional systems. The role of the tectonic, climate and eustasy is interpreted.

Resumen - El análisis del relleno sedimentar plioceno de la región entre Coimbra e Góis, ha permitido la identificación del modelo sedimentario y la interpretación del contexto tectónico, climático e eustático deste sector de la Cuenca Ocidental Portuguesa.

Introdução - Na região de Coimbra - Góis, podem distinguir-se três domínios geomorfológicos principais. São, respectivamente, de noroeste para sudeste (Fig. 1): _ A Orla Ocidental Portuguesa, separada da plataforma do Mondego por um relevo com orientação meridiana (Maciço Marginal de Coimbra). _ A plataforma do Mondego, inclinando suavemente e estreitando para SW. Estruturalmente, esta área corresponde a um enorme graben definido, a NW pela falha de Penacova-Vérin (direcção NNE-SSW) e a SE pela falha da Lousã (direcção NE-SW). Estes acidentes, de comportamento inverso, estabelecem o contacto tectónico dos sedimentos cretácicos e terciários com o soco antigo. _ O sistema montanhoso que integra as serras da Lousã, Açor e Estrela, com alongamento segundo SW-NE (Cordilheira Central Portuguesa). A unidade mais antiga da região é o "Complexo Cristalofílico", (de provável idade precâmbrica) aflorando a ocidente da falha de Porto-Coimbra segundo uma faixa meridiana; apresenta-se intensamente deformado e fracturado, sendo predominantemente constituído por xistos luzentes. Grande parte do soco é formado pelo "Complexo Xisto-grauváquico" que é constituído por alternâncias de xistos argilosos e grauvaques. As rochas paleozóicas (quartzitos e xistos argilosos) afloram no seio de sinclinais alongados segundo NW-SE, geralmente salientes na paisagem sob a forma de cristas. A nordeste, localizam-se extensas manchas de granitóides hercínicos ("granitos das Beiras"), predominando os calco-alcalinos; por metamorfismo de contacto, originaram auréolas de xistos mosqueados e corneanas. Na Orla Ocidental Portuguesa existe uma espessa sucessão carbonatada e terrígena, de idade triássica e jurássica. Ocorrem também sedimentos cretácicos (120 m de espessura máxima) e terciários (400 m de espessura máxima), que documentam várias etapas de enchimento.

Os depósitos da etapa sedimentar pliocénica Durante a última etapa sedimentar terciária — de provável idade pliocénica final — formaram-se depósitos fluviais culminantes, com composição essencialmente quartzítica e quartzosa, ricos em caulinite. Assentam sobre uma superfície de arrasamento, com valor de desconformidade ou de discordância angular. Na região de Góis (Fig. 1) apresentam 200 m de espessura e contactam inferiormente (aos 400 m de cota) com depósitos de sopé de composição essencialmente xistenta (de provável idade miocénica final) testemunhos das primeiras etapas de soerguimento e erosão dos relevos da Cordilheira Central Portuguesa. Um pouco mais para NW (nas serras da Atalhada e do Bidueiro), assentam sobre o Grupo do Buçaco (Reis & Cunha, 1989a) de idade cretácica. A ocidente, estes depósitos ainda se conservam no Maciço Marginal (assentando sobre sedimentos triássicos à cota 320 m) e estão amplamente representados na Orla Ocidental Portuguesa (Barbosa, 1983; Reis & Cunha, 1989b), podendo assentar sobre sedimentos cretácicos, paleogénicos e miocénicos. A área da Orla Ocidental Portuguesa que foi estudada detalhadamente no âmbito deste trabalho, localiza-se entre Coimbra e Cernache; nesta área, o registo desta etapa sedimentar é conhecido por "Complexo Cruz de Morouços" (Teixeira, 1952) e tem 40 m de espessura máxima. O estudo sedimentológico destes depósitos na região de Coimbra - Góis, permitiu distingir quatro associações de fácies aluviais: A) Espessos corpos de conglomerados heterométricos (constituídos por blocos que atingem quatro metros de diâmetro suportados por uma matriz lutítica) separados por níveis lutíticos; B) corpos decamétricos de conglomerados maciços de suporte clástico e mal calibrados; C) alternância de conglomerados maciços (em que são frequentes as imbricações de clastos) e de areão com estratificação oblíqua planar; D) corpos arenosos grosseiros com estratificação oblíqua planar e em ventre, associados inferiormente a pavimentos conglomeráticos; E) alternância de arenitos finos laminados e lutitos ricos em matéria orgânica. A associação de fácies A interpreta-se como depósitos de "mud-flow"; as associações B, C, D e E resultam de processos deposicionais aquosos, correspondendo a um sucessivo decréscimo na intensidade dos processos fluviais para jusante (Oeste). Acrecente-se que as fácies E sucedem gradualmente às fácies D e são geralmente ravinadas no tecto.

Discussão e conclusões- O modelo sedimentar, muito semelhante ao descrito por McGowen & Groat (1971), integra um sistema de leque aluvial com as fácies de àpex localizadas ao longo da falha da Lousã, particularmente na região de Góis. O bloco montanhoso a sudeste, compreendendo metassedimentos do CXG e dos sinclinais paleozóicos (cristas quartzíticas de Penedos de Góis e de Fajão) estaria a ser intensamente erodido. O sistema aluvial progradante para ocidente teria drenagem atlântica, passando gradualmente (a oeste e sudoeste de Coimbra) a depósitos marinhos transgressivos na base. Na área de Pombal - Leiria (a Sul de Coimbra), estes sedimentos marinhos são fossilíferos na base e estão datados do Plasenciano (Teixeira & Zbyszewski, 1951; Rocha & Ferreira, 1953). Idêntico contexto ocorreria também mais a NW, no sopé ocidental da Serra do Buçaco, pois depósitos fluviais passam para W (Chã da Mata) a depósitos com características litorais (Daveau et coll., 1986). A enorme espessura e as fácies presentes no sopé da Cordilheira Central Portuguesa, permitem admitir que o soerguimento e erosão dos relevos deste sistema montanhoso se continuou a verificar durante a etapa sedimentar pliocénica. O grande desenvolvimento espacial do sistema aluvial, as associações de fácies presentes testemunhando a persistencia de mecanismos aquosos, o predomínio de clastos (nos conglomerados e nas areias) mais resistentes à alteração, a intensa alteração argilosa ocre dos clastos de xisto e o cortejo argiloso com caulinite (predominante) e ilite, permite supor um clima húmido de tendência quente. Estes depósitos culminantes antecedem um último rejogo compressivo da falha da Lousã (foram cavalgados pelo soco do bloco montanhoso) e na região de Coimbra são afectados por vários sistemas de falhas. Também são anteriores ao encaixe da rede fluvial quaternária (bem expresso por vários níveis de terraço e depósitos vertente).
Referências bibliográficas

BARBOSA, B. (1983) , Estudos, Notas e Trabalhos do S.F.M., 25, 3-4, 193-213. DAVEAU, S. et coll. (1985) , Mem. Centro de Estudos Geográficos, 8, v. I, 232 p.

DAVEAU, S. et coll. (1986) , Mem. Centro de Estudos Geográficos, 8, v. II, p. 233-450

MCGOWEN & GROAT (1971) , Bureau of economic Geology, 72, 57 p.

REIS, R. PENA DOS & CUNHA, P. PROENÇA (1989a) , Com. Serv. Geol. Portug., 75

REIS, R. PENA DOS & CUNHA, P. PROENÇA (1989b) , Stvdia Geologica Salmanticensia, Vol. Esp. 5, p. 253-272

ROCHA, A. & FERREIRA, J. MARTINS (1953) , Rev. Fac. Ciências, 2ª Sec., C, III, 1

TEIXEIRA, C. (1952) , Mem. Ac. Ciências Lisboa, C - Ciências Naturais, VI

TEIXEIRA, C, & ZBYSZEWSKI, G. (1951) , Com. Serv. Geol. Portugal, 32, 1, p. 295-302


DCT / Pedro Proença

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

A matança do porco

A matança significava fartura, boa disposição e entreajuda. Era feita com tempo frio, mas nunca em dia de vento suão, que atraía as varejeiras.
Para matar um porco eram necessários no mínimo quatro homens. O bicho era deitado num banco e ajoujado com uma faca. As mulheres recolhiam imediatamente em gamelas ou bacias de barro o sangue para os enchidos.
Uma vez morto, o porco era chamascudo com carquejas acesas e depois esfregado com bocados da mesma carqueija até a pele exterior sair quase completamente. Finalmente era barbeado com uma navalha afiada e lavado com minúcia.
Chegava então a vez de ser preso pelas duas patas traseiras a um chambaril e pendurado num caibro ou trave de uma loja. Abria-se-lhe a barriga, retiravam-se as miudezas e separavam-se as carnes de acordo com as diferentes utilizações.
Do porco, absolutamente nada se desperdiçava: As tripas, depois de lavadas, eram utilizadas nos enchidos;
As costelas, o lombo e os torresmos (uma mistura de carne magra, fígado e outras miudezas), temperavam-se e conservavam-se em azeite, nas caçoilas de barro preto;
As coleiras,as bandas e as orelhas eram guardadas na salgadeira;
Os presuntos e as pás eram também conservados em sal um ou dois meses; depois de lavados penduravam-se ao fumeiro cerca de quinze dias; por fim, depois curados besuntavam-se com azeite e colorau;
Os chouriços e chouriças (de carne, de sangue ou de bofes) começavam a fazer-se no dia seguinte ao da matança. As carnes temperavam durante alguns dias e depois, com o auxílio da enchedeira, eram colocadas nas tripas. Os enchidos secavam ao fumeiro oito a quinze dias e depois conservavam-se em azeite;
As farinheiras eram feitas com farinha de milho e com ossadas do porco que, por serem muitas, se coziam (suprema ironia) na panela do porco.
A vianda do porco (nabos, batatas, couves, botelhas) cozinhava-se na "panela do porco" - uma enorme panela de ferro com três pernas que quase todo o dia fervia e refervia ao lume, nas cozinhas. Esta vianda, misturada com água e farinha, era transportada para o curral nas ferradas, de madeira ou latão. Os porcos comiam-na em maceiras, escavadas em troncos de árvores, ou nas pias, de granito mais ou menos tosco, conforme as regiões e a pedra existente.


(Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Selecção 2005, a escolha dos melhores

A escolha dos melhores ou dos mais adequados a um fim, num conjunto de grupo continua.
Hoje a equipa do Sem Ordem escolheu, separou, mais uns quantos Blogs, não no sentido de excluir, eliminar, mas antes; fazer a selecção das nossas leituras no ano de 2005 tal e qual uma escolha pessoal e nunca com sentido eliminatório.


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O Azeite

Num contexto de grande pobreza e frugalidade alimentar, o azeite assumia particular importância. Com ele se contava para "adubar o conduto" e acender as candeias e alentemas.
A azeitona apanhava-se nos meses de Dezembro e Janeiro. Constituía um trabalho arriscado, pois muitas das oliveiras estavam em penhascos e vertentes abruptas. Além disso, como as árvores só rararmente eram podadas (toda a rama era pouca para dar azeitonas) tinham que ser utilizadas escadas de doze e treze banços (degraus), com todos os riscos acrescidos de queda.
Para apanhar a azeitona saía-se de casa pela madrugada, de escada ao ombro. As escadas eram arrumadas às oliveiras e as azeitonas apanhadas à mão, para dentro de um cesto. Depois, chegava a vez de serem escolhidas (separadas das folhas) para dentro de uma saca.
O regresso a casa fazia-se já de noite, com a saca cheia às costas, e nas mãos enregeladas.

No Lagar
Os lagares só começavam a andar quando a azeitona estivesse quase toda apanhada. Funcionavam, da mesma forma que os moinhos da farinha, com a água de rios e ribeiros, conduzida por levadas.
O lagareiro, com os seus ajudantes (normalmente familiares), trabalhava ininterrupta e arduamente, dia após dia, até ao fim da campanha. Cada munho de azeitonas levava cerca de seis horas a moer e algumas mais se passavam até chegar, enfim o momento de benzer o azeite novo:
"Deus te acrescente agora e sempre pelas almas do Purgatório".
Depois eram esperadas medições: uma parte (a poia) para o "pote ladrão" do lagareiro, dez para os donos da azeitona; e assim sucessivamente.A safra do ano era levada para casa em bilhas de folha ou em odres.

Azeite Novo
Uma vez em casa, o azeite novo era cuidadosamente guardado numa loja fresca, em potes (ou talhas) de barro preto ou em talhas de pedra.
Administrado com parcimónia e bom senso, ele chegaria, num bom ano, para todas as necessidades - adubar a comida, acender a candeia, pagar promessas e favores, alumiar os mortos, conservar os chouriços e os queijos...E como nada do pouco que havia se podia desperdiçar, o bagaço da azeitona era também trazido do lagar, para servir de estrume ou dar como alimento aos porcos.
Ciclo de azeite e ciclo de porco, criação de gado e agricultura, vida familiar e subsistência económica - tudo se cruzava, tudo estava intimamente ligado na vida quotidiana
.

(Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor)

domingo, 4 de dezembro de 2005

Cartas ao Pai Natal

Cartas recebidas por e-mail


Carta ao Pai Natal - Mário Soares


Pai Natal
Acordei agora da sesta. Tive um sonho original.
Conversei com a Maria
E achamos que não é sonho
Mas uma ideia genial!
Já fui ministro, primeiro-ministro
E duas vezes presidente deste país
Está na hora de mudar de ares
Aceitar novos desafios
Levar mais longe o nome de Portugal
Ou o meu nome… Como sempre quis.
Como tu tenho já uma certa idade
E no ventre a mesma proeminência
Decidi que para o ano quero ser o Pai Natal.
Portanto…
Olha pá faz as malas. Desocupa a Lapónia.
Vou ser eu o Pai Natal.
Tem lá paciência.

Assinado: Mário Soares
(Ex-deputado. Ex-Primeiro Ministro. Ex-Presidente da Republica. Ex-Deputado europeu. Futuro Pai Natal)


Carta ao Pai Natal - Manuel Alegre


Pai natal quando voares nos céus da minha Pátria
Quando aterrares as renas nas planícies do meu País
Lembra-te desta carta, pedido singelo
De um homem que só para a Pátria pede
Para si… Nada quis.
Se o nevoeiro que levou D. Sebastião
Te fizer perder o rumo e baralhar o norte
Segue o cheiro a verde pinho
Ouve a minha trova no vento que passa
E chegarás às chaminés do meu país
Pátria desafortunada. Sem euros. Má sorte.
Numa das chaminés de Lisboa
Sentirás o odor e verás o fumo negro da traição
Que o teu trenó sobre ela paire
Que sobre a chaminé de Soares a tua rena páre
E solte bosta. Um imponente cagalhão.

Assinado: Manuel Alegre


Carta ao Pai Natal - Francisco Louçã


Isto não é uma carta!
É um manifesto. Um protesto. Uma petição
Assinada por dezenas de intelectuais
E outras pessoas que jamais
Se reviram numa festa
Bacanal
Orgia de oferendas
Dadas sem qualquer critério
E que perpetuam uma tradição
Caduca. Reaccionária. Clerical.
Que tu representas oh pai do natal.
Com esta petição pretendemos
Que a data seja referendada
Não imposta, decretada
Por um estado economicista e liberal
E que seja celebrada quando um homem quiser
Não à roda da mesa. Consoada.
Mas num portuguesíssimo arraial.

Assina: Francisco Louçã


Carta ao Pai Natal - Aníbal Cavaco Silva


Excelentíssimo Senhor Doutor Pai Natal
Venho por esta via pedir para a minha Maria
O Kama Sutra, versão condensada
Não sei se a minha Maria teria
Para a versão completa e ilustrada
Suficiente pedalada.
Eu para mim
Por ora nada peço
E de momento nada digo
Não abdico do meu direito de manter o suspense
E de fazer tabu do meu posterior pedido.
Mas…. E só isto adianto
Não preciso de Viagra
Para acompanhar a minha Maria na leitura
Do acima citado livro
Que teso e hirto ando eu sempre
Não precisando por isso de muleta
Ou qualquer outro suplemento
Para manter a rigidez
E o meu porte sobranceiro.
Despeço-me atentamente economizando palavras
Porque como vossa Excelência sabe:
Os tempos são de crise e tempo é dinheiro.

Assina o Professor Doutor: Cavaco Silva


Carta ao Pai Natal - Jerónimo de Sousa


Camarada
Tu que és explorado pela entidade patronal
Durante a época do Natal
Usado como símbolo do capitalismo
Para fomentar o consumismo
Desenfreado, descontrolado
Que enriquece a burguesia
E empobrece o proletariado
Junta-te a nós no combate
Contra a guerra no Iraque
Oferece Che Guevara’s não ofereças Action Man’s
Luta pela igualdade feminina
Não dês Barbies mas Matrioshkas
Educa as crianças de hoje
Comunistas amanhã
Substitui o Harry Potter pelo livro “O Capital”.
Camarada
Reivindica o teu direito a um transporte decente
Pára o trenó e as renas
Que não é veículo de gente operária e trabalhadora
Como tu oh pai natal!
Unidos venceremos o imperialismo e os reaccionários
Viva o Natal dos oprimidos
Viva o Natal dos operários!

Assinado pelo candidato: Jerónimo de Sousa
(Carta aprovada por unanimidade e braço no ar pelo Comité Central do PCP)

Palavras Certas

Aqui Neste Papel
ando a ler as Cartas da Guerra,
ando a ler a privacidade de um Homem,
ando a ler a relação com a mulher de um Homem isolado, só,
na guerra de um país que me viu nascer.
Este Livro é extraordinário.
Obrigado Maria José e Joana Lobo Antunes.

4 de Dezembro de 1980

Sá Carneiro A Força de Viver é o título do docudrama (documentário em que algumas cenas são reconstituídas por actores) que a RTP1 exibe às 21.45 de hoje, data que assinala os 25 anos sobre o desastre de avião que matou Francisco Sá Carneiro./...
DNotícias

sábado, 3 de dezembro de 2005

Finalmente a Broa!

A broa cozia-se de oito em oito ou de quinze em quinze dias. A cozedura era feita nos fornos individuais ou, no caso dos que os não possuíam, nos fornos comunitários.
Fazia-se o crescente no dia anterior, misturado no malgão as sobras da última cozedura com alguma farinha e água morna.
Para a amassadura utilizava-se uma gamela de madeira - o crescente era então misturado com farinha de milho, água morna, sal e alguma farinha triga ou centeia, para a broa não ficar tão arroliçada.
Feita a massadura, a broa ficava a fintar à fogueira, enquanto se aquecia o forno.
Depois de quente, o forno era limpo com o rodo e o vassoiro; as broas eram tendidas no malgão e uma a uma colocadas com a pá no forno.
Com a massa que sobrava na gamela fazia-se uma bola de crescente que se guardava no malgão até à próxima cozedura.
As broas, uma vez cozidas, eram guardadas numa loja fresca e arejada.
Havia quem fizesse a broa só com milho, de modo a fundir (render) para quinze dias - é que quanto mais pesada no estômago, menos se levava à boca...
Em certos casos, esta "poupança forçada" constituía o único modo de enganar a fome, pois em muitas aldeias metade das famílias não tinham sequer milho que lhes chegasse para o ano inteiro.
Eram os mais pobres entre os pobres; os que não tinham sequer uma côdea para acompanhar o caldo das couves. A estes bem se podia aplicar o ditado: "Poupa que comer, não guardes que fazer."
O mel era um dos poucos "luxos" alimentares ao alcance de quase todos.
Bastava fazer alguns cortiços e adquirir conhecimentos práticos elementares sobre as técnicas da apicultura.
O equipamento utilizado era também rudimentar e de fácil fabrico caseiro.

(Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor)