segunda-feira, 4 de outubro de 2010

JC - Panasqueira (a caminho, quase)


Minas da Panasqueira

Diz-se que nenhuma viagem é definitiva e que todas elas, pela surpresa da descoberta, podem sugerir bons regressos. Se o viajante vai à procura de encher a memória de instantes surpreendentes, aqueles momentos que às vezes, no caminhar dos dias, nos assaltam como referências que o tempo não apagou de todo, então as Minas da Panasqueira são o destino certo.
É um mundo à parte. O tempo cavou a margem e o homem criou dentro dela um universo de singularidades. As Minas fazem parte do país do pinhal. Em Maio, a invernia já passou e o mar verde de pinheiros mal se agita. A luz incendeia e fixa os contrastes. Se olharmos com atenção, podemos encontrar pela corda do Zêzere as "aldeias de viúvas", terras de gente que morria cedo envenenada nos subterrâneos da mina, história trágico-terrestre que dizimou povoações ou as deixou marcadas de mulheres envelhecidas cedo, sempre vestidas de sombra.
Desse tempo, de quando os mineiros partiam cedo da mata e todos os caminhos iam dar à mina, para esventrar a montanha, ainda persistem imagens na geografia física e humana: a mina é uma memória de mil dores, um passivo, nunca averiguado, de muitas mortes, distribuídas avulso pelas terras que fazem a corda do rio que se incrustaram na montanha, longe de tudo. Quantas vidas por viver? O monumento do mineiro, na Barroca Grande, é a metáfora trágica de uma crucificação sem resgate ou talvez a ilusão de um céu inalcançável pelos sísifos de carne e osso.
Mas quem algum dia se aventurou à escrita sobre a faina dos mineiros foi ao encontro de uma matéria de inquietação e desassossego que deixa sempre um travo amargo na memória. Fernando Namora ("As Minas de S. Francisco", romance de 1946) deu com toda a carga dramática, a imagem desse universo de infra-humanidade em que "os homens, enfiados nas entranhas da terra, faziam saltar o xisto do gume das picaretas"(...).A procissão de mineiros desaparece nas bocas da terra. O clarão do amanhecer hesita à entrada, ainda acompanha os mineiros até ao primeiro quadro, mas já aí as trevas húmidas se preparam para o devorar. Os olhos dilatam-se para se adaptarem ao halo desmaiado do carboneto. O hálito que sopra do extremo da galeria ou se escapa das paredes, que gemem em suor lustroso, vem infiltrar-se na carne, adensa-se nos brônquios. Os músculos estremecem, sacudidos por uma súbita maleita. À medida que o eco avoluma os passos, repetindo-se indefinidamente através de carris e galerias, a humidade espessa-se, os sentidos reconhecem-lhe o tacto e o odor. Mas os homens já não reparam. Os pulmões quase se habituam a essa asfixia, como os ouvidos já não escutam o ressoar cavernoso que, a espaços, se transforma num trovão (...)".
Num século de exploração mineira (o primeiro interesse inglês na panasqueira data de 1901), as Minas são uma memória atormentada e violenta, cuja exploração se ampliou sempre segundo o calendário de conflitos que marcou o século XX. De 1934 até final da Segunda Guerra Mundial, atingiu-se tal incremento que, dos 750 trabalhadores, em 1933, chegou-se a 2.300 em 1940, e 5.790 em 1943. Para além dos trabalhadores da empresa, existiam 4.780 mineiros na actividade do "quilo", o que correspondia a mais de 10.000 pessoas directamente envolvidas na actividade mineira nas Minas da Panasqueira.
Essa é uma memória distante. Hoje, trabalham nas Minas pouco mais de 200 mineiros.
Mas a paisagem reflecte bem a grandeza da exploração.
Quem passa ao largo, mal percebe a dimensão da transformação da realidade e a sua projecção fantástica trazida, pelo cromatismo dos montes e das terras "lavradas", pela topografia da paisagem, pelo "ferro-tempo" envolvente, pelas vertentes baças do Zêzere (agora menos envenenado), pelos restos materiais da produção intensiva, pela diferença imposta ao mundo rural. José Saramago, na sua "Viagem a Portugal" olhou e pouco se deteve no lugar, como se o terror das imagens lhe tivessem tocado a alma. "As minas viram a terra do avesso. Talvez um dia as árvores emigrem para dentro das minas", escreveu ele, que na brevidade da sua passagem ainda deixou um retrato:"(...) de súbito, lhe aparecem, assomando por cima das elevações naturais, duas montanhas, cada qual com sua cor, cinzento e amarelo queimado, sem um fio de erva nelas, sem um galho de árvore, nem sequer uma rocha, destas que por todo o lado surgem e se inclinam sobre a estrada. São os montes de detritos das Minas da Panasqueira, apartados segundo a sua composição e cor, duas massas gigantescas que avançam sobre a paisagem e a comem por fora, na mesma proporção em que foi sendo roída a terra por dentro. Para quem não espera, o surgimento súbito destes montes causa um choque, sobretudo porque nada, à distância, os liga aos trabalhos da mina. É mais adiante, perto da povoação, que na encosta se vêem as entradas para o interior da montanha. Cá fora uma lama esbranquiçada, quase fluida, escorre para outra vertente. O viajante não entrará na mina, mas dela fica-lhe a imagem exterior de um inferno húmido e viscoso, onde os condenados vivem enterrados até aos joelhos. Não é certamente isto, não será melhor que isto(...)".
O universo das Minas da Panasqueira é farto em diversidades. A faina de mineiro é sempre dura. Mas as condições reflectem agora as novas tecnologias, que lentamente vão substituindo a mão humana. É um espaço único onde a riqueza em arqueologia industrial oferece infinitas potencialidades.
O antigo complexo da Lavraria, no Cabeço do Pião, desactivado em 1996, está agora a ser objecto da realização de um projecto de desenvolvimento integrado em que a preservação da memória e a arqueologia industrial, bem como a requalificação ambiental, são aspectos determinantes. Era, até há pouco, um espaço abandonado, onde os últimos residentes se moviam como fantasmas. Também aqui os sinais da mudança são evidentes. A esperança regressou. Já se ouvem, de novo, os pássaros a cantar.
CM-Covilhã

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