quinta-feira, 13 de abril de 2006

Provincianismo, clericalismo e estagnação cultural

Portugal festeja – de 17 de agosto de 2000 à mesma data de 2001 – o Ano Eça de Queirós, pelo centenário de sua morte. Exposições, simpósios e conferências, além de concursos literários, reavaliam a figura do grande escritor cuja fama, em vida, ultrapassou as fronteiras de Portugal e encontrou no exterior – principalmente no Brasil – uma acolhida mais imediata e calorosa do que em seu próprio país. Não é de admirar. Em Portugal, perseguia-o a censura oficial do governo monárquico. Contava também com maior resistência dos próprios leitores, pois usava suas grandes qualidades de observação e crítica diretamente sobre a sociedade portuguesa da época, denunciando seu provincianismo, clericalismo e estagnação cultural, sua corrupção política, e criando uma galeria de personagens e histórias cuja força resiste ao passar do tempo – saltam ainda hoje diante de nós, vivas, coloridas, universais.

Mas o Brasil tem um motivo mais direto para associar-se aos festejos de ultramar: nos últimos 20 anos de vida, quando estava justamente no apogeu de seu talento, Eça – que iniciara a vida profissional no jornalismo, e nunca o abandonara – tornou-se colaborador regular de um de nossos maiores jornais, a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. E nele publicou até alguns de seus romances, sob a forma de folhetins.

"Mãe incógnita"

Era uma vez... na cidadezinha pitoresca de Viana do Castelo, uma jovem de boa família que no ardor de seus 19 anos cometera, no ano de 1845, uma falta que – apesar de bastante corriqueira desde os primórdios da humanidade – para seu meio e época não encontrava perdão: tomara-se de amores por um belo rapaz de uma vizinha cidade, e engravidara. Esses personagens chamavam-se Carolina Augusta Pereira de Eça, filha de um general já falecido, e José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, que em Vila do Conde exercia a função administrativa de delegado do procurador régio.

Segundo o uso hipócrita da época, Carolina teve de deixar sua cidade e refugiar-se em casa de um parente, numa afastada praia de pescadores, Póvoa de Varzim, onde a 25 de novembro de 1845 deu à luz o fruto de seu pecado – o futuro escritor José Maria Eça de Queirós. A criança foi logo entregue para criação a uma ama, muito pobre e mulata – Ana Leal de Barros, brasileira, natural de Pernambuco –, casada com um alfaiate de Vila do Conde.

Há algo de muito estranho e misterioso na atitude dos pais que o abandonaram: eram ambos solteiros, jovens, do mesmo meio. Portanto, não havia objeção legal ou social, nem empecilhos familiares que os impedissem de legalizar a união e reconhecer o filho. Continuaram a manter relações, e a ter outros filhos. Casaram-se quatro anos depois do nascimento de José Maria, mas continuaram a mantê-lo escondido. Pelo que parece, nem o visitavam. Ao contrário do que costuma acontecer, o pai foi, dos dois genitores, o que se preocupou mais com ele. Tanto que reconheceu-o logo, declarando no batismo que era filho seu, mas de "mãe incógnita". E como criança que devia permanecer esquecida e oculta, deram-lhe como padrinhos a própria ama e o Senhor dos Aflitos.

Embora haja divergência entre os biógrafos de Eça quanto à figura familiar que mais teria insistido para que o romântico par se casasse – uns dizem que o desembargador Queirós seria o mais insistente, outros que a avó materna fizera-lhes o pedido, no leito de morte –, todos parecem convergir num ponto, que não deixa de ser curioso: ao contrário do que se espera, a resistência ao casamento seria da parte de Carolina Augusta, tida como "romântica" e "orgulhosa". Não se sabe muito mais dela, mas seu comportamento de desafio à sociedade era evidente.

Um de seus biógrafos e críticos, o ensaísta José Maria Bello, fala do empenho do avô paterno no casamento. Figura interessante também, essa de Joaquim José de Queirós e Almeida – foi um herói das lutas liberais e por volta de 1820 tivera de fugir para o Brasil, para salvar a pele. Trouxera consigo a moça Teodora de Almeida, que depois se tornaria sua mulher. Do Brasil levara, ao voltar a Portugal, a mucama Ana Leal, que lhe criara o filho (pai de Eça), nascido no Brasil, e lhe criaria também o neto.

Somente quando Eça contava 41 anos e ia casar-se com Emília de Castro Pamplona, filha da condessa de Resende, foi que os pais consentiram em declarar que José Maria era seu filho legítimo.

O ressentimento pelo abandono materno está refletido em todos os romances de Eça. A figura da mãe leviana, que abandona o lar, é repetida pelo menos em Os Maias e em A Tragédia da Rua das Flores – é a sua conduta que, tanto em um como em outro livro, provoca o incesto. Em Os Maias entre irmãos (Carlos e Maria Eduarda), que não se conhecem por terem sido criados separados, e na Tragédia entre mãe e filho (Genoveva e Victor) – abandonando-o recém-nascido, ao voltar a Lisboa após 23 anos a sedutora mãe, sem o saber, acaba envolvendo-se com o filho.

À figura da mulher, vista quase sempre com temor e desconfiança, Eça, apesar de seu pretenso "realismo", opunha a mais romântica visão da "mulher virtuosa", que vivia para o lar: "Prática, positiva, doméstica, hostil à fantasia, tem uma alta idéia da sua missão... julga-se e tem o orgulho de Previdência e reina verdadeiramente", como diz em um artigo de 1872.

Estudante medíocre

Quando Ana Leal morreu, o menino, que então contava de 6 para 7 anos, foi entregue diretamente aos avós paternos, para que continuassem sua criação. Aos 11 anos sofre também a perda da avó, dona Teodora. É então internado no Colégio da Lapa, no Porto, cidade onde residiam seus pais. Estes já tinham tido mais quatro filhos, mas o primogênito bastardo continuou a ser discriminado, sem nunca poder se integrar muito bem à estrutura familiar.

Para compensar, seu tempo no colégio foi feliz e sua inteligência logo reconhecida e alimentada – o filho do diretor era Ramalho Ortigão, mais velho nove anos do que Eça, e tornou-se seu grande amigo e guia intelectual. Uma amizade e parceria que se prorrogariam por toda a vida. Ensinou-lhe francês e fez com que lesse os escritores da época, principalmente os românticos Almeida Garrett (que teria muita importância em sua formação) e Alexandre Herculano, autor de grandes romances históricos. Mais tarde ambos escreveriam juntos uma série de virulentos artigos, englobados sob o título de As Farpas, e uma reportagem fictícia e romanceada, O Mistério da Estrada de Sintra. Juntos criariam também um personagem famoso, Carlos Fradique Mendes, a quem dotariam de biografia fictícia e de extensíssima correspondência.

Aos 16 anos Eça foi cursar leis na Universidade de Coimbra, onde permaneceu seis anos (de 1861 a 1866). Pode-se compreender como a vida livre da qual enfim o jovem pôde gozar embriagou-o. Cidade voltada para a famosa universidade, uma das mais antigas e conceituadas da Europa, Coimbra oferecia tudo para seus estudantes – do alimento intelectual à vida boêmia. Foi esta que mais o seduziu, pois os estudos de direito sempre o entediaram profundamente. João Gaspar Simões, autor do estudo introdutório à Obra Completa de Eça de Queirós (Editora Aguilar), define-o como estudante medíocre, "vagabundo das ruas luarentas da velha Coimbra", pouco amigo de freqüentar os círculos intelectuais. Revelava o jovem, entretanto, grande interesse pelo teatro. Estimulado pelo amigo Carlos Meyer, tornou-se ator no Teatro Acadêmico, o qual, por coincidência, seu próprio pai ajudara a fundar, quando estudante, e onde também atuara. Esse seu interesse por "entrar nos personagens" foi aos poucos sendo canalizado para a literatura – não é outra coisa que os romancistas em geral fazem. E a estrutura dramática que conseguiu conservar na criação de seus romances é responsável por seu êxito, permitindo que até hoje eles possam ser lidos com agrado.

Ainda em Coimbra Eça conheceu, embora superficialmente, os poetas Antero de Quental e Teófilo Braga, que já manifestavam de maneira articulada o desejo de renovar a literatura portuguesa, investindo contra os românticos e os classicistas do tipo de Antônio Feliciano de Castilho. A Questão Coimbrã marcou época, animando o debate intitulado "Bom Senso e Bom Gosto" em que os jovens intelectuais, mais tarde agrupados sob o rótulo "geração 70", procuravam inserir no provincianismo do Portugal monárquico e ultramontano o espírito de renovação do "pensamento novo", que vinha principalmente da França.

Embora Eça declarasse mais tarde que a essa polêmica assistira de longe, à semelhança de algum entregador de pães que tivesse presenciado, também de longe, a tomada da Bastilha e depois seguisse seu caminho assobiando, é evidente que teve muita influência sobre ele esse clima coimbrense, agitado pelos vários ismos – positivismo, agnosticismo, anticlericalismo, darwinismo, socialismo – que iam lançando no "jardim d’Europa à beira-mar plantado" raízes fundas de árvores perenes. As da modernidade.

Ecos românticos

O ano de 1866 marcou tanto a formatura de Eça em direito como sua estréia literária. Publicou na Gazeta de Portugal em março daquele ano um poema em prosa em que os temas do amor e da morte se entrelaçavam, muito no estilo do poeta romântico alemão Heinrich Heine. Em julho Eça dizia adeus a Coimbra e instalava-se na casa paterna, na capital. O pai e o avô queriam que desse continuidade à tradição familiar, na advocacia ou na magistratura. Eça tentou contentá-los, mas fracassou. Estava fascinado pelo jornalismo, que nunca abandonaria, e começava a publicar também suas primeiras obras de ficção, em folhetins. O ensaísta José Maria Bello chama a atenção para o caráter bem jornalístico de seus romances: "Toda a sua obra madura seria o desdobrar de sua atividade jornalística", pois levou para ela a temática do cotidiano da sociedade, o estilo direto, objetivo, criando seus imortais personagens de carne e osso.

Para aproveitar o talento do filho e ao mesmo tempo dar-lhe oportunidade para seguir uma carreira, José Maria pai tentou ainda encaminhá-lo para o campo político. Conseguiu que fosse dirigir em Évora um jornal que um grupo hostil ao governo acabara de fundar, O Distrito de Évora. Eça desincumbiu-se bem da missão, mas o tédio provinciano pesava-lhe demais. Não conseguiu ficar mais do que oito meses fora de Lisboa. Quatro anos mais tarde, entretanto, convencido de que nem o jornalismo nem a literatura supririam jamais suas necessidades financeiras, faria concurso para a carreira consular, que lhe daria pelo menos estabilidade, já que durante a vida toda continuou a lutar com problemas de dinheiro. Exerceu suas funções consulares nas Antilhas e na Inglaterra e, quando faleceu, vítima de tuberculose, era cônsul em Paris.

Retornando à capital, após o período passado em Évora, o jovem retomou imediatamente a vida que tanto lhe aprazia e a parceria intelectual com seus amigos, como Ramalho Ortigão, Antero de Quental, que regressara da França e vinha cheio de idéias novas, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis e vários outros. Em um cômodo alugado na Travessa do Guarda-Mor – por eles denominado de Cenáculo Patriótico – para desespero dos vizinhos reuniam-se para declamar versos de Victor Hugo e Baudelaire em tertúlias literárias que varavam a noite e geralmente iam terminar ruidosamente em alguma taberna ou bordel, entre grandes comes e bebes. Perpassa em toda a obra eciana a sensualidade da gula exaltada, o louvor dos quitutes refinados, o aguçamento de todos os sentidos.

Diz João Gaspar Simões: "Nessa atmosfera crepitante, onde se caldeia um romantismo ardente com um aguerrido positivismo, constitui-se, pouco a pouco, um núcleo intelectual como outro ainda não fora visto entre nós". Influenciados pelo socialismo, que logo depois ganharia forças com o episódio sangrento da Comuna de Paris (1871), nesse final dos anos 60 a maioria desses jovens passava dos debates intelectuais à ação política. Discursavam em reuniões operárias em que se falava da Internacional Socialista, distribuíam panfletos e anunciavam a revolução como "prestes a arrebentar, para a semana".

Apesar de muito jovem, Eça de repente mostrou grande consciência da necessidade das mudanças sociais. Certamente sua infância sofrida e a criação entre os mais pobres na aldeia afinaram-lhe a percepção, dotando-o do espírito agudo de observação e descrição que exerceu plenamente. E assim, traçando um plano de trabalho, procurou moldar seu estilo segundo o caminho dos escritores franceses que mais admirava: Flaubert, Balzac (que o antecediam de uma geração) e Zola, seu contemporâneo.

Na trilha do realismo

O momento exato dessa tomada de atitude é 1871, quando Eça pronuncia no Cassino Lisbonense uma histórica conferência, "O Realismo como Nova Expressão da Arte", patenteando suas intenções: "Que queremos nós com o realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado: queremos fazer a fotografia, para dizer a caricatura, do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, e apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático, preparar a sua ruína".

Nos 30 anos seguintes Eça estaria entregue à feitura regular de seus romances de crítica social, sem deixar de escrever artigos, crônicas e contos, participar de polêmicas ou corresponder-se longamente com os amigos. Após o grande sucesso obtido com O Crime do Padre Amaro e com O Primo Basílio, pretendia criar, à semelhança do que fazia Émile Zola com sua série dos Rougon-Macquart, um conjunto seqüencial de romances intitulado Cenas da Vida Real (ou Cenas Portuguesas, ou Cenas da Vida Portuguesa). Alguns livros menores, como A Capital, O Conde de Abranhos, Alves & Cia. e A Tragédia da Rua das Flores foram escritos com essa intenção, mas permaneceram inéditos até muito depois de sua morte. E o grande projeto foi abandonado quando o escritor dedicou-se completamente à obra Os Maias, considerada sua obra-prima e publicada em 1888.

Na última década de sua vida, tanto sua situação de homem bem-casado e pai como a atuação no meio diplomático e o convívio da alta sociedade abrandam a virulência de sua crítica, "reconciliam" o antigo rebelde com a pátria, de cujas paisagens e gente sente nostalgia. Seu estilo, por volta dos 50 anos, perde em agressividade mas ganha em clareza, e Eça produz duas obras maiores – A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras – que serão publicadas somente após sua morte, em 1900 e em 1901.

Vários de seus críticos lamentam, tomando como fraqueza, essa sua atitude. Outros, pelo contrário, vêem nessa mudança um sinal de maturidade. Pelo menos maturidade estilística era, sem dúvida. Se não houvesse morrido aos 55 anos, justamente quando começava a escrever dessa outra maneira, Eça teria certamente descoberto novos e estimulantes caminhos para a literatura de seu tempo.

A mudança natural que, em cada geração, "transforma em bombeiros de hoje os incendiários de ontem" pode no caso de Eça de Queirós ser detectada comparando-se o grupo dos exaltados do Cenáculo de 1870 ao aristocrático, hedonista e bem-pensante Vencidos da Vida, fundado por ele e pelos amigos por volta de 1888, cujos grandes feitos não passaram de alguns poucos e fartíssimos banquetes em hotéis de luxo, em Lisboa e em Paris...

Do imenso espólio literário que deixou, vêm sendo até hoje pescados originais deixados terminados ou para terminar, que estão ainda vindo à luz. Em 1925 seu filho organizou uma grande edição desses manuscritos. Mas um primoroso romance como A Tragédia da Rua das Flores somente seria publicado quase um século após a morte do romancista, em 1983.




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Jantar cor-de-rosa



Grande observador e crítico severo, Eça de Queirós descrevia, com estilo primoroso, situações vividas ou imaginadas. Veja alguns trechos de suas obras:

Fartura

"O arroz, maciço, moldado em forma de pirâmide do Egito, emergia duma calda de cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma coroa de conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada!"

"...e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os champanhas, e até (por uma invenção da alta cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor da rosa, enquanto do teto, dum velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas..."

"Não só na vida íntima, mas na vida pública das nações, o jantar constitui a melhor e a mais solene cerimônia que os homens acharam para consagrar todos os seus grandes atos, imprimir-lhes um caráter de união e de comunhão social."

"O sacrifício da rês sobre a ara era uma espécie de merenda espiritual, em que o Deus, atraído pelo cheiro da carne assada, descia e se tornava acessível ao crente, partilhando com ele das vitualhas santas."

Miséria

"...E pareciam-lhe atrozes aquelas carruagens forradas de cetim, quando ela chapinhava na lama com o último par de botinas; e tantas frutas ricas nas lojas dos comestíveis, tantos pratos nos restaurantes, quando ela comera um pão e uma salsicha."

"Uma mulher macilenta, em farrapos, com uma criança doente, veio-lhe pedir esmola e olhava com dor para dentro, para os doces, os fiambres avermelhados, os potes de geléias, e para um senhor, que dava pastéis a um pequeno gordalhufo vestido de escocês, que lambia a nata, farto, sem vontade."

"Mas será justo ... que se tire um pedaço do pão do pobre para dar mais uma farda a um embaixador? Que se onerem os gêneros de consumo, a carne, o sal, o azeite, o arroz, o pão, para que no mundo oficial haja mais aparatos reluzentes e mais transformações feéricas?"
Cem anos após a morte, Eça de Queirós é mais atual do que nunca
CECÍLIA PRADA


Pampilhosa da Serra


" O Rei D. Dinis, no ano de 1308, fez esta terra vila.. Elrei D. João I a confirmou. Elrei D. Manuel a setenciou por vila muito antiga contra a vila da Covilhã, em a demanda que tiveram no ano de 1500. Feita no ano de 1711."

Selada das Eiras

Cadernos do Profeta
Encontro-me num lugar mítico para muitos que na década de 90 por ali andaram noite e dia mergulhados no frio gélido da serra do Açor.
Encontro-me na Selada das Eiras, encruzilhada de estradas, cruzamento de sonhos perdidos, largo de sabor a carros que soltavam rotações para a meta lá longe no Estoril...
Lá ao fundo a povoação do Salgueiro e a Quinta do Mosteiro mais para lá de uma curva nas cercanias da serra.
Torrozelas terra do senhor Professor Tadeu, de boa memória em Janeiro de Cima.
Aqui o silêncio é demolidor.
A Casa de Xisto do Guarda marca a rude aventura de se andar na serra ao sabor do frio gélido deste Inverno.
O Açor lá longe desafia o espaço infinito rasgando ainda mais a distância que nos separa.
Viro para a direita em direcção ao Piódão.
Do meu lado esquerdo, Porto Castanheiro.
Numa curva, recordo-me dos carros a passar no tempo de César Torres.
Agora um largo enorme. A famosa casa do PPD.
Milhares de pessoas passaram por aqui.
Que raio de nome para uma casa.
Os lugares míticos são muitos por estas bandas.

Ceiroquinho

Cadernos do Profeta
A janela aberta prolonga o teu limite, viaja pelos mapas, exalta a tua paixão.
Nos limites da serra a geometria, traça as linhas, as tuas linhas imaginárias.
A vertigem, nada mais.
O universo inteiro na bruma contra o céu azul.
Na intimidade do xisto, Ceiroquinho.
A realidade deste momento encoberto pela grande descoberta, pela grande montanha.
Artes espirituais de grandes divisões no encerramento do condenado da pedra sagrada.
Aroma agressivo dos imperadores que passaram pelos caminhos da serra do Açor.
Na casa de xisto
No interior do céu agreste
o teu horizonte de ideias
crepúsculo de pingos metálicos
sombra da tua sombra
Tenho um brinquedo de ferro
e gostava de jogar contigo
olhas o reflexo da água e da luz
apagas o conjunto construído
acabas por adormecer no infinito
Da janela uma corda com roupa
escorrega e bate no teu quarto
perturbada sobes para mim
aqui está a tua imagem
no meio de tudo isto não gostarias
de jogar mais e ter-me como teu amigo?

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Ensine os seus filhos a utilizar o penico!

Acossados

Conta a lenda que Diogo Lopes Pacheco, assassino de Inês de Castro escapou ao ódio de D. Pedro, escapando-se para Espanha. De regresso a Portugal, era no Piódão que se escondia.Também João Brandão, misto de herói e assassino, atacava na noite escura e guardava-se durante a luz do dia na casa do pároco do Piódão.

terça-feira, 11 de abril de 2006

a planta do girassol


GIRASSOL (Helianthus annus L.)
Dalmo Henrique de Campos Lasca

1 - INTRODUÇÃO
O girassol é uma fonte importante de óleo comestível. Sua produção mundial ultrapassa 20 milhões de toneladas anuais de grãos.
O óleo de girassol vem despertando, nos últimos anos, o interesse de muitos consumidores pelo recente conhecimento científico de que ele reduz o nível do colesterol que traz risco à saúde humana, quando em excesso nos vasos sanguíneos.
Originária da América do Norte a planta do girassol se desenvolve e produz bem na maior parte do Estado de São Paulo.
As regiões muito úmidas do leste e do Sul do estado são inaptas para o seu cultivo. A incidência de doenças por excesso de umidade limita a produção nessas regiões.
A cultura do girassol tem boa resistência à seca e ao frio, podendo ser usada com vantagem como segunda cultura. Outra vantagem, é a sua total mecanização.
O rendimento de grãos na lavoura de girassol pode atingir e ultrapassar 2500 kg/ha, com a tecnologia nacional atualmente disponível. Em áreas experimentais há registro de rendimentos superiores a 3000 kg/ha.
2 - CLIMA E SOLO
A cultura do girassol é pouco exigente em calor, desenvolvendo-se em ampla faixa de temperatura. Como outras culturas, é sensível à geada, que danifica sua folhagem e provoca chochamento de grãos quando ocorre na época do florescimento. Há, entretanto, materiais resistentes à geada, que não sofrem a queima de folhas nem o chochamento de grãos.
Temperaturas elevadas na fase de formação e maturação das sementes podem acarretar redução no seu teor de óleo.
O desenvolvimento e a produção de girassol requer bom suprimento de água no solo no período que vai da germinação das sementes ao início do florescimento. Após a formação dos grãos a cultura é favorecida por período seco.
Os solos mais indicados para a produção de girassol são os de textura média, profundos, com boa drenagem, razoável fertilidade e pH de moderadamente ácido a neutro; superior a 5,2 (determinação em CaCl2) .Solos leves ou pesados podem também ser usados se não houver impedimento para o desenvolvimento do sistema radicular. Solos com acidez elevada ou acentuada pobreza química não devem ser usados para o cultivo do o girassol sem a correção dessas deficiências.
3 - CULTIVARES
Dois cultivares de girassol obtidos no Instituto Agronômico (IAC) são recomendados para plantio no Estado de São Paulo; o IAC-Anhandy e o IAC-Uruguai. O primeiro é recomendado para a produção de óleo e o segundo para a alimentação de pássaros.
Além desses cultivares, diversos híbridos, de empresas privadas são também recomendados.
O boletim "O Agronômico " - V 34, 1982, traz as seguintes características do cultivar Anhandy:
"A altura média das plantas no plantio das águas é 182 cm e no plantio da seca é 150 cm. O diâmetro dos capítulos no plantio das águas é 18,0 cm e no plantio da seca 14,8 cm. Polinização cruzada e flores amarelas. Ciclo de 90 a115 dias. A produtividade é 800 a 2400 kg/ha, dependendo principalmente, da época do plantio. As sementes são oblongas, com 11,43 mm de comprimento por 6,09 mm de largura e 3,94 mm de espessura. Testa preta, rajada de cinza. O peso médio de cem sementes é 6,11 g e o teor de óleo 45%. É resistente a geadas e ao tombamento e tolerante à ferrugem (Puccinia helianthi ) e à alternaria (A. zinniae, A. helianthi e A. alternata).
4 - PREPARO DO SOLO
Para o plantio do girassol, o terreno é preparado com aração profunda (25 a 30 cm) e gradeações. Essas operações são efetuadas após a limpeza do terreno, quando ela é necessária. A ultima gradeação realizada pouco antes do plantio contribui para o controle das ervas daninhas. Após a última gradeação o terreno deverá estar livre de ervas, de torrões e com a sua superfície uniforme.
5 - CALAGEM
Nos solos ácidos, que requerem calagem, a quantidade de calcário recomendada com base na análise de terra deve ser usada. Essa quantidade é calculada para elevar o índice de saturação por bases para 70%.
O calcário comum é aplicado sessenta dias, no mínimo, antes do plantio e o calcário semicalcinado com a antecedência de um mês.
O calcário pode ser incorporado ao solo com grade comum antes da aração e posteriormente incorporado mais profundamente com a aração. Pode também ser aplicado em duas vezes; metade da dose antes da aração e a outra metade após a aração . A forma mais comum de fazer a calagem tem sido a aplicação do calcário de uma só vez após a aração e antes das gradeações. Nessa forma de aplicação, o calcário fica pouco distribuído no perfil do solo.
6 - ADUBAÇÃO
Produção elevadas de girassol geralmente dependem da adubação química, que deve ser usada de acordo com a recomendação estabelecida mediante análise de terra.
Na adubação química, são aplicados no plantio 10 kg de N por hectare e o total das doses de fósforo e de potássio. O restante do nitrogênio é aplicado em cobertura trinta dias após a emergência das plantas.
Na falta da análise de terra, podem ser usados no plantio 200 kg por hectare da fórmula 5-25-25 ou a quantidade de qualquer outra fórmula que forneça doses correspondentes de N, P2O5 e K2O. Em cobertura poderão ser aplicados 20 kg/ha de N.
Quando a acidez do solo é corrigida pela calagem, é necessário misturar ao adubo aplicado em cobertura oito quilos de ácido bórico por hectare, e antecipar a adubação em cobertura de 30 dias para 20 dias após a emergência das plantas.
7 - PLANTIO
O plantio do girassol em São Paulo abrange o período de setembro a março, destacando -se duas épocas: a da primavera, a partir de meados de setembro, e a de verão, com início em fins de dezembro. A época mais favorável para o plantio situa-se entre fins de dezembro e meados de fevereiro.
O espaçamento de plantio de girassol pode variar de 60 a 90 cm entre linhas e de 30 a 40 cm entre as sementes na linha. Para materiais de porte médio, o espaçamento de 70 cm entre linhas apresenta bons resultados. O espaçamento de 80 cm.tem sido empregado para a mecanização da colheita com colhedeiras de milho adaptadas.
A profundidade de plantio recomendada é de 3 a 5 cm,.estabelecida a profundidade ela deve ser mantida constante em toda a operação de plantio para evitar falhas na linha.
A semeadura é realizada quando o solo esta com bom teor de umidade.
As sementes de girassol têm forma oblonga, sendo por isso difícil sua distribuição uniforme com os dosadores de sementes das semeadoras usadas em outras culturas. É, portanto, necessário usar dispositivos distribuidores de sementes específicos para o girassol para manter sua semeadura uniforme obter uniformidade na semeadura é de particular importância porque há acentuada concorrência entre as plantas do girassol quando há excessos de plantas na linha.
8 - TRATOS CULTURAIS
O controle de ervas na cultura do girassol pode ser mecânico ou químico. Geralmente o controle mecânico é suficiente para manter a lavoura livre de ervas.
Os cultivos realizados com cultivador,e complementados com enxada, quando necessário, devem ser realizados com as ervas ainda pequenas.
No controle químico podem ser usados herbicidas à base de Trifluralina e Alachlor.
9 - PRAGAS E CONTROLE
A praga que tem atacado a cultura de girassol com mais freqüência e mais intensidade e a lagarta preta das folhas, de nome específico Chlosyne lacinia saundersii. O besouro Ciclocephala melanocephala, de ocorrência bastante rara, danificam os capítulos provocando prejuízos consideráveis à produção. Outras pragas, como vaquinhas, cigarrinhas, besouros e outras lagartas são encontradas na cultura do girassol, porém os danos que causam não tem expressão econômica.
Para o controle da lagarta preta das folhas e do besouro dos capítulos são recomendados produtos à base de Triclorfom e Cartap.
10 - DOENÇAS E CONTROLE
A principal doença da lavoura de girassol em São Paulo é a Mancha de Alternária, doença fúngica que caracteriza-se por pequenas pontuações necróticos de coloração castanha a negra, de forma arredondada ou angular, com cerca de 3 a 5mm de extensão, e talo de cor amarela em torno da lesão.
A ferrugem, outra doença fúngica cujo agente causal é o fungo Puccinia helianthi já causou sérios prejuízos à produção paulista. Os materiais atualmente utilizados têm apresentado tolerância à ferrugem, deixando essa doença de ser um risco para a produção.
Nos plantios tardios (abril), realizados em regiões úmidas e frias, ocorre a podridão de Sclerotínia, que se caracteriza por uma camada de micélio branco sobre o caule das plantas, escleródios no seu interior e podridão nos capítulos. O agente causal dessa doença é o fungo Selerotína Sclerotiorum.
Não há produtos químicos registrados no Ministério da Agricultura para o controle de doenças do girassol. As medidas de controle são culturais, destacando-se a rotação de culturas e o emprego de sementes sadias.
11 - COLHEITA
A colheita pode ser totalmente mecanizada ou semi-mecanizada. Ela é realizada 100 a 130 dias após a emergência das plantas, quando o capitulo está com coloração castanha. O teor de umidade dos grãos para o armazenamento é de 11%, podendo o girassol ser colhido com 14% de umidade para posterior redução da umidade a 11%.
A mecanização total da colheita é obtida com a adaptação de plataformas em colhedoras automotrizes de cereais. Essas adaptações tem sido feitas em colhedoras de milho.
A colheita semi-mecanizada é semelhante à de feijão. Os capítulos são colhidos e amontoados junto à batedeira estacionária para a operação de trilha.
12 - BENEFICIO E ARMAZENAMENTO
Após a trilha, o girassol contém muita impureza e precisa passar por processo de limpeza (ventilação) para redução do seu teor de impureza a 4%, ou ao teor requerido pelo comprador.
A limpeza dos grãos é operação indispensável para a obtenção de boa qualidade do óleo e da torta.
13 - COMERCIALIZAÇÃO
O girassol é destinado à alimentação de pássaros ou às industria de óleo, dependendo do tipo de material usado no plantio.
Para a alimentação de pássaros sua cotação tem oscilado em torno de 500 dólares por tonelada. O mercado para o consumo por pássaros é restrito. O girassol destinado às industrias de óleo tem cotação em torno de 200 dólares por tonelada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, A.M.R.; MACHADO,C.C & PANIZZI, M.C.C. - Doenças do girassol: descrição de sintomas e metodologia para levantamento. Londrina, EMBRAPA-CNP de Soja, 1981. 24p. (Circular Técnica 6).
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA - Centro Nacional de Pesquisa de Soja - Indicações técnicas para o cultivo do girassol. Londrina, 1983, 40 p. (Documentos, 3).
GIRASSOL "IAC ANHANDY". O Agronômico, Campinas, IAC, 34 (tomo único): 13, 1982 (separata).
LA CULTURE DU TOURNESOL. Paris, CETION, 1981. 16p.
MORAES, S.A.; UNGARO, M.R.G. & MENDES, B.M.J. "Alternaria helianti"agente causal de doença em girassol. Campinas, Fundação Cargill, 1983, 20 p.
ROSSI, R.O. O girassol. São Miguel do Oeste (SC), Rogobrás Sementes, 1991, 59 p.
SEMENTES CONTIBRASIL. Girassol: manual do produtor. São Paulo, 1981, 30 p.
UNGARO, M.R.G. - Instruções para a cultura do girassol. Campinas, IAC, 1986, 26 p. (Boletim Técnico 105)

MANUAL DE CULTURAS CATI

a força do vento

...de As Pontes, al lado del ayuntamiento la carretera que sigue (antiguo Camiño de Arrieiros) se dirige a Ortigueira (AC 101). El ascenso se hace rápido a lo largo de 8 Km. de buena carretera, para dejar atrás el paisaje industrial y sumirse en unos montes pelados del alto cauce del Eume (a la derecha). Una enorme bola blanca a la izquierda, es la referencia del pico (radar aviación). Al poco de llanear aparece el indicador a la derecha que lleva directo a las antenas de O Caxado.

O Cruzeiro

"Subíamos descansadamente o valle: era à tarde. O sol havia-se escondido por entre umas nuvens densas; e no ar pairava uma tristeza indiscriptível. As aves, saltitando de ramo em ramo, apenas faziam, ouvir a espaços, dolentes e lugubres pios, como se chorassem a morte d´algum ente querido. Em baixo, ao fundo, a ribeira engrossada pelas chuvas dos dias antecedentes, despenhava-se raivosa e espumante por entre fraguedos intermináveis, como que pretendendo fugir aquelles bosques de trágicas recordações, para ir abraçar num amplexo de carinho, o Alva, que mansamente beijava os pés à pátria do cantor de Viriato. Ao longe descortinavam-se atravez d´umas nuvens esfarrapadas, as ondulações esbranquiçadas dos Hermínios, cuja alvura se afigurava, ao meu taciturno espírito, um enorme lençol amortalhando um gigante. Como tudo era triste! A própria natureza vestia-se naquelle dia de crepes., talvez para commemorar o aniversário d´alguma das horripilantes tragédias a que o solo da Beira tem servido de theatro. Enquanto subíamos, vergados sob o peso da melancolia provocada por tão grande tristeza, um dos meus companheiros de passeio narrava-me uma série ilimitada d´acontecimentos, tristes como o aspecto d´aquelle dia, e horríveis como o hirsuto cume do Caramulo, que lá ao longe erguia para os céos os seus penhascos lamilliformes e frios, semelhando as espadas nuas d´um esquadrão infernal...- "Finalmente, me disse elle, vamos chegar ao logar onde até hoje, se praticou o mais deshumano e tetrico de todos esses crimes".- " Alguma mãe indefesa, morta na presença dos filhos que abraçados aos andrajos da desgraçada suplicavam, banhados em lágrimas, aos scelerados algozes que concedessem a vida aquella que os acompanhava, interroguei eu; ou algum mendigo que atravessando, alta noite, estes solitários caminhos, sem guarida, só, por serras inhospitas, fosse surprehendido pelo bacamarte traiçoeiro do salteador?! "Não. Mais do que isso, me disse secamente o meu cicerone, cahindo numa abstracção profunda, numa angústia indiscriptível, como se lhe pezasse sobre o seu bom coração uma mole immensa. Respeitei com profundo silêncio a dôr do meu amigo, um dos poucos que, num solo banhado pelo sangue d´innocentes victimas, ainda se condoiam das desventuras alheias.Por fim o meu companheiro interrompeu o religioso silêncio que havíamos guardado, fazendo-me parar, e dizendo:- "Foi acolá, sobre o tronco nodoso e carcomido d´aquelle secular castanheiro..."A voz embargou-se-lhe na garganta e não poude continuar tão trágica narração. Ficou por momentos naquella posição, que tinha qualquer coisa de terrível. Com os olhos coruscantes, o braço estendido num movimento de repulsão, parecia lançar sobre a humanidade, que impavida e serena tinha assistido a tão grande crime, um anathema horrível e eterno.- "Foi acolá, continuou elle, que uma horda de vis e cobardes assassinos crivaram com dezenas de balas o corpo d'um desgraçado a quem haviam dado caça. Mataram-n´o na aldeia a que um immortal escriptor chamou de SANTA CECÍLIA e de lá o conduziram para aqui, afim de lhe fazerem solemnes exequias. Como um alvo, foi collocado sobre o tronco do fatal castanheiro o corpo massacrado e frio d´aquelle infeliz, e à porfia - como é triste contal-o - começaram d´alvejar aquelle pedaço disforme de carne humana., As balas partiam velozes e certeiras das largas bocas dos bacamartes, e o estampido sonoro cohoava pelas quebradas dos valles d´um modo solemne e lugubre, como que tendo qualquer coisa de...divino. Parecia que a própria natureza se revoltava contra tamanho attentado!!!..."Algumas horas depois as aves aterradas sahiam cautelosamente dos seus reconditos esconderijos, e o valle ficava deserto. Pendendo do tronco do velho e enorme castanheiro, os membros desconjunctados e o corpo crivado de balas, ficava a triste victima de tão cruéis algozes. Nesse mesmo dia alguns aldeões caridosos lhe deram sepultura; e ali em baixo, em Pomares, existe um pobre velho, que ao chegar junto do corpo para o sepultar, ainda lhe tirou, com uma curta estaca, uma bala que estava à flôr do corpo. Mais tarde, dizem que alguem vinha abraçar-se ao tronco do velho castanheiro e que, como o noivo que permanece horas abraçado ao cadaver d´aquella que ia fazer a sua felicidade, ali ficava horas esquecidas, mergulhado em ternas recordações. Como é triste! Como é vergonhoso serem beirões os auctores de tão deshumana tragédia!!!Triste e pensativo, fiquei como que interrogando o regato, que entaçava os calhaus amarellos e polidos nun abraço de namorado, acerca da verdade de toda esta triste história. Respondeu-me a monotonia e frieza do cruzeiro, que a dois passos se erguia. Sem as lellezas que o cinzel do artista imprime, elle ali estava, só, triste, attestando o passado. Era formado por duas toscas pedras de granito, já musgosas, mas em pé, como que de mãos levantadas, pedindo à Providência um balsamo para a alma d´aquelle infeliz."
J. Cardoso

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Toponímia

"O nome Anceriz encontra-se escrito nas seguintes formas gráficas: AUXARIS; ANSERIZ; ANSERIS; ANÇARIS; ANSERYS; ANCERIZ. O nome que parece ser mais correcto é Anseriz. Qual teria sido a sua origem ? Existem três hipóteses que tentam explicar esse nome. Uma, afirma que esta povoação já existia antes dos romanos, mas que foram eles que deram o nome de Anseriz devido à abundância de "Anseres" (patos, gansos) nestes montes do Açor. Outra versão é que esta povoação com as suas terras, foram dadas a um filho de um romano que se chamava "Anser" e por isso chamou-se Anserici. Anser-eris era o nome de um poeta latino e um nome usual entre os romanos. A terceira versão, que parece ser a mais correcta, é aquela que o Padre Augusto Nunes Pereira descreve: "Deve ser nome de pessoa, possivelmente o nome visigótico (séculos V - VI) Anserico, a origem da terra".Anseriz como freguesia é única em Portugal. Como povoação, encontram-se no País mais duas:- Anseriz, também Ançariz, que é lugar da paróquia de Escudeiros, concelho de Braga;- Anseriz, também Ançariz, lugar situado na freguesia de Mouquim, concelho de Vila Nova de Famalicão."
Manuel Fernandes

Anceriz

"Anceriz fica no meio de majestosas e imponentes serranias, antes repletas de pinhais e castanheiros e hoje nefastos eucaliptos, tendo ao Norte a antiga e histórica vila de Avô, ao sul Cerdeira e Vinhó, ao nascente Pomares e Corgas e ao poente Vila Cova do Alva. Esta freguesia está cercada de oliveiras, de campos fertéis, de vales verdejantes, recortados de ribeiros, que vão desaguar ao rio Alva, que passa a cerca de 3 Km.As pessoas de Anceriz têm como alcunha, "Os Gorgulhos", talvez pela grande produção de milho, feijão e outros cereais. Nas décadas de 50, 60 e 70 possuiu um grande viveiro, que exportou árvores para todo o país. O azeite foi sempre a sua grande riqueza assim como a resina."
Manuel Fernandes

Anceriz - " O Solar Beirão" na Serra do Açor

"A primeira referência histórica, de que temos conhecimento, é a doação do castelo de Coja à Sé de Coimbra, feita no mês de Novembro de 1122, nos seguintes termos:"... quomodo dividitur cum violo Avolo per illam aquam de Anceriz usque...". Em 1206, no Livro das Kalendas da Sé de Coimbra, aparece a seguinte frase: " per reditus quintane de Auxarix es in termino de Avoo..." Segundo o Cadastro da População do Reino, feito por ordem de Dom João III, no ano de 1527, "...os termos da vila de Avô, eram: Anceriz, Casal do Piodam, Casal do Chãos d´Égua, Sorgaçosa, Foz de Moura, Casarias e casal do Colquorinho...". Os moradores de Anceriz já nessa época eram de 255, mais do que hoje. O seu nome aparece igualmente na doação da vila de Avô a D. Urraca Afonso, em Janeiro de 1185. O historiador Padre Cardoso diz que " Anceriz é um lugar que fica na Província da Beira, bispado em Coimbra, arcediago de Seia, comarca da Guarda, termo da vila de Avô, que donde lhe pagam jugadas e foros, porém as justiças são postas por El-Rei. Fazem parte desta Freguesia os lugares seguintes: Santo Ildefonso, Carvalhas, Espinhal, Ribeira das Casas e Vale de Freixo."
Manuel Fernandes

A Ferradura

Há alguns anos, no “Boletim Municipal” do Fundão, lia-se sobre Janeiro de Cima:
“Inserida na zona do Pinhal e banhada pelo rio Zêzere, é uma pequena e bonita povoação de difícil acesso, cujo principal encanto reside na permanência de um cariz primitivo de grande interesse e na paisagem que proporciona a quem dela se aproxima.
Rodeada de cabeços nus e de alguns penhascos, torna-se difícil distinguir as serras propriamente ditas de entre uma grande profusão de colinas, lombas, barrancos, cabeços e valeiros, numa estranha sucessão de curvas suaves e graciosas, onde o rio e a montanha se unem”.

domingo, 9 de abril de 2006

Os novos bárbaros II

(...)"Paralelamente ao imenso, devastador e pavoroso currículo oficial ministrado pelos agentes educativos, irrompe subrepticiamente um outro "currículo oculto" que interpreta, altera, subverte, distorce os objectivos do primeiro de acordo com a focalização dos professores, muitos deles desprovidos de tecnologia adequada, sem capacidade de excentração ou transcendência em relação ao âmbito teórico, processos metodológicos e instrumentos do seu próprio trabalho: imersos inconscientemente nos condicionamentos que operam sobre a sua competência e performance, tornan-se ingenuamente a "carne para canhão" e ao mesmo tempo e paradoxalmente, os agentes secretos do sistema oculto - vítimas desprovidas e simultaneamente carrascos desprevenidos e desavisados.
Existem pois dois sistemas... Duas escolas... Dois tipo de objectivos... Dois tipos de currículos... Dois tipos de professores: os primeiros explícitos; os segundos ocultos. Os agentes educativos lúcidos vivem uma situação trágica e paradoxal porque não podem sobreviver moralmente sem acreditar na Educação, mas porque são lúcidos, também não podem acreditar neste Sistema Educativo.
A escola actual esquizofrenizou-se em isotopias horizontais e verticais irredutíveis..."(...)
Educação, uma doença crónica
António M. Correia / Terras da Beira

Os novos bárbaros

(...) "A acrescentar ao desalento dos docentes, as escolas estão a ser invadidas por uma horda de novos bárbaros desordeiros, egoístas, hedonistas, ambiciosos, perturbados, sem ideal nem projecto de vida que não seja o privilégio - são os alunos. Os professores demasiado molestados já por uma profissão desgastante, sem reforços, mortos pelas rotinas repetitivas, cristalizados pelas velhas tradições escolares, privados de prestígio pessoal e realização profissional, feridos de desalento, perdem todo o sentido da sua profissão."(...)
Educação, uma doença crónica
António M. Correia / Terras da Beira

Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor

(Decreto-Lei n.º 67/82 de 3 de Março)
A serra do Açor apresenta, no Município de Arganil, uma unidade de paisagem cujos valores naturais, culturais, científicos e recreativos justificam seja salvaguardada por estatuto legal adequado, como aliás tem vindo a ser defendido de há muito pelo Município de Arganil.
Incluída nesta área, encontra-se a mata da Margaraça, que ocupa uma encosta de exposição N.-N.W. entre 500 e 700 m de altitude.
Esta mata constitui uma das raras relíquias de vegetação natural das encostas xistosas do centro de Portugal.
A vegetação da referida mata faz parte da formação vegetal que, segundo Braun Blanquet Pinto da Silva e A. Roseira (1956), corresponde à subassociação Viburnetosum da associação denominada Rusco-Quercetum Roboris, a qual faz parte, por sua vez, da aliança Quercion occidentale do noroeste da Península Ibérica.
No aspecto botânico a Mata da Margaraça apresenta ainda elevado interesse porque:
Na sua flora existem espécies de grande interesse científico, como por exemplo: Eryngium duriaei Gay ex Boiss., Genista falcata Brot., Luzula sylvatica (Hudson) Gaudin subsp. henriquesii (Degen.) P. Silva, Crepis lampsanoides (Gouan) Tausch, Circaea lutetiana L., Sanicula europaea L., Veronica micrantha Hoffmanns. & Link.
Nela se encontram espécies de valor hortícola ornamental, tais como: Lilium martogon L., Narcissus triandrus L., var. Cernuus (Salisb.) Baker, Narcissus bulbocodium L., Linaria triornitophora (L.) Willd., Omphalodes nitida Hoffmans. & Link.
As espécies arbóreas muito abundantes, como o castanheiro-Castanea sativa Miller-e bem assim outras menos numerosas como Prunus lusitanica L., Prunus avium L., Prunus cerasus L., Arbutus unedo L., Corylus avellana L., poderão ser utilizadas no melhoramento das espécies cultivadas.
A unidade de paisagem atrás referida apresenta ainda um sítio que merece referência especial, a Fraga da Pena, que corresponde a um trecho da barroca de Degrainhos e que constitui uma raridade paisagística pelos valores naturais em presença, como sejam quedas de água resultantes de um acidente geológico característico e a vegetação natural que a margina, formando no seu conjunto um local de potencial valor recreativo e científico.
A Área de Paisagem Protegida disporá, nos termos legais, de órgãos de gestão adequados, nos quais será assegurada a participação das autarquias locais, dos serviços de ordenamento e ambiente e de outras entidades interessadas.
Nestes termos:
O Governo decreta, nos termos da alínea a) do n.° 1 do artigo 201.° da Constituição, o seguinte:
Artigo 1.°
É criada a Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor, adiante designada por Paisagem Protegida.
Artigo 2.°
A criação da Paisagem Protegida tem por objectivo a salvaguarda dos valores naturais, culturais, científicos e recreativos nela existentes.
Artigo 3.°
A Paisagem Protegida tem os seguintes limites:
1) Do desvio da estrada florestal na encosta das Eiras, pela linha de água nascente da ribeira da Mata da Margaraça, em direcção a jusante até à confluência da barroca de Degrainhos; desta confluência, segundo a inflexão da linha de água em linha recta na direcção E.-W., até ao carreteiro que, partindo da povoação de Benfeita, segue a linha de festo da Lomba do Bujo na direcção N.-S.; pelo referido carreteiro até ao caminho de pé posto que estabelece a ligação entre esse mesmo carreteiro e o ponto de confluência das linhas de água da barroca do Sardal e da barroca do Enxudro; desta última confluência, pela barroca do Enxudro em direcção sul, até ao marco geodésico (Picoto) cota 1012, e do marco geodésico, seguindo a estrada florestal em direcção este, até ao desvio da estrada florestal na encosta das Eiras;
2) Os limites da Paisagem Protegida, descritos no número anterior, vão demarcados na carta anexa ao presente diploma;
3) As dúvidas eventualmente suscitadas pela leitura do mapa anexo ao presente diploma serão resolvidas pela consulta dos limites cartografados a escala 1/25000 em carta arquivada para o efeito na Câmara Municipal de Arganil e no Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico.
Artigo 4.°
Dentro da Paisagem Protegida são criadas as seguintes zonas:
1) Reserva Natural Parcial da Mata da Margaraça, adiante designada por Reserva Natural, delimitada na carta anexa;
2) Reserva de Recreio da Fraga da Pena, adiante designada por Reserva de Recreio, assinalada na carta anexa.
Artigo 5.°
Dentro da Reserva Natural serão estabelecidas, através de diploma legal apropriado, as reservas integrais que estudos botânicos venham a reconhecer como necessárias.
Artigo 6.°
A Paisagem Protegida disporá de órgãos próprios, a definir em regulamento, de acordo com o disposto no Decreto n.° 4/78, de 11 de Janeiro, assegurando a devida representação autárquica.
Artigo 7.°
Para a realização do objectivo definido no artigo 2.°, para além de se manter a necessidade de obtenção de todas as autorizações definitivas e prévias já hoje exigidas, estabelecem-se mais os seguintes condicionalismos:
1) Dentro dos limites da Paisagem Protegida ficam sujeitos a parecer favorável do Ministério da Qualidade de Vida:
a) A destruição da vegetação natural, nomeadamente o derrube de árvores isoladamente e em maciço;
b) A execução de aterros, escavações ou outras alterações da configuração natural do terreno
c) A construção, reconstrução, ampliação ou demolição de qualquer edificação;
d) A modificação do sistema de exploração do solo actualmente existente;
e) A abertura de estradas ou qualquer outro caminho;
f) A passagem de linhas eléctricas, telefónicas condutas de águas e esgotos;
g) A captação e desvio de águas;
h) A instalação de locais de campismo ou acampamento com carácter temporário ou permanente;
i) O depósito de materiais;
j) A abertura de poços ou depósitos de lixo;
1) A introdução de animais não domésticos e espécies vegetais não indígenas;
m) A captura ou caça de qualquer animal selvagem, salvo nos termos fixados por regulamento;2) Deverá ser sempre também ouvida a Direcção-Geral do Ordenamento e Gestão Florestal, em relação ao abate de árvores isoladamente ou em maciço;
3) Não carecem da autorização a que se refere o n.° 1) quaisquer trabalhos que digam respeito ao exercício das actividades agrícolas, de acordo com os sistemas e área de exploração existentes.
Artigo 8.°
1-A infracção ao disposto no n.° 1) do artigo 7.° do presente diploma legal constitui contra-ordenação punida com uma coima até ao montante de 1000 000$, em termos a fixar por regulamento.
2-A aplicação da coima prevista no número anterior não exonera o infractor da obrigação de demolir as obras ou trabalhos efectuados e de repor as coisas na situação anterior à infracção, sem que por esse facto tenha direito a qualquer indemnização.
3-Compete ao Ministério da Qualidade de Vida o processamento da contra-ordenação.
4-A decisão que aplique uma coima ou determine o arquivamento do processo compete ao Ministro de Estado e da Qualidade de Vida.
Artigo 9.°
O plano de ordenamento da Paisagem Protegida constará de regulamento, que definirá os termos em que poderão ser concedidas as autorizações previstas no artigo 7.º
Artigo 10.°
Após a aprovação do plano do ordenamento a que se refere o artigo anterior, não carecem das autorizações a que se refere o artigo 7.° das obras nas povoações incluídas na Paisagem Protegida.
Artigo 11.°
Os regulamentos necessários à execução do presente diploma serão aprovados por decreto regulamentar, assinado, além do Primeiro-Ministro, pelos Ministros de Estado e da Qualidade de Vida e das Finanças e do Plano e pelo Ministro da Reforma Administrativa.
Artigo 12.°
As dúvidas suscitadas na aplicação deste diploma serão resolvidas por despacho do Ministro de Estado e da Qualidade de Vida.
Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 28 de Janeiro de 1982.
O Vice-Primeiro-Ministro, Diogo Pinto de Freitas do Amaral.
Promulgado em 15 de Fevereiro de 1982.
Publique-se.
O Presidente da República, ANTÓNIO RAMALHO EANES.

sábado, 8 de abril de 2006

Leituras

Poesia de Marcello Mathias.
Artes Plásticas, Notas para um dicionário dos pintores arganilenses, Carlos da Capela, 1.ª Parte.
...Questões que não pretendemos resolver, porque isso será obra nascente da diversidade de reflexões, que desenhará concerteza este imenso caleidoscópio que é o povo desta Beira, que se revê, ainda, nas rugas xistosas e ásperas da Serra do Açor, reza e canta de barba e fato de ver-a-Deus na Feira do Mont´Alto.

Revista Cultural Arganília N.º 1, pp 85-98

Janeiro de Cima

Freguesia situada junto ao rio Zêzere, Janeiro de Cima dista 45 quilómetros da sede do concelho. Está localizada num dos extremos do município e confina com o concelho de Pampilhosa da Serra. Ocupa uma área de 11,92 quilómetros quadrados.
Há alguns anos, no “Boletim Municipal” do Fundão, lia-se sobre Janeiro de Cima: “Inserida na zona do Pinhal e banhada pelo rio Zêzere, é uma pequena e bonita povoação de difícil acesso, cujo principal encanto reside na permanência de um cariz primitivo de grande interesse e na paisagem que proporciona a quem dela se aproxima. Rodeada de cabeços nus e de alguns penhascos, torna-se difícil distinguir as serras propriamente ditas de entre uma grande profusão de colinas, lombas, barrancos, cabeços e valeiros, numa estranha sucessão de curvas suaves e graciosas, onde o rio e a montanha se unem”.
União foi o que existiu durante séculos entre Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo, freguesia pertencente ao vizinho concelho de Pampilhosa da Serra. Estas duas freguesias andaram ligadas durante muito tempo e ambas fizeram parte integrante do mesmo concelho até aos meados do século XIX. A mais antiga é Janeiro de Baixo, que já existia ao tempo do arrolamento paroquial de 1320, aparecendo a sua igreja taxada em 80 libras. Esta freguesia viria a tornar-se um importante centro religioso de uma extensa área de aquém e além Zêzere, do qual por desagregações sucessivas se constituíram as freguesias de Janeiro de Cima, Bogas de Baixo e Orvalho.
Janeiro de Cima foi um curato anexo à vigairaria de Janeiro de Baixo e da apresentação do vigário. O cura, como o próprio escrevia nas “Memórias Paroquiais” de 1758, tinha “de renda todos os anos vinte e sete alqueires de pão, metade centeio e metade trigo, quinze almudes de vinho, dois alqueires de azeite, nove mil réis em dinheiro e o pé de altar”. A freguesia não tinha donatários, sendo da coroa, e fazia parte da comenda de S. Domingos de Janeiro de Baixo e Santa Maria da Covilhã.
Sobre a sua igreja, relatava o Pe. José Pereira: “tem quatro altares: o da capela-mor, aonde está colocada a Senhora da Assunção, e Santa Rita e o Santíssimo Sacramento; e os outros três é um do santo Cristo, outro de Santo Amaro, outro da Senhora do Rosário. E não tem mais do que a Irmandade das benditas Almas”. E continuava: Tem uma ermida do Divino Espírito Santo longe do dito lugar cinco ou seis tiros de uma bala, e pertence ao mesmo povo. Não acode a ela romagem em tempo algum do ano, só o mesmo povo costuma todos os anos em domingos desde a Páscoa e até ao dia do mesmo Espírito Santo fazer-lhe sua festa cantada a leigal, e no mesmo dia do Espírito Santo dar um bodo a quem se acha presente, que vem a ser dois bolos, quatro copos de vinho, dois covilhetes de tremoços”.
Notáveis são as diversas informações que fornece sobre o “rio desta terra”. A começar pelo nome do mesmo, que faz derivar de Júlio César, por este general romano “ter habitado” ou acampado nalgum ponto estratégico do rio. Também “é certo que em algum tempo se tirou ouro ou outros metais de suas areias e voltas deste rio, e a razão é por ainda se conhecerem as levadas que vêm do mesmo rio por penhas e terras fragosas mais de duas léguas e estarem muitos sítios cavados e demolidos, as quais minas dizem alguns que foram feitas pelos mouros, outros dizem que pelos romanos, e ainda no tempo presente costumam algumas pessoas tirar fagulhas de ouro do mesmo rio, digo, de suas areias”.
Janeiro de Cima tem nos últimos tempos exercido uma grande atracção turística. Um dos principais pólos de interesse é a sua arquitectura típica com ruas muito estreitas, calcetadas com pedras do rio. Conservam-se ainda muitas casas de pedra nua, sem reboco.
O outro forte atractivo desta terra gira em torno de velhas tradições que vai mantendo, especialmente as relacionadas com a preparação do linho. Tradição multissecular destas gentes, a cultura do linho encontra-se novamente bem viva, depois de um longo período de adormecimento. Assim, o linho voltou a ser amaçado, tascado, assedado, estripado, fiado, dobado, corado, enovelado, pesado, urdido e tecido para dar origem a lindíssimas colchas e outras peças de linho. Mas, muito mais há para descobrir por parte de quem se deslocar a Janeiro de Cima e, como alguém disse, puder “aproveitar, enquanto é tempo, os arquivos vivos, autênticos e fidedignos, depositários deste tesouro simples e rústico, natural e verdadeiro, profundo e surpreendente que é a nossa aldeia entre o pinhal e o rio”. Uma aldeia onde ainda há pouco os moradores usavam “barca de passagem” para atravessar o rio. Uma aldeia onde, a cada passo, deparamos com saudações como “Bom dia, Deus te guarde” e “A paz do Senhor seja contigo”.

Actividades económicas: Agricultura, apicultura, pecuária, serralharia civil, construção civil, carpintaria, mobiliário, panificação, comércio e serviços.

Festas e Romarias: S. Sebastião (20 de Janeiro), Senhora da Saúde (Maio - móvel), Divino Espírito Santo (Junho - móvel), Senhora do Livramento (domingo seguinte a 15 de Agosto) e Senhora da Assunção (15 de Agosto)


Património: Igrejas matriz (nova e antiga), Capelas de N. S. do Livramento, do Divino Espírito Santo e Martir S. Sebastião,Cruzeiro e diversas Alminhas.

Outros Locais: Praia fluvial natural e parque de merendas na margem do rio Zêzere, lugares do Alto da Quinta e Peixoto, Cabeço de S. Sebastião com o seu bosque e parque de merendas.


Gastronomia: Maranhos, cabrito estufado, bogas, bordais, percas e trutas.

Artesanato: Tratamento e tecelagem do linho, toalhas, passadeiras, mantas, rendas e bordados regionais.

Colectividades: Clube Desportivo “Tigres do Zêzere”, Assoc. do Emigrante e Rancho Folclórico Juvenil de Janeiro de Cima.

Orago: N. Sra. da Assunção

(ANAFRE / em movimento pelas freguesias)

sexta-feira, 7 de abril de 2006

A minha Bisavó

Quando passo por estes horizontes sem fim, lembro-me sempre. dessa heroína - a tia Preciosa Pereira. Por esta estrada entre Vidual e Fajão naquele tempo ainda não estava alcatroada, passou por aqui, essa caminheira , a tia Preciosa Pereira, com a mala do correio à cabeça. Fez esta caminhada centenas de vezes, à torreira do Sol, à chuva, ao vento... Eram tempos difíceis. A tia Preciosa calcorreava a pé cerca de trinta quilómetros ida e volta, pela estrada erma da serra.
Toda de preto vestida, pois ficou viúva muito nova e tinha sete filhos menores para criar, e nesse tempo não havia abono de família, nem subsídios. de sobrevivência nem reformas...
Nada! Nada!
Havia apenas a força dos seus braços para trabalhar, a destreza das suas pernas para andar e a sua coragem sem limites para lutar contra a adversidade.Havia, os seus filhos, havia a esperança de que a batalha tinha de ser ganha. Tinha de cultivar todos os motrecos para arranjar o sustento da família. Tinha de fazer
esse difícil serviço de estafeta, do correio sempre incerto e mal pago para vestir, calçar e
alimentar os seus filhos.
Tinha sobre os seus ombros a responsabilidade da sua casa. Tinha uma pesada cruz como muitos fezes dizia. A tia Preciosa não pedia, não era mulher para isso. Também a quem podia ela recorrer? De assistência social nem se falava na serra naquele tempo da década de quarenta.
Com algumas dificuldades, os filhos foram crescendo, os rapazes partiram para Lisboa para trabalhar e as raparigas mais velhas foram servir. Porque trabalhar em qualquer profissão não era desonra nenhuma, pelo contrário, é digno de qualquer pessoa trabalhar honradamente.
A tia Preciosa era uma conversadora fantástica. Dava gosto ouvi-la falar. As suas palavras, as suas frases, as suas respostas, os seus conselhos, os seus ditos, as suas perguntas tinham sempre interesse e profundo significado.
Nunca se esqueceu da sua terra do seu amado Ceiroquinho, apesar de viver no Vidual de Cima aldeia bastante próxima. A aldeia onde nascemos é sempre nossa, e não a podemos negar nem esquecer. A tia Preciosa não se esquecia das pessoas, dos montes, das lombas, das ribeiras, das fazendas, tudo estava vivo na sua memória e no seu coração.
Quando passava pelas Penedas no alto da serra da Amarela com a mala do correio á cabeça olhava sempre para a sua aldeia lá no fundo da Lomba da Missa, e os seus olhos ficavam rasos de lágrimas.
Era a sua mocidade que pairava ainda por esses horizontes, os seus pais, os seus irmãos, os seus vizinhos, mil recordações que lhe passavam pela sua alma tão sofrida. Recordações tão perto e já tão distantes... E lá continuava na sua tarefa até Fajão, sabendo que sobre a sua cabeça levava cartas para a gente da sua aldeia, e isso dava-lhe imenso gosto e prazer.
Esta mulher simples, honrada e corajosa, em jornadas sucessivas, vencia distâncias pela serra descampada, cumprindo a sua obrigação de estafeta.
Todos esses altos penedos cinzentos e silenciosos, viram passar a tia Preciosa centenas de vezes. Eles são testemunhas imortais do esforço e da coragem da tia Preciosa.
A vida também me atirou para Lisboa. Passados alguns anos, um belo dia, encontrei a tia Preciosa em Lisboa onde veio passar uns dias a casa dos seus filhos já casados. Apesar de já estar bastante cansada devido a tantos trabalhos e canseiras que a vida lhe deu, mantinha a mesma postura, a mesma dignidade, a mesma alegria e boa disposição.Foi uma festa encontrá-la e conviver alguns momentos com a tia Preciosa. A sua alegria era contagiante. As suas risadas eram como estrelas candentes rasgando o Céu em noite escura... Com uma idade avançada a tia Preciosa foi para o Céu. Os sinos tocaram na igreja do Vidual e os sons repercutiram-se por encostas e valeiros por onde a tia Preciosa passou a sua vida trabalhosa e difícil.
Partiu para a vida eterna, mas, no silêncio que é a morte uma nova estrela brilhou no firmamento!... A tia Preciosa era um livro aberto que nunca esquecerei, e nele irei sempre escrevendo palavras de um saudoso adeus e profundo respeito pela sua memória.


Tia Preciosa Pereira, António Jesus Fernandes

quinta-feira, 6 de abril de 2006

LA LEYENDÍSTICA EN ESPAÑA Y EN PORTUGAL

A menudo se formulan cuestiones tales como qué es una leyenda, qué es un mito o qué es un cuento (PEDROSA, 1997). Ciertamente, son temas cuya discusión no es puramente terminológica sino cuyo resultado predetermina el alcance de toda una obra. Como ocurre, según Pedrosa, con los estudios del maestro CARO BAROJA, que "puede considerarse una monumental reflexión acerca de la relación entre mito y leyenda". La verdad es que el autor de estudios tan esclarecedores como De los arquetipos y leyendas se desmarca pronto de los enfoques puramente formalistas o volcados hacia la taxonomía (al modo de AARNE-THOMPSON) para subrayar el significado profundo que tiene una tradición en el seno de una comunidad.Sin embargo, es bueno relativizar estas aparentes dualidades: el historiador o el antropólogo perciben las tradiciones más como documentos que como signos, y ello ha sido especialmente negativo en el caso de la leyenda, cuya labilidad formal la ha hecho aparecer difuminada, sin perfiles, como mero soporte o testimonio de creencias, identidades o valores. En su justo sentido, la naturaleza poliédrica confiere este doble valor de juego y representación, de verdad y fabulación, que tan bien encarna la leyenda, a pesar de ser, paradójicamente, el campo menos estudiado, si se le compara con el cuento o incluso con la fábula.Ni siquiera la aportación de autores como Rosa Alicia RAMOS, Stith THOMPSON, etc han logrado unas clasificaciones sólidas e indiscutidas, a pesar de los apartados comúnmente reconocidos, como «cuento de ficción» (Märchen o cuento maravilloso, y Schwanke o cuento humorístico) o «relato verídico» (mito y leyenda). Ni tan siquiera la separación que el profesor francés François DELPECH ha trazado entre el cuento (Märchen), como narración fuertemente formalizada, y la leyenda (Sage) como narración de forma variable, es tan clara como pudiera parecer, pues lo que sí parece haber es un continuum temático y formal, cuyos hitos son colocados de forma bastante diferenciada en cada comunidad. Queremos decir que el texto cuentístico es más cerrado en la forma, pero más abierto en el significado (se ha dicho incluso que sus actantes no son en realidad ni siquiera personajes sino "caracteres" simbólicos); la leyenda es más abierta en la forma, pero más cerrada en su significado, en cuanto que la ubicación o el encaje en un tiempo y en un lugar restringe las posibilidades, aparte de que, como bien notó el profesor L. VAX, el héroe de las leyendas no va en busca de las aventuras sino que éstas, como ocurre en la vida real, le "vienen a él". Tampoco tiene demasiado sentido el discurso evolucionista, porque hoy, como veremos, las leyendas maravillosas y las leyendas religiosas o devocionales, aun teniendo lo sobrenatural como poso común, divergen radicalmente en el sentido de la comunidad, que puede citar como una curiosidad una historia de moras encantadas o de tesoros, pero que cambia de forma absoluta cuando lo que se cuenta tiene que ver con su patrona, como si fueran tales historias un mito redivivo, una "historia ejemplar de dioses" que, como conducta arquetípica, inspira y guía al pueblo que la recrea. O, como diría el profesor VAX, el cuento se desenvuelve en un mundo feérico, en un solo plano irreal, en tanto que en la leyenda acudimos al cruce de planos, como lo es la narración de una aparición, de un milagro, de una profecía... Por tanto, no se sabría decir qué precede a qué en un momento dado, pues la "depuración de una conseja" es lo que, a nuestro juicio, dio origen a los romances de la Serrana de la Vera, aunque también exista el camino inverso, cuentos que se particularizan y se convierten en leyendas.Y es que ni tan siquiera el concepto de "creencia", al que tanta importancia se ha dado, es un criterio importante, si hemos de creer las tesis de Linda DEGH, pues, en efecto son muchos los conductos por los que una tradición se perpetúa y ocurren casos paradójicos, como el de las antileyendas ( v.gr. FEIJOO) o el de las leyendas en clave esotérica (ROSO DE LUNA) que son, a primera vista, desfiguraciones -por el punto de vista adoptado- del marco o la trama simples originarios. Sin embargo, a pesar de las refutaciones del padre FEIJOO sobre el Toro de San Marcos, o de las exageraciones teosóficas de otros, al modo de M. Blabatsky, lo cierto es que el patrón de la historia se perpetúa. Como en Don Quijote, la obsesión desmitificadora o remitificadora apuntan a que el tema sigue siendo importante.Historias de la tradición que son, en suma, y en expresión de A. M. MATUTE, "volanderas", y cuyos únicas señas de identidad son la forma que adoptan en un determinado momento y la comunidad que las recibe, como imágenes que se "posan" o contextualizan en un momento/lugar y por unas causas determinadas. De este modo, reconstruir el imaginario popular y relacionarlo con la evolución histórica de esa comunidad y con su paisaje, es recomponer el mosaico de lo que Leite de VASCONCELLOS llamaba "vida psíquica" del pueblo. Así pues, rescatar la leyenda de este limbo de indeterminación es una tarea saludable, incluso para percibir de forma más nítida el perfil de los cuentos con los que se relaciona, como si fueran carriles paralelos de una misma autovía, con cruces y desviaciones ocasionales.El problema para estudiar las Narraciones Tradicionales y sistematizar sus Fuentes en España y Portugal es el carácter liminar y evanescente que tienen los cuentos, leyendas o anécdotas, en el conjunto de la tradición oral.A caballo entre la literatura, la antropología o la historia, entre la oralidad y la escritura, entre lo individual y lo colectivo, entre la pura ficción y el afán de verismo, entre lo local y lo universal, entre lo fungible y lo que aspira a perdurar (lo "literal"), entre la tradición folklórica y la tradición literaria, entre la forma libre y la forma "cuajada" (cf. VANSINA), entre la prosa y el verso, entre el discurso verbal y el discurso no verbal (i.e. ritos y recreaciones dramáticas)... lo cierto es que pretender sistematizar este campo es caer a priori en un cúmulo de contradicciones. Como lo es el simultanear criterios formales y criterios temáticos, contra todo lo que pide un cierto purismo metodológico. Pero es que así ocurre cuando la comunidad diferencia perfectamente una historia mítica de hadas, gnomos o moros que guardan un tesoro del pueblo, del relato de la aparición de la Virgen, no menos maravilloso. Y es que, en este caso, el discurso se atribuye como verídico, y en el primero ficcional, siendo las dos historias -técnicamente hablando, con los criterios taxonómicos de THOMPSON, por ejemplo- la misma cosa, es decir, tradiciones locales con patrones narrativos y con motivos muy semejantes.Esto nos lleva a que, bajo la diversidad terminológica, se esconde una tipología textual difusa que la denominación "narración tradicional" sólo logra abarcar en parte y a duras penas. Por ejemplo, una anécdota es un género corto de naturaleza conversacional, que permite una interacción directa e inmediata; la leyenda, aunque es formalmente igual de "porosa", requiere ya un distanciamiento mayor, en la medida en que reproduce lo que Honorio VELASCO llama el lenguaje de la vinculación: explica el origen de cosas, nombres, sucesos o hechos, y eso, aunque forma parte también de lo que hemos llamado el "discurso intercalado", da paso al cuento complejo, largo, donde tenemos ya una textualización importante, es decir, donde los materiales se articulan conforme a principios de coherencia y cohesión, que son laxos o inexistentes en el discurso errático del anecdotario y la charla en la plaza público. De hecho, este distanciamiento va acompañado de una mayor especialización: casi todo el mundo puede contar una anécdota corta, pero pocos saben narrar bien un cuento. De hecho, éste lo que hace es organizar bien el discurso y los enunciados de una leyenda puntual cualquiera, pues de la alusión a un entorno próximo ("La Cueva de la Mora que veis aquí..., cuentan que...") y a la actualidad (..."y desde entonces se oye..."), se pasa a una descontextualización ("En el País de Nunca Jamás...") y a un esquema de inactualidad ("Y comieron perdices..."). ¿Cómo establecer esta rica tipología textual, sin caer en los mencionadas simplificaciones evolucionistas acerca del mito, el cuento o la leyenda? Pues examinando la pluralidad de fuente, incluyendo las escritas, pues oralidad y escritura se enmadejan de fuentes incesantes, tal como vemos en las leyendas piadosas. Entre VORÁGINE y toda la pléyade de hagiógrafos, y la sencilla conseja local sobre el patrón del pueblo, hay un continuo e incesante flujo de préstamos, contaminaciones, intercambios... que nos hacen dudar si lo que oímos es la leyenda traducida del latín de los monjes, para su consumo en un refectorio, o la sencilla y emocionada visión de un rimador local o la estampa de un apasionado de las tradiciones de su pueblo, pues las mismas exageraciones y retoricismos hallamos en unas y otras. Y, en cuanto a los motivos, su rastreo, según vemos en DEVOTO y tanto otros eruditos, nos prueba este maridaje continuo entre el folklore y las fuentes cultas, en un proceso que no sólo florecía en la Edad Media sino que recorrió todas las etapas de nuestra cultura (por ejemplo, El Caballero de Olmedo, El Burlador de Sevilla, La Serrana de la Vera... piezas dramáticas del Siglo de Oro de indudables fuentes folklóricas).Quizás desde los estudios de v. PROPP, al insistir en la morfología, se ha dado una falsa impresión de perfecta consistencia en el folktale o narración tradicional. Nada más lejos de la realidad. Lo puede parecer el cuento precisamente por su relativa independencia, por ese carácter que Ana María Matute definió con acierto como de mensaje "volandero". Pero también las leyendas sufren procesos y transformaciones, y transmigran, y se particularizan o generalizan según los casos (la Serrana de la Vera, como ejemplo de lo primero, y las leyendas de Vírgenes enterradas por cristianos en fuga, como ejemplo de lo segundo). Además, no discurre el folktale en paralelo con la literatura, por ejemplo, con el cuento literario o la novela, sino más bien en "zig-zag", con préstamos e influencias mutuas. En efecto, igual que un escritor, como BÉCQUER, puede surtirse de motivos tradicionales, a menudo una historia vuelve al seno de la tradición oral cuando ya ha sufrido influencias de versiones literarias. Formas todas que se disfrazan, a veces de modo sospechoso, de arquetipo reconstruido y validado por la comunidad, cuando sabemos que lo propio de la circulación de historias es la polifonía, el contraste de historias, pues como ya observara PAUSANIAS en la Grecia clásica, de polis a polis eran muy diferentes las narraciones que se contaban acerca de los mismos héroes o dioses. Y si el signo mismo del folktale es opaco por su naturaleza proteica, de mil caras y texturas, lo es también no sólo por su significante sino por su significado, abierto y plurivalente (cf. Diego CATALÁN), que permite lo mismo una interpretación pintoresca o "naïf", sin apenas tocar más que la "cáscara" del relato" (cf. SENDÍN BLÁZQUEZ), que una interpretación en clave esotérica o teosófica (ROSO DE LUNA, GARCÍA ATIENZA, SÁNCHEZ DRAGÓ...), que, al profundizar, hace lecturas insólitas o sesgadas de estos mitos populares. Ciertamente, por ejemplo, el papel de la Virgen María es algo que merece la pena analizar en todo el folklore religioso del sur de la Península, no sólo porque eclipsa a los santos y mártires, sino, en muchas casos, a las propias devociones cristológicas.En resumidas cuentas, al describir el estado de la Cuentística y la Leyendística en España y Portugal no hemos de perder de vista el principio de la UNIDAD Y DIVERSIDAD DE LAS FORMAS DE LAS NARRACIONES TRADICIONALES. Es decir, tener en cuenta el continuum de la tradición oral, o sea, describir de forma global el folkltale o narración tradicional , sin separar tajantemente el cuento de la leyenda, o ésta de la anécdota o la fábula, al contrario de lo que a menudo se ha hecho, examinando un repertorio de cuentos pero no las leyendas locales de esa zona. Es más, creemos que su análisis conjunto, pese a la permeabilidad de los textos, ilumina unos a otros. Por ejemplo, el tipo leyendístico de Damas Blancas, de la Baja Extremadura, se correlaciona perfectamente con ciertas variantes de cuentos maravillosos de Andalucía y el Sur de Portugal.
P. L. Lorenzo Cadarso y E. Martos Núñez
(LA CASA ENCANTADA / ESTUDIOS SOBRE CUENTOS, MITOS Y LEYENDAS DE ESPAÑA Y PORTUGAL /SEMINARIO INTERUNIVERSITARIO DE ESTUDIOS SOBRE LA TRADICIÓN)

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Especial Catalonia - Al mirall mogut


..."Uma multidão de gente juntou-se lá em baixo e olha-me imóvel. Eu entretanto já estou no ar e sinto que continuo a elevar-me, como se algo me impulsionasse de baixo para cima..."

...há agora jornalistas, fotógrafos, câmaras dos diferentes canais de televisão, dou quase pela presença dos redondos olhos de vidro das câmaras lá em baixo, quase me antecipo ao tempo detido e já agora vejo as notícias sobre o extraordinário voo sem precedentes, incrível, do escritor de terras distantes hóspede da cidade de Barcelona...
Al mirall mogut, Bashkim Shehu, AUTODAFE 1, Cartografia Do Exílio, pp 101-102

Catalonia Is A Nation VI

Esta peça rectangular, a duas cores, é o símbolo de uma nação.

A História da Catalunha

Gabriel de Cervelho cai em poder dos turcos
Depois da derrota sofrida pelos turcos na batalha de Lepanto, quiseram vingar-se sitiando Sinau Baja, praça de Tunez, conseguindo entrar no quarto assalto com numerosas perdas. O catalão Gabriel de Cervelho, somente com 80 homens em meio a um monte de cadávares, lutando desesperadamente, foi preso e levado à presença do Baja, o qual não podendo conter a raiva pela perda de 20 mil turcos na luta, esbofetou-o covardemente. Gabriel morreu aprisionado em Constantinopla, injustamente esquecido.

Derrota da Esquadra Invencível
Pelo ano 1586, o rei Felipe II construiu uma esquadra formidável, não sabendo-se a verdadeira finalidade dessa determinação. Pouco depois sairia de Portugal mais de 100 naves, todas com artilharia, a caminho da Inglaterra. Mas chegando ao Canal da Mancha, foram surpreendidos por uma tempestade, e as naves chocaram-se umas com as outras, afundando a maior parte. Atacadas as restantes pela esquadra inglesa, foram facilmente vencidas, pois seus tripulantes estavam esgotados pela luta contra os elementos. Assim desapareceu a Esquadra Invencível.

O pendão de Santa Eulália
Voltando as cortes, um conselheiro tinha ido para queixar-se das maleficências do vice-rei, mas não o deixaram passar a Tortosa. Dado aviso a Barcelona daquele fato, tiraram o pendão da cidade, colocando esta em pé-de-guerra. Isso fez desistir o vice-rei do seu orgulho. O pendão da cidade era muito venerado pelos barceloneses. A bandeira saia enrolada e conduzida por 4 conselheiros e colocada em uma janela da casa da cidade, dando-lhe guarda de honra as agremiações, com suas bandeiras.

Pedro Rocaguinarda
Eram numerosos os bandos de ladrões que havia na Catalunha, fomentados quase sempre pelos partidos políticos. Essa foi a causa da formação de bandos antagônicos conhecidos por Nierros e Cadells, representativo do primeiro o elemento campesino, e o segundo, da nobreza, tendo em uma e outra banda, verdadeiros ladrões de profissão. No ano 1611 foi indultado o cabeça dos Nierros, Pedro Rocaguinarda, com a condição que passasse ao exército de Flandes
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Catalonia Is A Nation V

"O site Constrantant.net **** http://www.constratant.net/ ***** critíca desde a divisão hispanocêntrica aos artistas catalães nas lojas de discos aos anúncios de cursos de espanhol para estrangeiros. A pressão pela preservação do catalão aumenta. O grupo de defesa do idioma Plataforma per la Llengua **** http://www.plataforma-llengua.org/ **** , reunião de 40 entidades, na maioria alas juvenis de partidos políticos, conseguiu que a Warner Bros legendasse em catalão o filme "Harry Potter e a Pedra Filosofal" após manifestações incluindo a participação de escritores e sorteio de livros infantis em catalão nos cinemas que exibiam cópias com legendas em castelhano. Depois de receber mais de 10 mil emails, a Warner comprometeu-se não só enviar cópias legendadas mas legendar as próximas seqüências em toda a região. A campanha do mesmo grupo "Etiquetem en català", conseguiu que a Coca-Cola passase a rotular em catalão após um protesto de 18 mil consumidores em Barcelona. Segundo Anna, representante do PPL, o grupo quer que o catalão esteja presente em todos os âmbitos e lugares da vida no território onde é falado. Além disso, ela explica ao Duplipensar.net que a congregação dos Países Catalães (Catalunha, Valência, Ilhas Baleares e Catulunha Nord) podem ser soberanos sem a interferência dos espanhóis e franceses. Ela comenta que o desejo do PPL é que o catalão tenha as mesmas igualdades de condições do que o castelhano."

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Primavera A Carda (Arezzo)

Especial Catalonia

Barcelona, 1936

from Homage to Catalonia, by George Orwell.

"This was in late December 1936, less than seven months ago as I write, and yetit is a period that has already receded into enormous distance. Later events have obliterated it much more completely than they have obliterated 1935, or 1905, for that matter. I had come to Spain with some notion of writingnewspaper articles, but I had joined the militia almost immediately, because atthat time and in that atmosphere it seemed the only conceivable thing to do. The Anarchists were still in virtual control of Catalonia and the revolutionwas still in full swing. To anyone who had been there since the beginning itprobably seemed even in December or January that the revolutionary period wasending; but when one came straight from England the aspect of Barcelona wassomething startling and overwhelming. It was the first time that I had ever been in a town where the working class was in the saddle. Practically everybuilding of any size had been seized by the workers and was draped with redflags ow with the red and black flag of the Anarchists; every wall was scrawled with the hammer and sickle and with the initials of the revolutionary parties;almost every church had been gutted and its images burnt. Churches here andthere were being systematically demolished by gangs of workman. Every shop and cafe had an inscription saying that it had been collectivised; even the bootblacks had been collectivized and their boxes painted red and black.Waiters and shop-walkers looked you in the face and treated you as an equal.Servile and even ceremonial forms of speech had temporarily disappeared. Nobodysaid 'Sen~or' or 'Don' ort even 'Usted'; everyone called everyone else 'Comrade' or 'Thou', and said 'Salud!' instead of 'Buenos dias'. Tippinghad been forbidden by law since the time of Primo de Rivera; almost my firstexperience was receiving a lecture from a hotel manager for trying to tip alift-boy. There were no private motor-cars, they had all been commandeered,and the trams and taxis and much of the other transport were painted red andblack. The revolutionary posters were everywhere, flaming from the walls inclean reds and blues that made the few remaining advertisements look likedaubs of mud. Down the Ramblas, the wide central artery of the town wherecrowds of people streamed constantly to and fro, the loud-speakers were bellowing revolutionary songs all day and far into the night. And it wasthe aspect of the crowds that was the queerest thing of all. In outwardappearance it was a town in which the wealthy classes had practically ceasedto exist. Except for a small number of women and foreigners there wereno 'well-dressed' people at all. Practically everyone wore rough working-classclothes, or blue overalls or some variant of militia uniform. All this wasqueer and moving. There was much in this that I did not understand, in someways I did not not even like it, but I recognized it immediately as a state of affairs worth fighting for. Also, I believed that things were as they appeared,that this was really a workers' State and that the entire bourgeoisie had eitherfled, been killed or voluntarily come over to the workers' side; I did notrealise that great numbers of well-to-do bourgeois were simply lying low anddisguising themselves as proletarians for the time being.Together with all this there was something of the evil atmosphere of war. Thetown had a gaunt untidy look, roads and buildings were in poor repair, the streets at night were dimly lit for fear of air-raids, the shops were mostlyshabby and half-empty. Meat was scarce and milk practically unobtainable,there was a shortage of coal, sugar and petrol, and a really serious shortageof bread. Even at this period the bread-queues were often hundreds of yardslong. Yet so far as one could judge the people were contented and hopeful.There was no unemployment, and the price of living was still extremely low;you saw very few conspicuously destitute people, and no beggars except thegypsies. #Above all, there was a belief in the revolution and the future,a feeling of having suddenly emerged into an era of equality and freedom.Human beings were trying to behave as human beings and not as cogs in the capitalist machine. In the barbers' shops were Anarchist notices (the barberswere mostly Anarchists) solemnly explaining that barbers were no longer slaves.In the streets were coloured posters appealing to prostitutes to stop beingprostitutes. To anyone from the hard-boiled, sneering civilization of theEnglish-speaking races there was something rather pathetic in the literalnesswith which these idealistic Spaniards took the hackneyed phrase of revolution.At that time revolutionary ballads of the naivest kind, all about theproletarian brotherhood and the wickedness of Mussolini, were being sold onthe streets for a few centimes each. I have often seen an illiteratemilitiaman buy one of these ballads, laboriously spell out the words, andthen, when he had got the hang of it, begin singing it to an appropriatetune."

domingo, 2 de abril de 2006

Catalonia Is A Nation IV

ETA, organizaçom socialista revolucionária basca de libertaçom nacional, deseja mediante esta Declaraçom dar a conhecer a Euskal Herria e ao Povo catalám o conteúdo das reflexons realizadas em torno do seu accionar armado na Catalunha e as decisons adoptadas ao respeito.
Euskadi Ta Askatasuna, no quadro do processo de libertaçom que desenvolve com o fim de conseguir que sejam reconhecidos os direitos que correspondem a Euskal Herria como naçom, decidiu na década de oitenta levar a cabo também na Catalunha acçons armadas contra os intereses económicos dos estados espanhol e francês, e as forças armadas de ocupaçom e responsáveis políticos espanhóis.
Esta decisom estivo sempre sujeita às sucessivas análises de conjuntura que a nossa organizaçom realizou em cada momento.
A ETA renovou a sua análises e tomou umha nova decisom com respeito ao seu accionar armado na Catalunha.
Estas som as principais chaves que tomou a ETA em consideraçom:
- A Catalunha e Euskal Herria som duas naçons com muitas similitudes e pontos em comum, queremos vincar dous:
-Som duas naçons oprimidas polos estados espanhol e francês, divididas territorialmente com base em fronteiras artificiais impostas pola força das armas.
-Esta situaçom de opressom tem feito que desenvolvessem estreitas e profundas relaçons de amizade e irmandade.

Especial Catalonia


The bridge at Besalu

Catalonia
northern Spain
Finlay Phillip

Especial Catalonia

Ajude A Derrotar O Império! STAR WARS, Republic Commando!

Al mirall mogut

...Al mirall mogut.
Ouvi a expressão em língua catalã...numa das ruelas do Bairro Gótico...Nesse labirinto de línguas...o significado carecia de importância para mim...Perguntei, pois, a um amigo barcelonês o que queria dizer. « No espelho que se mexeu »...como era o caso, de uma expressão muito pouco corrente, segundo parece, embora ao mesmo tempo me parecesse demasiado longa, a grande distância do momento em que a ouvira pela primeira vez, e que agora essa expressão levava muito tempo a ribombar continuamente no meu interior.
Al mirall mogut, tiro e queda.
A primeira parte, al mirall, que eu julgava ser uma única palavra, significava impulso, salto para cima...
A última parte, mogut, significava a queda, queda repentina e instantânea...

Al mirall mogut, Bashkim Shehu, AUTODAFE 1, Cartografia Do Exílio, pp 101-102

Catalonia Is A Nation III


Mais para além dos indivíduos...dar a palavra aos povos e às experiências...às culturas e às línguas...

Especial Catalonia


sábado, 1 de abril de 2006

Catalonia Is A Nation II

Catalonia Is A Nation

construir e inovar

"Innovate readers are committed to the design of new learning spaces that take advantage of the best educational technologies available./...
The Innovate Gateway

Internet, Chat, Blogues, E-mail

"Actualmente é vulgar os mais jovens falarem de, Internet, Chat, Blogues, E-mail e outros neologismos ligados ao mundo do ciberespaço. Terá vantagens, um educador usar uma sala de Chat com os seus alunos? Parece-me claramente que pode ser vantajoso, pois estas salas permitem o debate de determinado tema sem qualquer tipo de preconceito. É evidente que estes debates também podem ser realizados na sala de aula mas todos sabemos que perante a presença “física” dos colegas da turma e do professor alguns alunos sentem-se constrangidos para colocarem as suas dúvidas e incertezas. Nas salas de Chat tal constrangimento pode ser eliminado o que representa uma grande vantagem. É de salientar também, que nestas salas “explora-se uma nova linguagem, formada por abreviações, símbolos, onomatopeias e recursos gráficos, surgindo assim um meio para o desenvolvimento da amizade, troca de informação e consequentemente aprendizagem” ( Daniela Haetinger e Max Gunther Haetinger). Aqui o papel do professor transforma-se e este passa a ser mediador das interacções e da aprendizagem fomentando a cooperação e colaboração entre os alunos. O E-mail pode também ser uma ferramenta útil no processo de ensino aprendizagem, nomeadamente no esclarecimento de dúvidas, por exemplo, mas parece-me que pode ter um papel extremamente importante “na relação” Escola - Família pois facilita e torna muito mais rápida a comunicação entre estes dois agentes tantas vezes afastados um do outro. Em relação aos blogues, parece-me uma forma extraordinária de valorizar os trabalhos dos nossos alunos, pois nestes espaços é possível ser simultaneamente “autor, editor e comentador” é possível aqui fomentar a interdisciplinaridade. Em jeito de conclusão, penso que estes recursos são motivadores, enriquecedores e funcionais para que o processo de ensino – aprendizagem se desenvolva cada vez mais com sucesso, vou sem sombra de dúvida passar a usa-los na minha actividade de docente."
António Gonçalves