sábado, 6 de junho de 2009

Janeiro de Baixo

"Situado na margem direita do rio Zêzere, hoje faz parte do concelho da Pampilhosa da Serra, distrito de Coimbra. Aldeia edificada numa orelhita do rio, que lhe confere uma situação muito bela e algo nostálgica. Cresceu a aldeia em cima de uma conheira da antiga mineralização de romanos e árabes. Mais em baixo, a garganta apertada pelos cabeços Mosqueiro e Raposo, parece querer segurar as águas do rio para uma despedida mais lenta. Hoje como dantes todos os caminhos vêm dar a Janeiro de Baixo, terra de uma história rica. Para quem chega surge à vista a torre branca da igreja matriz, balizando todo o casario tradicional. A soada do Zêzere um rumor confuso e mítico, mistura-se com vestígios milenares da sua história e lendas. Lenda da Cabeça Murada, do Cabeço Mosqueiro, a dos Irmãos Januários, que irmanou as duas aldeias vizinhas Janeiro de Cima, e de Baixo. A do Penedo-Paio. A do Poço do Pego, Tem Janeiro de Baixo nos últimos tempos chamado a si alguma atracão turística, deve-se sobre tudo à sua arquitectura típica. Faz parte das aldeias do xisto. Identidade a aldeia é definida ainda pelo seu património natural, potentado pelo Rio Zêzere, cujas águas cristalinas marcaram o modos de vida da população. As paisagens bucólicas das margens, os dourados areais e as construções empedradas dos fortes e açudes, moinhos e lagares preenchem um quadro de sonho, enriquecido por muitos outros pontos que fazem desabrochar momentos de nostalgia para quem os visita. A seus pés o Zêzere, nas suas margens ainda se pode apreciar a famosa barca serrana que outrora servia também para ajudar no transporte das madeiras para o porto de Lisboa, por exemplo: aquando do terramoto foram praticamente dizimadas as matas de carvalhos da região da Serra da Estrela, eram levadas pelo rio até ao Tejo. Janeiro de Baixo é ladeado por uma paisagem surpreendente, completada pelos afloramentos de xisto que começam nos penedos de Fajão, sobem ao alto do Vale Derradeiro, mergulham para o Vale Grande apertando o maciço num abraço com a belíssima Barragem de Santa Luzia, complexo hidrográfico dos mais bem conseguidos na Europa. Desce depois para o Cabeço Raposo, onde o rio passa em cachão numa das mais belas cachoeiras de Portugal, e sobe, sobe ao Cabeço Mosqueiro, de onde tudo se vê. Cabeça Murada, antes de subir para o coruto do Marmoural, descansa na senhora da confiança obra do digníssimo Padre Tomás. Ouve-se já a soada da cascata de água d’Alta, fora da época estival a água cai de uma altura de 25 metros, ai sim o viajante pode sonhar, e voltar quando quiser. A cordilheira xistosa ora mergulha nas profundezas da terra, ora se levanta graciosa, uma estátua do tempo e segue o seu caminho como quem vai para Espanha. Em tempos dai, vinham as forças do mal trazer fome e guerra. Os últimos foram os franceses, certamente que as milícias de Janeiro de Baixo estiveram à altura do seu dever. Na ultima guerra que se travou na península, que a paz dure para sempre. E estas aldeias irmanadas pela sua história continuem de mão dada no caminho do progresso.Quando se passeia pelos caminhos rurais de horta em horta caminhos planos de pedra rolada, sente-se essa paz e um carinho no linguajar doce, como se saúda o viajante, parece inocente (Venham com Deus.)

Origens, e Igreja

Janeiro de Baixo, segundo Pinho Leal, Janeiro terá tido origem eventualmente de Joaneiro ou Januário, aplica-se a Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo, provavelmente Janeiro de Baixo primeiro. Tem referência no catálogo de todas as igrejas e mosteiros de Portugal, de 1320-1321 não era ainda freguesia. É de admitir que pertencesse ao mosteiro de Arganil que Dom Fernando Pães fundou em 1086 ao qual pertencia também a freguesia de Pampilhosa da Serra, que confinava com Janeiro de Baixo. Depois em 1321, Janeiro de Baixo aparece como centro religioso de uma área enorme de aquém e além Zêzere, agregando as freguesias de Bogas de Baixo, Orvalho e Janeiro de Cima, suas anexas. Taxada em 80 libras. Comenda da Ordem de Cristo. O vigário apresentava curas para as três anexas: Orvalho, Janeiro de Cima e Bogas de Baixo. Tinha então juízes de vara, e mais tarde milícia, foram seus capitães Manuel Gaspar, Capitão de ordenanças, de que era Alferes, que vagou por morte de Gaspar Dias, em 23-07-1761. Manuel Lopes, Capitão de ordenanças, que vagou por morte de Manuel Gaspar, em 23-09-1779. Em 1758 Janeiro de Baixo tinha 117 fogos. Em 1625, foi ordenado ao cura João Martins, do Orvalho que faça os assentos de casamento, baptizados e óbitos como manda a constituição, talvez seja essa a data da desanexação desta freguesia, certo é que até ai a igreja do Orvalho, não tinha púlpito nem baptistério. A comenda do Orvalho ainda existia no século XVII, na visitação de 1643 ordena-se que da renda se dêem três alqueires de azeite para a lâmpada que há-de arder ante o santíssimo.Parece que o comendador não esteve pelos ajustes e é ameaçado de excomunhão maior. Como não obedece ficam, sobe ameaça de sequestro os bens da comenda pelos juízes de Janeiro de Baixo. Não se pode apurar se houve apelação. Parece que o comendador se resolveu a pagar pois não se falou mais de azeite e vinho. Na visitação de 1679 ainda se fala da comenda mas a partir de ai não se fala mais da comenda. No livro das visitações mostra-se que os bens da igreja de Janeiro de Baixo foram doados em comenda. Até prova em contrário não é de rejeitar que tenha sido para o mosteiro de Arganil. Reforçaram-se a partir daí em resposta à perda dos bens, os poderes das irmandades e confraria das almas, com grande actividade, estendeu os seus braços por toda a região de aquém e além Zêzere, nas freguesias e aldeias de Janeiro de Baixo, Janeiro de Cima, Orvalho, Cambas e Vilar Barroco. Não foi no entanto muito pacífica a vida da confraria como se pode testemunhar: em 1691 o visitador levantou embargos à tramóia de a minoria dos irmãos do Orvalho, torpedear as eleições por maneira a não dar representação à maioria dos irmãos moradores nas freguesias dos dois Janeiros. ─ Não guardando a igualdade que se deve guardar em boa irmandade pelo que mando que daqui em diante na eleição dos mordomos se guarde da forma seguinte: eleger-se-á deste lugar, um mordomo e das outras freguesias outro, e que ambas tratem dos seus bens da irmandade conforme o seu juramento. Nos três dias imediatos ao quinto domingo depois da pascoa são consagrados pela igreja, desde o século V a orações publicas e solenes, acompanhadas de abstinências e procissões. Estas orações, chamadas rogações ou ladainhas, faziam-se em Janeiro de Cima na segunda-feira imediata ao quinto domingo do Mês de Maio, com a assistência dos párocos de Janeiro de Baixo e Orvalho, que lá acorriam com os seus fregueses e as insígnias das suas paróquias. Na terça-feira, ultimo dia das Rogações iam a Janeiro de Baixo os párocos de Janeiro de Cima e Orvalho. Em 1755 o padre Manuel Antunes, pároco de Janeiro de Cima, enviou ao prelado da Guarda uma petição para que fosse abolido esse costume. Disse: ─ devido ao incómodo que era em tempo de rio cheio, sem pontes para a sua passagem, as pessoas andavam léguas. Em resposta o prelado da Guarda perguntou qual a origem do dito costume? Em 10 de Maio de 1755 o pároco Janeiro de Baixo e o cura do Orvalho, em ofício por eles assinado, ─ responderam: não haver memória do costume, parecendo ter nascido no tempo em que as três freguesias faziam parte de uma só. O perlado da Guarda despachou: ─ ponderados os inconvenientes. Que cada um faça procissões, e rogações no limite da sua freguesia. Pertenceu às comendas do padroado real. Em 1600 foi avaliada em 100 mil réis, em 1882 deixou de pertencer à diocese da Guarda passando para a de Coimbra e em 1885 passou do concelho de Fajão para o da Pampilhosa da Serra. Em 1758 tinha as seguintes igrejas: oráculo de São Domingos. Com três altares, Altar-mor São domingos, Santa Ana e São Caetano, em um dos colaterais, está o divino Espírito Santo, e Nossa senhora do Rosário. Fora do lugar Santo Cristo, Brejo de Baixo Santo António, são Jacinto no lugar do Souto, Esteiro Nossa Senhora do Pé da Cruz, Porto de Vacas São Miguel, e Machialinho São Vicente Ferreira. No lugar da Baralha Nossa Senhora dos Prazeres, e São Mamede do outro lado do rio, no sítio dos chãos. Estas duas últimas capelas, Baralha e S. Mamede, ou pelo menos os terrenos adjacentes, foram dadas em testamento em 1742 pelo senhor Manuel Cardoso de Carvalho, dono da casa Carregal, ─ conforme escritura feita em Coimbra nas notas do tabelião, entraram as fazendas que comprei a Raimundo de Macedo, da vila da Lousã e metade do lagar e tapada da Foz da Baralha, tudo rústico, e metade do chão de S. Mamede com as fazendas da capela, ao meu tio Bernardo de Carvalho.

Património Religioso

Janeiro de Baixo é detentor de um vasto e rico património construído. A Igreja Paroquial, recentemente recuperada, está rodeada de pitoresco casario. É um pequeno templo, de traça simples, localizado à entrada da povoação. A porta da fachada principal é de verga curva, dominada por uma janela também de verga. Numa porta lateral encontra-se gravada a data – 1878, ano em que Janeiro de Baixo se agregou ao Apostolado da Oração. A torre, de construção posterior, está adoçada ao lado direito do edifício. No interior sobressaem os retábulos entalhados dos séculos XVII / XVIII. Além da Igreja Matriz, Janeiro de Baixo tem ainda mais duas capelas: a do Santo Cristo e a de S. Sebastião. Merecem ainda referência: a capela do sítio da Baralha, (é urgente a sua reparação,) a alminha que fica à entrada norte da povoação, assim como uma outra alminha junto ao Esteiro no caminho antigo para o Porto de Vacas. É tradição na freguesia realizar-se um Bodo junto à Capela de S. Sebastião, a 20 de Janeiro de cada ano. A procissão em louvor do Divino Espírito Santo é outra manifestação da grande religiosidade dos habitantes desta freguesia. Actualmente a freguesia é constituída pelos lugares de Brejo de Baixo, Brejo de Cima, Casal da Lapa, Esteiro, Janeiro de Baixo, Machialinho, Porto de Vacas, Safra, Souto do Brejo e Vale de Abutre. Todas as aldeias descritas nas memórias paróquias de 1758 mantêm os seus santos e capelas, os novos lugares também tem os seus símbolos religiosos.

Património Arqueológico

Decorreu recentemente algum levantamento arqueológico na freguesia de Janeiro de Baixo, tendo sido encontrado alguns túmulos e minas antigas, espera-se que essa investigação continue, não é de estranhar que venha ainda a dar mais frutos. Atendendo ao contexto destas minas há que referir que uma delas escavada no xisto, e hoje emparedada para não haver acidentes, pode fazer conjunto com a conheira da Cova de São Sebastião, situada do outro lado do Zêzere quase em frente da povoação, onde, para além da exploração da conheira propriamente dita, foi aberta uma galeria no terraço fluvial, cuja entrada ainda hoje é visível. Em Janeiro de Baixo, o facto de ter aparecido uma moeda do século XVIII numa das galerias não significa necessariamente que a mina tenha laborado nesta época. Há registos também uma mina com duas galerias junto do Brejo Fundeiro. Um caneiro de uma roda de rio, escavada num belíssimo painel de xisto, com nervuras e cristas surpreendentes, no sítio do açude do moinho em frente à mina de S. Sebastião, na outra margem. Leva-nos a pensar e pela dimensão da mesma com o desgaste que apresenta tratar-se de um antigo acento de uma roda de rio de grandes dimensões, do tempo da exploração mineira. Foi ainda recuperado um tronco antigo como memória dos artífices da aldeia.

Moinhos

Uma menção especial ao exemplar que se encontra na aldeia de Janeiro de Baixo, trata-se de uma azenha temporária, escavada na rocha das margens do Zêzere. Muito provavelmente será caso único, ou no mínimo muito raro, que merece o nosso destaque e atenção. Em Agosto 2001, encontrava-se em bom estado de conservação e ainda tinha moído durante o último Inverno. Existe algum interesse nas populações em preservar e valorizar este património. Esperemos que assim seja e que este verdadeiro monumento possa continuar a ser admirado por todos. Há alguns moinhos e lagares um pouco por toda a freguesia, merece também atenção o conjunto de moinhos ou o que resta deles, na aldeia do Porto de Vacas".

Publicado: SERRAS DA PAMPILHOSA, Agosto de 2007

Diamantino Gonçalves

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