domingo, 31 de dezembro de 2006

31 de Dezembro

Este mundo organizado e quotidiano ano-após-ano aborrece-me no seu tédio e bem parecer...

sábado, 30 de dezembro de 2006

Na horizontal - Da estação polar até ao Pólo Norte

O Melhor Alpinista do Mundo também percorreu distâncias na horizontal. Em 1995 no Pólo Norte - 200 km.

Na horizontal

Pela objectiva de quem lá vive

Janeiro de Cima pela objectiva de quem lá vive

FotoXisto é o registo fotográfico que faltava em torno do projecto das Aldeias do Xisto. Mais do que um olhar profissional, artístico ou meramente curioso, este é o testemunho do quotidiano daquelas aldeias; desta vez reportado por aqueles que lá vivem...
ALDEIAS do Xisto. Por estes lados, o termo é automaticamente associado à localidade de Janeiro de Cima. Ao seu património, às suas casas, ruas e ruelas, todas de xisto claro está. Ao rio Zêzere. Às suas gentes, às suas histórias, à sua hospitalidade. Aos seus ambientes e paisagens únicas, sedutoras, românticas. Em suma, aos conjuntos que convidam artistas e leigos (por norma visitantes ocasionais) a perpetuá-los através da suas obras. Sejam frases, livros, esculturas, pinturas ou – o mais comum – fotografias. De tudo já se fez por ali e mais de um tudo se fará para dar a conhecer esta e outras Aldeias do Xisto.

Mas será que que o que estes forasteiros vêem é a verdadeira aldeia?

Provavelmente não. Provavelmente aos olhos daqueles que ali vivem há décadas estas obras nada mostram sobre o seu dia-a-dia. Pouco têm de real.

Foi então para conseguir essa autenticidade que João e Manuela Margalha, em colaboração com a Pinus Verde, lançaram um desafio à população: “Tirem as vossas próprias fotografias. Das pessoas, dos locais, das actividades. Não interessa do quê. O importante é a vossa visão”.

O desafio foi aceite. E o conjunto de máquinas digitais que iam sendo entregues à população depressa começou a disparar pelos quatro cantos de Janeiro de Cima e das restantes nove aldeias integradas no projecto. O resultado foi surpreendente. Mais de mil fotografias, 240 das quais seleccionadas para uma exposição (patente até 14 de Janeiro na Casa Grande da Barroca do Zêzere) em que, a julgar pela qualidade, os autores poderiam ser fotógrafos famosos.

Mas, não são. São, isso sim, pessoas como Álvaro Dias. O presidente da Junta de Freguesia de Janeiro de Cima não podia deixar de participar numa iniciativa que “ajuda a promover a aldeia”. Por isso de máquina em punho lá foi percorrendo a sua aldeia. A primeira paragem foi logo na sua padaria, local onde todos os habitantes passam à procura de pão fresco. Depois, uma casa que foi totalmente rodeada pelo fogo, mas que não sucumbiu à força das chamas. Álvaro ficou impressionado e resolveu retratar o local.

Quem também ficou maravilhado com a força na natureza foi António Gama Silva. Este habitante de Janeiro de Cima aproveitou a máquina para tirar fotografias das últimas cheias. Fotografou ainda uma matança do porco “que sempre fez parte da realidade da terra”. Além disso, tal como fazia em tempos de menino e moço, voltou a subir ao Pico do Peixoto, desta feita para tirar uma fotografia panorâmica à aldeia. “É o sítio ideal para vermos a terra toda”, diz.

E por falar em sítios imperdíveis. Lá está a fotografia – também de António Silva – do bar O Passadiço. Um local que, com certeza, dentro de alguns anos virá a ser ponto de encontro para as crianças que Maria Jesus fotografou no parque infantil.

“Tinha que registar aquele espaço, e as crianças que por lá passam. Elas representam o futuro desta aldeia”.

Uma fotografia que está a par da do seu pai, Hermínio Gaspar, acompanhado pelo seu rebanho; à do Cristo pregado na cruz; à do parque das merendas e à dos idosos que jogam às cartas no café do senhor Costa. E a tantas outras que representam o quotidiano da aldeia, mas desta vez, visto por dentro...


O testemunho da realidade de mais nove aldeias também está presente

SE JANEIRO de CIMA abre a exposição FotoXisto, o certo é que esta apresenta outras realidades. Deste projecto fizeram parte 10 das 23 Aldeias do Xisto. Assim, por entre as 240 fotografias tiradas por 61 pessoas também encontramos trabalhos dos habitantes das localidades de Aigra Velha, Aigra Nova, Benfeita, Cerdeira, Fajão, Foz do Cobrão, Gondramaz, Martim Branco e Talasnal. E também nestes casos, as fotografias contam as histórias da sua terra. É o caso do retrato da Torre da Benfeita que todos os anos assinala o fim da Segunda Guerra Mundial. No dia da efeméride, naquela torre replicam tantas badaladas como o número de dias que durou a guerra.

Já nas fotografias de Gondramaz encontramos a placa relativa ao “Beco do Tintol” ou os seus habitantes empenhados na apanha da castanha. Mas, entre as fotografias mais representativas está a das figuras (espécie de máscaras) gravadas em xisto por um habitante local.

Por seu turno, na localidade de Talasnal, Mirita Meira dos Santos teria que ser obrigatoriamente fotografada. Esta mulher é a autora dos talasnicos, um bolo que contribui para a fama da terra. Muitos são os visitantes que percorrem aqueles caminhos rurais só para provar os talasnicos da dona Mirita.

E nas fotografias da Foz do Cobrão lá encontramos representada a actividade que durante anos deu fama à terra. Trata-se do garimpo do ouro, actividade que actualmente só é praticada em iniciativas promovidas por associações locais. Foi numa dessas iniciativas que as fotografias foram tiradas.

Menos famosa é a senhora presente em uma das fotografias de Martim Branco. Trata-se de uma mulher de idade incerta, sempre para cima dos 70, encostada a um motocultivador. Não obstante de ser para a maioria uma desconhecida, o seu retrato foi, de entre os trabalhos, várias vezes destacado. Não é de surpreender. Este retrato representa todo o espírito da iniciativa. Representa a realidade de locais marcados pelo envelhecimento e pela interioridade; mas também representa a resistência, a coragem e até as novas dinâmicas que os seus habitantes vão imprimindo nomeadamente na agricultura.
"Jornal do Fundão" - Secção: Grande Tema - Edição on-line paga

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Na horizontal - Gronelândia


O Melhor Alpinista do Mundo também percorreu distâncias na horizontal.
Em 1993 na Gronelândia - 2.000 km.

http://www.tte.ch/map/54.gif

how rich are you?

You are in the top 10.34% richest people in the world.
There are 5,379,477,360 people poorer than you.
How do you feel about that? A bit richer we hope. Please consider donating just a small amount to help some of the poorest people in the world. Many of their lives could be improved dramatically or even saved if you donate just one hour's salary (approx €13.62)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Na horizontal - Deserto de Taklimakan

O Melhor Alpinista do Mundo também percorreu distâncias na horizontal.
Em 1992 no Deserto de Taklimakan, China - 200 km.

Da importância das aldeias

UMA das teorias mais recentes do Urbanismo e da Organização Territorial é a que vem exalçar as virtudes das cidades médias. Razões: as cidades grandes são insuportáveis, pelo bulício infernal, pela poluição do ar, pelas longas filas de trânsito, pelo stress contínuo, enfim por tantos excessos e tantas falhas... Logo, importará que as médias se afirmem, se tornem mais atractivas e sejam mais apoiadas pelo poder.
Mas, o certo é que também as cidades médias comportam, por vezes, vícios idênticos e outros problemas.
Sem aldeias à sua volta, que as alimentem e lhes dêem o necessário movimento (das permutas, dos serviços), as cidades médias sofrerão falhas graves de sustentabilidade e hipotecarão o seu futuro. No caso do Fundão, a actual cidade sem as suas aldeias perderia muito e tenderia a ser talvez uma grande aldeia (da Covilhã), com a desertifïcação à sua volta...
Daí que o regresso ao ambiente bucólico e pacato das velhas aldeias, ao convívio familiar, das coisas simples e naturais, ao ar puro e ao chilreio dos pássaros, seja para muitos considerado uma necessidade periódica para recarregar baterias, enfim, um bálsamo para o corpo e sobretudo para a alma.
Tempos houve que o elogio das pequenas Cortes de Aldeia fez furor. Foi sobretudo no tempo dos Filipes (reis espanhóis), com o poder político instalado em Madrid. Eram tempos de forte centralismo e de divórcio da res-pública. Depois, com o liberalismo e a industrialização, e com todas as mudanças sociais e culturais operadas, foi-se acentuando o êxodo rural. Hoje, temos o que temos. Como será no futuro?


Amor ao berço natal
Vêm estas considerações a propósito de alguns enfoques que o JF de vez em quando nos vai trazendo relativamente à vida das aldeias (num deles – coisa rara – até apareceu a “minha” Orca), mas também a propósito de alguns projectos municipais de desenvolvimento, como os de Janeiro de Cima, Barroca, Rio (Silvares), e de outras terras. Há que saudá-los a todos vivamente, porque há muito a fazer pelas nossas aldeias. Eles são sempre um estímulo aos residentes e aos naturais que andam por longe. Falo por mim. Embora nascido e criado numa aldeia, ao longo de cinquenta anos fui vivendo e trabalhando quase sempre em cidades, mais por exigências profissionais de que por opção. De um modo geral, adaptei-me. Mas nunca deixei de gostar do meu terrunho. Conforme outrora se dizia, em bom português, a terra onde se nasce é a nossa “pátria”. Hoje já não é bem assim, porque já não se nasce nas aldeias e muitas destas nem já escolas têm. Creio, no entanto, que o amor ao berço natal ainda vai persistindo e não apenas por romantismo. Apesar do afastamento, recordamos pessoas, sítios, afectos, histórias de vida... Tudo isso pesa na me- mória, como carga identitária. – «Então, porque não voltais, filhos pródigos?» – objectarão alguns.
Alguém disse um dia que o homem não é só ele, mas também as suas circunstâncias. – «Sim, muitos voltaríamos, desde que se verificasse um mínimo de condições». Porque, obviamente, ninguém quer um regresso à toa. Ninguém deseja «andar p’ra trás». Há custos, que terão de ser equacionados. Mas que há hoje novos tipos de relação com o meio, que nos podem levar a uma vida com qualidade nas nossas aldeias, a sentirmo-nos bem connosco e com os outros, penso não haver dúvidas.


Os apoios necessários
Sempre que uma mudança exija custos – e há-os sempre –, importa analisar como suportá-los ou prever a sua compensação, em ordem à consecução dos resultados esperados. Porque uma vez iniciado o processo, há uma infinidade de voltas a dar, de burocracias a cumprir, de impostos a pagar, de sacrifícios a fazer. E aí entram em acção entidades públicas, como o Estado e as Autarquias, que em nome das leis nos pedem contas mas que em nome do bem comum também deveriam prestar apoios. E tantas formas de apoio são possíveis e são necessárias a quem pretenda (re)instalar-se numa aldeia do interior deste país, como são todas as do concelho do Fundão!... Ainda há pouco tempo tivemos na Beira Baixa, mais concretamente no concelho de Vila de Rei, uma experiência mediática de tentativa de instalação e repovoamento. E sabemos como as expectativas saíram goradas, face aos apoios prometidos. Pois bem, tem a Câmara do Fundão merecido o aplauso quase unânime dos munícipes pelo trabalho entusiasta que tem desenvolvido em prol de muitas das suas freguesias, de que são mais flagrante exemplo as “do xisto” (de Janeiro de Cima e Barroca) e a “histórica” de Castelo Novo. Todavia, embora todos saibamos muito bem que o concelho é grande (são 31 freguesias), que o frio das carências é muito e a manta do orçamento é curta, alguns terão razão para inquirir: «Não será possível uma distribuição um pouco mais equitativa?»

É que há aldeias que quase nada têm recebido... A Orca, que até é a 2.ª maior freguesia do concelho em área, é uma delas [desde os anos de 70 que não voltou a acontecer ali um «investimento que possamos classificar de importância» – lembrava recentemente um orquense em carta aberta no JF (n.° de 20-9- -2006)]. E, no entanto, são bastantes as suas potencialidades, conforme lembrava o mesmo cidadão (e)leitor!...


Conviver e comemorar é preciso
Na história de uma aldeia há sempre pequenas histórias, efemérides, romarias, festejos mais ou menos cíclicos, que congregam e reanimam. E haverá outros, iniciativas simples que podem partir de nós ou de grupos organizados, sempre com vista à promoção do desenvolvimento ou simplesmente a proporcionar momentos de alegria, em saudável convivialidade. Lembro a realização, há anos, de encontros de famílias, de onomásticos (os Josés...), de orquenses em Lisboa (no tempo do Pe. Casimiro)... Há, todavia, uma efeméride que se aproxima e que gostaria de aqui evocar publicamente. Trata-se da ordenação sacerdotal e simultânea de três orquenses missionários, que ocorreu na Orca no dia 15 de Junho de 1957, um facto que julgo inédito em todo a Beira Baixa, porventura até em todo o país (!). Ao tempo, o facto mereceu honra e fama de grande acontecimento regional e teve festejos a condizer, na Orca, com gentes vindas de várias partes, conforme assinalava uma local do JF.

Ora os três sacerdotes, todos da Sociedade Missionária “Boa Nova”, estão todos vivos, activos e de boa saúde, e bem mereciam uma lembrança e a homenagem, já não digo da região e do concelho, mas pelo menos dos seus conterrâneos. Querendo as forças vivas da terra, a comemoração do cinquentenário poderia ser um pretexto para algo de inédito e de verdadeiramente afirmativo: Um congresso – alvitrou já um dos missionários (Pe. José Marques)... Umas jornadas – direi eu... Ou, pelo menos, um encontro alargado de amigos, de boas- -vontades.

Que dizem a isto os orquenses e organismos vivos da freguesia, como Junta, Comissão Fabriqueira da Paróquia e direcção da ARCO? Não será possível constituir e mobilizar, desde já, núcleos de apoio em várias partes — Orca (núcleo polarizador), Fundão, Castelo Branco-Covilhã-Guarda, Lisboa, França? Sei já que na Sociedade Missionária e na ARM (associação de antigos alunos da mesma Sociedade) há gente disposta a dar uma ajudinha... Aqui está uma ocasião soberana para uma aldeia mostrar a sua importância.

Joaquim Candeias Silva, Da importância das aldeias
"Jornal do Fundão" - Secção: Opinião - Edição on-line paga

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Na horizontal - Antárctida

O Melhor Alpinista do Mundo também percorreu distâncias na horizontal. Em 1990 na Antárctida - 2.494 km, em 1991 no Butão, em 1992 no Deserto de Taklimakan-China, em 1993 na Gronelândia, em 1995 da Estação polar até ao Polo Norte, em 1996 no Tibete Oriental-China, em 2000 na Geórgia do Sul, em 2004 no Deserto de Gobi-Mongólia.

Agenda de João Garcia - na vertical

Verão.2007 K2 8611 m Paquistan/China
Primavera.2008 Makalu 8463 m Nepal/China/Tibet
Outono.2008 Manaslu 8163 m Nepal
Primavera.2009 Annapurna 8091m - Nepal
Verão.2009 Broad Peak 8047 m -Paquistan/China
Verão.2010 Nanga Parbat 8125 m - Paquistan

João Garcia non official webpage

domingo, 24 de dezembro de 2006

Este Natal

Este
Natal v Ou
m Ontar uma
árv Ore dentr O dO
meu c Oraçã O e nela
v Ou pendurar, em vez de
b Olas, Os n Omes de t O dO s
O s meus amigO s: Os antig Os e Os
mais recentes; Os amig Os de l O nge
e Os de pertO ; O s que vejO em cada dia
e O s que raramente enc O ntrO ; O s que sãO
sempre lembrad Os e Os que, muitas vezes, ficam
esquecid O s; O s das h O ras difíceis e O s das h O ras
alegres; Os que sem querer eu mag O ei O u O s que sem
querer me mag Oaram; aqueles que p O ucO me devem e aqueles
a quem muit O dev O ; O s meus amig O s humildes e O s meus amig O s
imp Ortantes; O s nO mes de tO dO s O s que já passaram pela minha vida,
muit O especialmente t O dO s aqueles que já partiram e que lembr O cO m tanta
saudade. Uma árv Ore de raízes muit O prO fundas e de ramO s muitO extensO s para
que Os seus n O mes nãO sejam arrancadO s d O meu c O raçã O , de s O mbra muit O
agradável para que a n Ossa amizade seja um m O mentO de repO us O
nas lutas da vida.
Que seja Natal
todos os dias do Novo Ano.

Eiger North Face

A temível e muito técnica, face norte do Eiger, nos Alpes Helvéticos.

http://www.zurich.ibm.com/eurocrypt2004/images/ks13.jpg

sábado, 23 de dezembro de 2006

Exposição FotoXisto

Aldeias do Xisto vistas pelos seus habitantes
240 fotografias de 10 aldeias numa exposição inédita
Participaram na iniciativa 61 pessoas com idades compreendidas entre os 11 e os 79 anos.
Uma exposição inédita para ver na Casa Grande da Barroca (Fundão), até 13 de Janeiro
A Torre da Paz, na Benfeita, é também conhecida por Torre de Santa Rita ou de Salazar e foi construída em 1944. Os seus sinos tocam apenas um dia por ano: a 7 de Maio, dia em que terminou a II Guerra Mundial, com a rendição da Alemanha, em 1945. Mas nesse dia tocam mil 620 vezes, simbolizando o número de dias que durou a guerra.
A imagem da Torre da Paz é uma das que compõem a exposição FotoXisto, patente desde dia 12 e até 13 de Janeiro, na Casa Grande da Barroca, Fundão.
É a mistura de sensibilidades e objectos que torna rica a mostra de fotografias sobre os costumes, vivências das Aldeias do Xisto, captadas pelos próprios habitantes. São 240 fotografias de dez das 23 Aldeias do Xisto: Fajão, Janeiro de Cima, Martim Branco, Foz do Cobrão, Gondramaz, Benfeita, Aigra Velha e Aigra Nova, Comareira, Cerdeira e Talasnal. “Questões orçamentais e de tempo” impediram a organização de abraçar as 23. A 13 de Janeiro, a exposição deixa a Barroca e inicia uma itinerância pelas restantes aldeias fotografadas no projecto.
A iniciativa promovida pela empresa Curso de Água, com sede em Janeiro de Cima, surgiu com uma candidatura ao plano de animação da Associação de Desenvolvimento Pinus Verde (que gere as Aldeias do Xisto). Segundo Manuela Margalha, coordenadora do projecto - em conjunto como seu marido, o fotógrafo João Margalha -, a ideia foi mostrar as Aldeias do Xisto através de quem melhor as conhece, os seus habitantes. “Trata-se também de envolver as pessoas de uma outra forma com o seu meio-ambiente”, esclarece. Os coordenadores do projecto distribuíram entre oito a dez máquinas digitais por habitantes seleccionados em cada aldeia, o que resultou nas 240 fotos presentes na exposição, escolhidas de um universo de mil e 400.
Segundo o presidente da Pinus Verde, Paulo Fernandes, o investimento no projecto rondou os dez mil euros. “Pretendemos mostrar uma nova face da marca Aldeias do Xisto, da Zona do Pinhal Interior, com uma actividade original: através de uma visão humana e espontânea, sem profissionais”.
“Experiência foi um sucesso”
Fotografias surpreendem profissional
“Fiquei surpreendido com muitas fotografias, tanto pelo objecto captado, como pelos enquadramentos e pela sensibilidade demonstrada”, confessa João Margalha, o fotógrafo que coordenou de perto o trabalho dos habitantes. Mesmo apesar de serem usadas máquinas compactas de baixa especificação, “não estava à espera de ver tantas fotografias e tão boas”. “Apenas foi explicado onde se ligam e desligam as máquinas e onde se deve carregar para tirar as fotografias”, recorda.
As fotografias expostas não são assinadas. “Não queremos que ninguém fique triste por não ter nenhuma das suas fotografias exposta”, explica a coordenadora Manuela Margalha. Mas segundo João Margalha, “a maioria dos participantes têm aqui fotografias”.
Casal aposta em Janeiro de Cima
Para além de sedearem a empresa Curso de Água em Janeiro de Cima, Manuela Margalha e João Margalha, de 33 e 40 anos, respectivamente, são também proprietários de uma casa de turismo rural na localidade, a Casa de Janeiro. A decisão de apostar na aldeia deve-se às raízes de Manuela Margalha, pois é a terra que a viu nascer e crescer. Os dias úteis da semana são passados em Aveiro.
Habitantes falam da experiência
Os testemunhos
Álvaro Dias tem 57 anos e é padeiro há 20, em Janeiro de Cima, terra que o viu nascer e também partir, primeiro para Angola e depois para a Suíça. Actualmente, concilia a arte de fazer pão com a presidência da Junta. Foi com surpresa que verificou ter quatro imagens suas em exposição na FotoXisto. “Não esperava, porque até acho que sou fracote nisto da fotografia”, descreve, a sorrir. Nunca antes tinha participado numa iniciativa deste género e nem tal lhe passava pela cabeça, até surgir o convite dos coordenadores. “Eu tirava fotografias lá em casa, para a família, mas agora até gosto e acho que me vou dedicar a tirar mais”. Para Álvaro Dias, “é importante que estas acções sejam feitas para dinamizar as localidades, porque ficamos a conhecer outras terras que não conhecemos e nos desperta o interesse”.
RECORDAÇÕES
António Silva tem 70 anos e reside em Janeiro de Cima. Viveu na aldeia até aos 12 anos, altura em que foi estudar para Castelo Branco. Alguns anos mais tarde, emigrou para Angola, sendo depois obrigado a partir devido à guerra civil. Depois de alguns anos na Suíça, retornou a Portugal, para se instalar em Castelo Branco. A Janeiro de Cima voltou para “gozar os tempos de reforma” e para não mais partir. As fotografias que tirou reflectem histórias de outrora da sua aldeia e que contrastam com a actualidade. Casas tradicionais actualmente recuperadas e que mantêm a sua arquitectura original, assim como recantos e travessas, são a maioria dos alvos da sua objectiva. Outro dos exemplos que narra, ao Diário XXI, ao pormenor, é a fotografia da zona da hidroeléctrica de Janeiro de Cima. “Dantes, esta zona ficava completamente inundada e todos os habitantes iam ver «deitar a barca». Era um espectáculo: as pessoas tinham de passar o rio de barca para irem cuidar dos animais e dos moinhos, na outra margem”, conta. Conforme recorda, “as pessoas que precisavam passar o rio, pagavam aos barqueiros em géneros, como milho ou azeite, e essa avença era recolhida de porta em porta”.Sobre a iniciativa, considera tratar-se de “algo inédito e muito interessante”, porque “nos faz querer visitar as aldeias que não conhecemos”. António silva ficou curioso com a freguesia de Foz do Cobrão, pelas tradições dos garimpeiros. “Esta não conheço e gostava de ver como se procurava o ouro”, afirma expectante.
Liliana Machadinha - Diário XXI

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Na vertical - Lhotse

Na vertical retrata o feito do melhor alpinista do mundo - Reinhold Messner - que foi o primeiro a escalar as 14 montanhas acima dos 8 mil metros, de 1970 a 1987. Termina hoje com o Lhotse - 8.501 metros.
http://www.texasmountaineers.org/images/gallery/himalayas/nepal/big_lhotse.jpg

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Na vertical - Annapurna

http://myhimalayas.com/mustang/image/annapurna_tilicho.jpg

George Mallory

O corpo do alpinista britânico George Mallory, desaparecido no monte Evereste em 8 de Junho de 1924, foi encontrado a 01 Maio 1999, 600 metros abaixo do cume, pela equipa do norte-americano Eric Simonson.Em 1921 Charles Bell, diplomata britânico encarregado dos negócios com o Tibete, depois de muita pressão, persuadiu o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento ao Evereste. Organizada em 1921, montada pela Sociedade Geográfica Real, com montanhistas do Clube Alpino, ela foi chefiada por C. K. Howard-Bury. Embora composta por montanhistas experientes, tratava-se de experiência em montanhas europeias, com a metade da altura do Evereste. Muito pouco era conhecido sobre os efeitos da altitude, bem como roupas e equipamentos específicos para o ambiente que iriam enfrentar, sendo muitas das melhores avaliações da época impróprias para os padrões actuais. Os nove membros da expedição não formavam o que se poderia chamar de uma grande equipa e após uma extenuante caminhada de 640 quilómetros, desde Sikkim, na Índia, apenas seis chegaram à base da montanha. Para ajudá-los, os britânicos contrataram alguns sherpas que haviam imigrado do Nepal para a Índia. Mas a principal figura da expedição foi George Mallory. Com seu parceiro de montanhismo, G. H. Bullock, gastou um árduo mês explorando a área que o levaria com menor dificuldade até o sopé da montanha, o misterioso glaciar Rongbuk oriental. Ficou óbvio que o Verão, durante o período das monções, não era a época mais favorável para qualquer coisa que se quisesse fazer nos Himalaias. Mas, apesar disto, e dos precários equipamentos, três sherpas e três alpinistas, incluindo George Mallory, alcançaram o Colo Norte, a 6.700 metros de altitude. O incansável George Mallory continuou bisbilhotando a montanha até chegar ao passo Lho, 6.006 metros, uma falha na cordilheira que permitia passar do Tibete para o Nepal. Dali ele pode fazer uma minuciosa observação do glaciar que cobria o vale entre o Evereste e o Nuptse, acima da Cascata de Gelo, o qual baptizou de Cwm – vale, em galês – Ocidental, além de se tornar o primeiro europeu a ver a Cascata de Gelo e o vale Khumbu, no lado nepalês. Mallory voltou para o acampamento e, depois de trocar muitas informações com os outros alpinistas, concluiu ser a Cascata de Gelo um caminho intransponível. Portanto, o melhor era continuar tentando pelo lado tibetano, através do Colo Norte, localizado entre o Evereste e o Changtse, que ficava bem em frente, e a partir dali escalar pela aresta norte, à esquerda da face norte.Em 1922, uma nova expedição, liderada pelo general C.G. Bruce, iniciou sua jornada antes das monções e gabava-se de ser formada por um grande equipa de 13 pessoas, inclusive um cineasta, e estar abastecida com alimentação especial: champanhe, caviar e esparguete. Que congelou nos campos mais altos. Eles realmente tinham uma alimentação bem mais adequada, mas as roupas não. Eles usavam chapéu, óculos escuro, machadinhas de gelo e cordas, como se estivessem indo para um passeio num parque inglês no Inverno. Para facilitar a logística da operação, diversos acampamentos intermediários foram estabelecidos. O acampamento IV foi montado no Colo Norte e o acampamento V a uma altitude de 7.600 metros. Embora fosse claro que este campo estava baixo demais para servir como base de um ataque ao cume, a primeira tentativa foi feita por George Mallory, Edward Norton e Howard Somerval. Eles subiram a 8.150 metros, sem oxigénio suplementar, antes de descerem com sintomas de congelamento. A segunda tentativa foi realizada por George Finch e C.G.Bruce. Passaram a noite dormindo com auxílio de oxigénio suplementar, o que os manteve melhor aquecidos e permitiu-lhe um bom sono, embora alguns membros da expedição fossem contra por acharem tal atitude anti desportiva. Partiram pela manhã levando apenas uma garrafa térmica de chá e subiram até 8.323 metros, estabelecendo um novo recorde de altitude. A terceira tentativa terminou prematuramente 200 metros abaixo do Colo Norte, quando uma avalanche colheu nove sherpas, matando sete. O Evereste começava a cobrar seu tributo de quem o ousava desafiar. Mas eles não desistiram, iniciando uma campanha de arrecadação de fundos para voltarem aos Himalaias. Durante um ciclo de palestras pelos Estados Unidos, ilustradas com slides das expedições anteriores, quando um irritante jornalista perguntou porque motivo alguém teria que escalar o Evereste, George Mallory respondeu com o que veio a tornar – se a mais célebre frase da história do montanhismo:- Porque ele está lá!Em 1924, montou-se nova expedição. Eles ainda não tinham roupas adequadas, especialmente roupas de baixo. A cada alpinista foi entregue um kit de vestimentas no valor de 100 dólares. Edward Norton, chefe da expedição, era o mais bem equipado. Gabava-se de usar macacão corta-vento, um blusão de couro e um capacete de motociclista. Mas lá estavam eles de novo: George Mallory, Andrew Irvine, Edward Norton, Howard Somerval e mais cinco alpinistas. Violenta tormenta atacou-os, ainda no início da expedição, danificando o equipamento de oxigénio e obrigando-os a voltarem para se abrigarem no mosteiro Rongbuk, onde receberam a bênção do Lama, o que eles, imprudentemente, não haviam feito quando passaram pelo local em direcção ao acampamento-base. O acampamento VI foi estabelecido a 8.170 metros, tendo Edward Norton e Howard Somerval dormido no local. Iniciaram o ataque no dia seguinte, muito cedo, mas Howard Somerval foi vencido por um sério ataque de tosse. A garganta inchada congelou, quase sufocando-o. Edward Norton seguiu sozinho montanha acima, vencendo, passo a passo, a encosta coberta de neve, até chegar aos 8.572 metros – meros 276 metros abaixo do cume –, estabelecendo um novo recorde de escalada sem oxigénio artificial, uma marca fantástica para a época, só superada em 1978.Se Edward Norton tivesse oxigénio, possivelmente teria alcançado o cume. Naquela noite, com Edward Norton exausto e sofrendo de nifablepsia, uma cegueira temporária provocada pela reflexão da luz solar na neve, e Howard Somerval fora de acção, George Mallory escolheu o jovem e inexperiente Andrew Irvine para acompanhá-lo na tentativa do próximo dia, embora Noel Odell estivesse mais bem aclimatado e em melhores condições físicas. Os sherpas acompanharam George Mallory e Andrew Irvine até o acampamento VI, ponto em que desistiram de prosseguir, tais eram as condições adversas do clima. Após um breve descanso, regressaram para informar que apesar do fogareiro ter despenhado montanha abaixo, tudo estava bem, e que os dois europeus prosseguiriam. Na manhã seguinte, 8 de Junho de 1924, o tempo estava terrível, fazendo com que George Mallory e Andrew Irvine deixassem o acampamento avançado muito tarde. Enquanto esperavam para ver se as condições melhoravam, perderam estimáveis minutos, erro que provavelmente lhes tirou a vida. George Leigh Mallory estava com 38 anos, nasceu em 1886. Filho da alta burguesia inglesa, professor, casado e pai de três filhos, era considerado o melhor alpinista britânico da sua época. Dotado de refinada cultura e alto idealismo, possuía também uma apurada sensibilidade romântica. Nos acampamentos no Evereste, ele costumava ler Shakespeare para seus colegas de barraca. Naquela manhã de 1924, enquanto George Mallory e Andrew Irvine subiam, com extrema dificuldade, em direcção ao topo do mundo, Noel Odell escalava do acampamento V ao acampamento VI para estudar a geologia das rochas ao longo do caminho. Às 12h50, numa das suas paradas, as nuvens abriram uma brecha no céu e ele pode ver a silhueta dos dois companheiros subindo em direcção ao cume. Uma forte tempestade de neve formou-se na parte de cima do Evereste e, quando clareou, duas horas mais tarde, deixando visível a crista noroeste, não existia mais sinal dos alpinistas. Os dois nunca mais foram vistos. Teriam atingido o cume antes de morrerem? Seriam George Mallory e Andrew Irvine os primeiros a terem escalado o ponto mais alto do planeta? Eles haviam morrido na subida ou na descida? A verdade é que o desaparecimento deu origens a um sem-fim de conjecturas sobre se eles conseguiram ou não atingir o cume antes de morrerem. Montanhistas de expedições subsequentes, ao observarem o local onde Noel Odell avistou Mallory e Irvine pela última vez, concluíram que, Mallory e Irvine possivelmente não teriam chegado ao cume. Em 1980, durante uma expedição japonesa, um dos carregadores chineses, Wang Hongbao, procurou o chefe da equipa alegando que cinco anos antes, enquanto participava de uma expedição chinesa, havia encontrado, perto de onde estavam, o cadáver de um alpinista britânico com roupas muito antigas, sentado num terraço nevado a 8.100 metros de altitude. Se a informação estivesse correcta, certamente seria o corpo de Mallory ou Irvine. Como eles carregavam máquinas fotográficas, poderia – se ficar a saber se haviam ou não chegado ao cume. Mas o mistério continuou porque no dia seguinte o próprio carregador chinês morreu sob uma gigantesca avalanche que desabou sobre seu acampamento.
copiado na íntegra HUMANIC

Cartaz

Em grande formato, a popularidade do Mont-Blanc num cartaz da época. http://www.alpes.org/documents/excursions_mont_Blanc_1910.jpg

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Na vertical - Nanga Parbat

nota 6, ano de 1970 marca a primeira ascensão da vertente Rupal, na qual perde a vida o seu irmão Gunther na descida. nota 7 e 8, ano de 1978 - referem-se a Messner a solo.
http://www.climbingguidebg.com/adv/nanga2006/NangaParbat_routes_high-mountain.jpg

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Maio 29, 1953

mountainzone
»Depois de atingir o cume, na compania do seu fiel escudeiro Sherpa, Sir.Hillary enviou mensagem via rádio para os companheiros na base, contando do seu sucesso. Chegando à base, horas depois, a noticia já havia corrido o mundo e um companheiro conseguira sintonizar um rádio portatil nas noticias do BBC World Service no exato momento em que anunciava o sucesso da expedição Inglesa pela conquista do Everest. Nessa altura, disse Sir. Hillary, ele se deu conta de que realmente tinha conseguido pois, afinal, "se a BCC disse é porque deve ser verdade !"»http://www.ovelho.com/modules/news/article.php?storyid=35817

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Viagens na minha terra

..."O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de tons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.

À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade. A faia, o freixo, o álamo, entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão.

Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meio aberta de uma habitação antiga mas não dilapidada — com certo ar de conforto grosseiro, e carregada na cor pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janela é larga e baixa; parece-me mais ornada e também mais antiga que o resto do edifício que todavia mal se vê...

Interessou-me aquela janela.

Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?

Parei e pus-me a namorar a janela.

Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.

Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás. Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!... era completo o romance.

Como há de ser belo ver o pôr o sol daquela janela!...

E ouvir cantar os rouxinóis!...

E ver raiar uma alvorada de maio!...

Se haverá ali quem a aproveite, a deliciosa janela? ... quem aprecie e saiba gozar todo o prazer tranqüilo, todos os santos gozos de alma que parece que lhe andam esvoaçando em torno?

Se for homem é poeta; se é mulher está namorada.

São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher namorada; vêem, sentem pensam, falam como a outra gente não vê, não sente não pensa nem fala.

Na maior paixão, no mais acrisolado afeto do homem que não é poeta, entre sempre o seu tanto de vil prosa humana: é liga sem que não se lavra o mais fino do seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada deveras sublima-se. idealiza-se logo, toda ela é poesia, e não há dor física, interesse material, nem deleites sensuais que a façam descer ao positivo da existência prosaica.

Estava eu nestas meditações, começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que há muito tempo me lembra de ouvir.

Era ao pé da dita janela!

E respondeu-lhe logo outro do lado oposto; e travou-se entre ambos um desafio tão regular em estrofes alternadas tão bem medidas, tão acentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, esqueci-me de tudo o mais.

Lembrou-me o rouxinol de Bernardim Ribeiro, o que se deixou cair na água de cansado.

O arvoredo, a janela, os rouxinóis... àquela hora, o fim de tarde... o que faltava para completar o romance?

Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão — vestido de branco — oh! branco por força... a frente descaída sobre a mão esquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados ao céu... De que cor os olhos? Não sei, que importa! É amiudar muito demais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romântica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poética.

— Os olhos, os olhos... — disse eu, pensando já alto, e todo no meu êxtase — os olhos... pretos.

— Pois eram verdes!

— Verdes os olhos... dela, do vulto na janela?

— Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preço.

— Quê! Pois realmente?... É gracejo isso, ou realmente há ali uma mulher, bonita, bonita, e?...

Ali não há ninguém — ninguém que se nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, um anjo, que deve estar no céu.

— Bem dizia eu que aquela janela...

— É a janela dos rouxinóis...

— Que lá estão a cantar.

— Estão, esses lá estão ainda como há dez anos — os mesmos ou outros, mas a menina dos rouxinóis foi-se e não voltou.

— A menina dos rouxinóis! Que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela?

— É um romance todo inteiro, todo feito como dizem os franceses, e conta-se em duas palavras.

— Vamos a ele. A menina dos rouxinóis, menina com os olhos verdes! Deve ser interessantíssimo. Vamos à história já.

— Pois vamos. Apeemo-nos e descansemos um bocado.

Já se vê que este diálogo passava entre mim e outro dos nossos companheiros de viagem.

Apeamo-nos com efeito, sentamo-nos, e eis aqui a história da menina dos rouxinóis, como ela se contou.

É o primeiro episódio da minha odisséia: estou com medo de entrar nele, porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o português não é bom para isto, que em francês que há outro não sei quê...

Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque enfim, enfim, deles me rio eu: mas poesia ou romance, música ou drama de que as mulheres não gostem, é porque não presta.

Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nos; o que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros; é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão.

Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo; e a matéria do meu conto para o seguinte."...



Viagens na minha terra, de Almeida Garret

Fonte:
GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. [s.l.]: Ediouro, [s.d.].

Texto proveniente de:
Biblioteca Virtual do Estudante de Língua portuguesa
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por - Sérgio Simonato

domingo, 3 de dezembro de 2006

o Projeto Manhattan

» Nos Estados Unidos, o Projeto Manhattan, cujo setor científico foi liderado pelo físico Robert Oppenheimer, usou a reação nuclear em cadeia para explodir a primeira bomba atômica perto do laboratório de Los Alamos, em 1945. A segunda e a terceira caíram sobre Hiroxima e Nagasáqui, no Japão, selando a vitória norte-americana na guerra. O Projeto Manhattan envolveu vários dos melhores talentos da Física, como o italiano Enrico Fermi, o alemão Hans Bethe e o húngaro Leo Szilard. Após a guerra, Oppenheimer tornou-se pacifista e lutou contra o uso das armas nucleares, sendo perseguido pelo governo norte-americano. Outros físicos do Projeto Manhattan tiveram trajetória semelhante, como o australiano sir Mark Oliphant (1901-2000), ... Os cientistas renegados do Projeto Manhattan não foram os únicos a serem colhidos pelas malhas da política belicista dos anos 30-40. Lise Meitner e Albert Einstein, por exemplo, tiveram que fugir da Alemanha para salvar suas vidas, pelo simples fato de serem judeus
Com Ciência

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

O Pior Português de Sempre

Neste primeiro de Dezembro, em que comemoramos a Restauração da nossa independência, é altura de anunciar os resultados do concurso "O Pior Português de Sempre" que decorreu neste blogue Do Portugal Profundo...
E o prémio d' o Pior Português de Sempre vai para...

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

"as aberrações das leis islâmicas"

«I cobble together a verse comedy about the customs of the harem, assuming that, as a Spanish writer, I can say what I like about Mohammed without drawing hostile fire. Next thing, some envoy from God knows where turns up and complains that in my play I have offended the Ottoman empire, Persia, a large slice of the Indian peninsula, the whole of Egypt, and the kingdoms of Barca {Ethiopia}, Tripoli, Tunisi, Algeria, and Morocco. And so my play sinks without trace, all to placate a bunch of Muslim princes, not one of whom, as far as I know, can read but who beat the living daylights out of us and say we are 'Christian dogs.' Since they can't stop a man thinking, they take it out on his hide instead...»

Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, As Bodas de Fígaro*

*As Bodas de Fígaro, com libreto de Lorenzo da Ponte, foi criada por Wolfgang Amadeus Mozart a partir de uma comédia escrita em 1784 por Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, o mesmo autor de «O Barbeiro de Sevilha», escrita em 1775 e transformada em ópera por Rossini, e de «A mãe culpada», escrita em 1792.
Diário Ateísta

terça-feira, 28 de novembro de 2006

A Agricultura na Serra do Açor

"A difícil subsistência das populações serranas esteve sempre dependente da relação estreita entre uma agricultura pobre, de cômbaros e pequenos lameiros, e a criação de gado. De tal modo tudo estava tão intimamente ligado, que a criação do porco ou das cabras se cruzava e confundia a todo o momento com as fainas do milho e do centeio ou com o cultivo da batata, do feijão e das botelhas (abóboras). O milho era o principal sustento: quando faltava o milho faltava tudo. A ele se juntava o feijão, a couve, a batata, o azeite, o vinho, a castanha, o porco, a cabra e pouco mais. O estrume das lojas era essencial para o sucesso das sementeiras. Por isso, havia que ir ao mato para a cama das cabras, uma dura tarefa quotidiana que muitas vezes se realizava antes do sol nascer. Agora, com as serras despovoadas de gentes e de gado, há mato em excesso, mas antes, para se encontrar uma boa malha tinham de se percorrer grandes distâncias nos baldios. Um molho de mato pode ser uma obra de arte quando se sabe enfeixar e depois apertar bem, passando a corda pelo gancho do ervedeiro. Em Dezembro começava-se a tirar o esterco das lojas e a transportá-lo para os bocados - um trabalho pesado, feito à força de braços e às costas, nas cestas. Por vezes, quando os acessos o permitiam, os carros de bois davam uma ajuda no transporte. Depois de Fevereiro, as terras começavam a ser voltadas ao encino, de modo a serem preparadas para a sementeira. Como os solos eram magros e quase sempre inclinados, a cava exigia uma técnica especial - começava-se por tirar a terra, abrindo uma vala na parte mais baixa do terreno e acartando a terra às cestas (nas costas, claro) para a parte mais alta, onde era espalhada. Compensava-se, deste modo, o progressivo deslizamento dos solos devido às regas, à chuva e às próprias cavas. Cavada a terra, o esterco era então espalhado nos regos com um encino mais pequeno. Em Março semeava-se o milho, muitas vezes misturado com feijão, em regos pouco fundos. Depois, o milho era arralado. Com um metro era feito o empalhado com mato, para conservar a humidade do solo. Estava-se então em Junho - era a altura da primeira rega. Seguidamente escanava-se (ou tirava-se a bandeira), quando a barba da espiga estava praticamente seca e desfolhava-se a planta quando a espiga começava a aloirar. As folhas e as bandeiras, depois de secas, eram guardadas como alimento de inverno para as cabras, assim se pagando com boa forragem o bom estrume antes recebido. A rega realizava-se com regularidade até a espiga estar quase madura. Finalmente, em Setembro, as espigas já secas eram cortadas do canoco e transportadas para casa. Aí, ao serão, eram descamisadas (ou escalpeladas e depois debulhadas. As descamisadas e as degulhas, em que os grãos de milho eram descasulados (retirados do casulo), eram uma ocasião de entreajuda e convívio: à luz das candeias de azeite desfolhavam-se as maçarocas e depois os homens malhavam, com paus curtos ou manguais, o grande monte de espigas - uma, duas, três vezes, até a maior parte do grão se soltar do casulo. Sentadas em semi-círculo, as mulheres retiravam dos casulos, com as mãos, os grãos que ainda restavam. Cantava-se, falava-se da vida deste e daquele e, quer encontrassem ou não o "milho-rei" os rapazes e raparigas solteiros arranjavam um pretexto para namoriscarem. Depois, vieram as debulhadoras manuais, a seguir as debulhadoras mecânicas, novas qualidades de milho híbrido (já sem "milho-rei") e, por fim, até a mocidade casadoira começou a debandar para as cidades, à cata de outro grão para o seu sustento."
Dr. Paulo Ramalho - Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

O nome de maria


O sanguinário corso ( Napoleão)

Em Fevereiro e Março de 1811, os franceses de Massena deixaram um rasto de morte e pilhagem no concelho de Arganil, a ponto deste ser considerado um dos que em Portugal mais sofreu com as invasões que «o sanguinário corso (Napoleão) fez vomitar na Peninsula Hispânica».
De uma lista oficial, publicada depois da «expulsão destes salteadores», vê-se que só na vila de Arganil e seu termo, roubaram nos dois meses referidos: 5.769$240 réis em dinheiro; 9.874$000 réis em diferentes objectos de ouro e prata; 18.633$800 réis em roupas de seda, lã e linho; 13.944$000 réis de vasos de prata, navetas, turíbulos, castiçais, cruzes e alfaias da Igreja (Matriz) de Arganil; 1.030$000 réis de pratas e alfaias de outras igrejas; 2.400$000 réis de pratas da Igreja de Secarias; estragaram 30.607 alqueires (cada alqueire eram 15 litros) de trigo, centeio, cevada, feijão e milho; roubaram 3.523 almudes (cada almude eram 40 litros) de vinho, vinagre, azeite e aguardente, 584 arrobas (cada arroba eram 15 quilos) de carne de porco e banha, 314 cabeças de gado grosso, 10.642 cabeças de gado miúdo, 11 bestas, 191 porcos, 2.254 galinhas, 612 colmeias e 53 alqueires de mel; destruiram e cortaram 3.302 oliveiras, 422 castanheiros, 1.478 carros de pinheiros; incendiaram um templo e 13 casas particulares; mataram 3 eclesiásticos, 23 seculares e 7 mulheres e ultrajaram e aprisionaram 96 mulheres.

Arganil - Concelho verde

sábado, 25 de novembro de 2006

o vírus do TLEBS

"E depois fui pesquisar o que queriam ao certo fazer à minha velha gramática, companheira de tantos milhares e milhares de páginas produzidas não sei bem para quê. E declaro que descobri coisas fantásticas, sem dúvida impressionantes, todavia incompreensíveis, pelo menos sem uma acção de formação radical. Descobri que o simples artigo, o velho artigo definido, é promovido a “determinante artigo”: não percebo a vantagem, mas até aí ainda vou. O pior é quando me propõem designações como a “coerência pragmática ou funcional”, o “modificador”, o “designador rígido”, o “anafórico”, a “catáfora”, a “meronímia”, o “ataque da sílaba”, a “coda da sílaba”, o “agentivo”, ou uma coisa entre todas misteriosa chamada “ordem OVS”. Isto para já não falar do “género epiceno”, que tem a particularidade de se poder dividir em “variantes comuns” ou “comuns de dois”. Caramba, importam-se de falar português?"
Miguel Sousa Tavares - Reflexões sobre o futuro do meu cão - Jornal EXPRESSO, edição online paga

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Os novos bárbaros

»"Paralelamente ao imenso, devastador e pavoroso currículo oficial ministrado pelos agentes educativos, irrompe subrepticiamente um outro "currículo oculto" que interpreta, altera, subverte, distorce os objectivos do primeiro de acordo com a focalização dos professores, muitos deles desprovidos de tecnologia adequada, sem capacidade de excentração ou transcendência em relação ao âmbito teórico, processos metodológicos e instrumentos do seu próprio trabalho: imersos inconscientemente nos condicionamentos que operam sobre a sua competência e performance, tornan-se ingenuamente a "carne para canhão" e ao mesmo tempo e paradoxalmente, os agentes secretos do sistema oculto - vítimas desprovidas e simultaneamente carrascos desprevenidos e desavisados.
Existem pois dois sistemas... Duas escolas... Dois tipo de objectivos... Dois tipos de currículos... Dois tipos de professores: os primeiros explícitos; os segundos ocultos. Os agentes educativos lúcidos vivem uma situação trágica e paradoxal porque não podem sobreviver moralmente sem acreditar na Educação, mas porque são lúcidos, também não podem acreditar neste Sistema Educativo.
A escola actual esquizofrenizou-se em isotopias horizontais e verticais irredutíveis..."»


Educação, uma doença crónica
António M. Correia / Terras da Beira

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Isto está bonito

»"O novo sistema de avaliação será rigoroso e consequente, estando centrado na actividade docente. Representa um estímulo às boas práticas lectivas", advogou Maria de Lurdes Rodrigues", dizendo que serão professores titulares "os mais experientes e mais competentes".»
Jornal Público

Um Poeta Beirão

UM POETA BEIRÃO: Simões Dias
Beatriz Alcântara
Em 1863, aos dezenove anos, publicou, em Coimbra, seu primeiro livro de poesia, Mundo Interior, ao qual seguiu-se, um ano depois, a publicação do poema Sol à Sombra. Ainda no mesmo período de estudos universitários, publicou um livro de contos intitulado Coroa de Amores e, com registro incerto, outro livro de contos, Figuras de Gesso.
Lecionando para sustentar seus estudos e permitir-lhe a independência, o poeta foi cristalizando uma experiência didática, que viria a acompanha-lo pelo resto da vida, mas que não lhe vetava uma existência plural, rica em acontecimentos, amores e desamores, cujos registros podem ser exemplificados com o poema “Na Praia”, quadras de um ingênuo amor:

Formoso pôr de sol! Formosa tela!
É como um resplendor,
Em pé sobre uma rocha a visão bela
Do meu primeiro amor!
Cinge-lhe o sol a fronte alabastrina,
Aureola de santa!
Beija-lhe o rosto a vaga tremulina
Que do mar se levanta!
Dois meses após a formatura acadêmica, Simões Dias casou-se na Sé de Coimbra - a 3 de setembro de 1868 - com Guilhermina Simões da Conceição, jovem de “formosura rara”, numa prestigiada cerimônia, segundo relato dos contemporâneos.

Os estudos universitários concluídos com invulgar brilhantismo, surgiu o convite para integrar o corpo docente da Universidade de Coimbra, mas o poeta resolveu descortinar outros horizontes e concorreu à carreira de ensino público, sendo nomeado para a cidade alentejana de Elvas, em 1969.

A cidade acolheu bem o jovem professor, que já possuía um certo nome literário, e ensejou-lhe a criação e a edição de novas obras.

Mas uma infelicidade esperava o escritor, a morte da esposa, aos 24 anos. com menos de um ano de casamento.

Grande desgosto, expresso no poema “A hera e o olmeiro”:

Perpassa o vendaval com brava sanha
No cume da montanha,
E o ramo de hera que o olmeiro abraça
Arranca e despedaça!
Tu eras, meu amor, qual ramo de hera
Da minha primavera;
Eu era, linda flor, qual triste olmeiro,
O teu amor primeiro!
Mas veio sobre nós a dura sanha
Do vento da montanha,
E tu mimoso arbusto que eu amara,
Tombaste, ó sorte avara!
Agora, em pó desfeita a planta linda,
Por que é que espero ainda?
Que a mesma ventania, quando passe,
Me tombe e despedace!
Da permanência em Elvas resultaram definitivas vertentes na vida literário de Simões Dias.

A proximidade com as terras de Espanha ensejou a publicação de Espanha Moderna, estudos sobre a Literatura espanhola contemporânea, que lhe propiciaram a Comenda de Isabel a Católica, do Governo espanhol, e que, simultaneamente, inauguraram e direcionaram o autor para a escrita de cunho didático.

Em Elvas, no ano de 1870, surgiu a primeira edição das Peninsulares, canções meridionais que consagraram definitivamente o poeta.

Pesaroso com a viuvez, Simões Dias pediu transferência para Lisboa. Curta foi a estada, menos de um ano, de agosto de 1870 a abril de 1871.

Porém, ainda que rápida a passagem, ela ensejou a freqüência e a participação nos saraus literários de António Feliciano de Castilho, tão ao gosto da época.

Desse convívio ficou o registro no poema “Musa Nova”, versos de procedimento quase precioso:

A musa da nossa idade
É um ser extravagante,
Com igual jovialidade
Sorri ao Bocaccio e ao Dante
Ora solta sobre ruínas
O grito das maldições,
Ora do alto das colinas
Faz discurso às multidões.
...........................................
Divina sacerdotisa,
Quando a topo no caminho,
Tapeto-lhe o chão que pisa
De palmas e rosmaninho!
Já distante de Elvas, foi ainda nessa cidade que veio a lume novo livro de poesia, Ruínas, posteriormente incluído em outra edição das Peninsulares.

O poeta retornou à Beira. Fixou residência na cidade de Viseu, para onde foi nomeado professor do Liceu com regência da cadeira de Oratória, Poética e Literatura. Em Viseu, de 1871 a 1886, Dr. José Simões Dias viveu a maior, a mais diversificada e a mais profícua fase da idade adulta.

Em setembro de 1872, contraiu novo matrimônio com Maria Henriqueta de Menezes e Albuquerque de quem veio a ter uma filha, Judith, que lhe proporcionou uma descendência legitimada, o neto, o músico Mário Simões Dias. Os versos, por amor, elevavam-se:

Todo o meu ser se evola em doces êxtases,
Como se fora em ascensão divina
Arrebatado ao céu! Da gota rubra
Do sangue do Calvário sobre a rocha
Escorre a fé e o amor! A caridade
Sorri na cruz a distender os braços,
E a meiga esperança, reluzindo no alto,
Brilha formosa como à tarde um íris!
Em terras de Viseu, Simões Dias firmou-se como escritor e professor, enquanto ampliava e diversificava seus interesses e atuação.

Consolidou-se como um proficiente e atualizado escritor pedagógico, iniciou e afirmou-se na política, como Deputado às Cortes, em várias legislaturas – 1879, 1884, 1887 e 1890, por Mangualde, Pombal e Mértola – tendo evidenciado-se grande orador, erudito e frontal.

Figura eminente do Partido Progressista, proferia discursos polêmicos, defendia, em jornais e em comícios de rua, causas por tal modo inflamadas que, certa vez, foi vítima de uma cena pública de violência física protagonizada por um opositor.

Os registros da época apontam-lhe uma firme, proveitosa e democrática atuação política, devendo-se à sua natural inclinação para o mundo das letras, defesa e propositura da instituição de feriado nacional, no dia do tricentenário de morte de Camões, 10 de junho de 1879.

Ao participar de debates tão acesos, Simões Dias descobriu-se também jornalista, chegando a fundar três periódicos: o jornal Observador em 1878, liberal e patriótico; no ano seguinte, o Distrito de Viseu, voz do Partido Progressista, que ele dirigiu por oito anos; o inovador diário, O Globo, que circulou de 1888 a 1891; além de ter colaborado e dirigido, de 1887 a 88, o jornal progressista Correio da Noite.

Eram novos os tempos e outras as verdades. O poeta Simões Dias cantava,

Quando caiu exangue a velha sociedade,
Alguém que nos guiava os passos mal seguros
Nos disse, olhar em chamas: “Ó filhos d’outra idade,
O largo mundo é vosso, apóstolos futuros!
e na louvação ao progresso e ao nacionalismo, em outras estrofes enalteceu o Marquês de Pombal:

No pedestal da glória,
Que o pátrio amor sustenta,
Perfeitamente assenta
A estatua do marquês,
Pois que ninguém na história,
De pulso tão ousado,
Ergueu mais alto o brado
Do nome português!
......................................
Exangue morre a pátria?
Exausto anda o erário?
O reino, um proletário?
O ensino, uma irrisão?
Pois bem! Do vasto cérebro
Do herói do luso povo
Virá um mundo novo:
A luz, a escola, o pão!
Ao longo do período visiense, várias publicações didáticas de sua lavra surgiram: em 1972, Compêndio de História Pátria e Compêndio de Poética e Estilo, posteriormente denominada Teoria da Composição Literária; em 1875, História da Literatura Portuguesa; em 1881, Elementos de Oratória e Versificação Portuguesa, depois refundida na História da Composição; em 1880 a 1ª edição/Porto e em 1883 a 2ª edição/Coimbra, de A Instrução Secundária e colaborou com o Manual de Leitura e Análise, editado no Porto em 1883.
A Literatura, um pouco relegada, como se pode supor numa existência tão repleta e diversificada, tomou uma feição diferente, o romance.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

A afinidade com um escritor

UM POETA BEIRÃO: Simões Dias
Beatriz Alcântara
A afinidade com um escritor constrói-se, via de regra, a partir da identificação que o leitor estabelece com sua obra. Por esse modo lembro-me de terem-se iniciado minhas preferências literárias e, a devoção que nutro por certos escritores como, Luís Vaz de Camões, Marcel Proust, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Clarice Lispector e Josué Montelo.

Todavia, para cada regra formulada, logo surge um fato contrário, e assim, numa contra-regra, aconteceu a ligação que estabeleci com um dos mais ilustres beirões de todos os tempos, o benfeitense Dr. José Simões Dias.

Fala-se que a aldeia da Benfeita, no concelho de Arganil, distrito de Coimbra, tem a forma de um lenço de três pontas. Numa das pontas desse lenço, no pequeno largo da capela de Nossa Senhora da Assunção, ficava a casa de meus bisavós Fonseca, onde, nos tempos em que minha avó Augusta e tia Laura viviam, eu passava boa parte das férias “grandes”.

Tanto quanto lembro das águas frias nos meus pés a chapinharem sobre os seixos na ribeira estival, recordo, e ainda repito, algumas quadras de Simões Dias recitadas durante os serões familiares da meninice. Uma dessas quadras, de sabor popular, é quase proverbial na minha pequena família, na outra banda do Atlântico:

Quem tem filhos, tem cadilhos
Quem não os tem, antes os tivesse
Porque quem tem filhos a vida
não finda, mesmo depois de morrer.
Mas atenção! Há um engano. Como poderia um poeta de tão grande arte como o Dr. José Simões Dias, de competente e sábio domínio literário a ponto de ter compilado os conhecimentos em duas obras valorosas, Compêndio de Poética e Estilo e Teoria da Composição Literária, ter construído uma quadra tão alheia à métrica normativa da redondilha maior?
Compare-se a anterior à quadra original do poeta:

Quem tem filhos tem cadilhos
Diz o rifão, mas é ver
Se alguém há que tendo filhos
Deseje vê-los morrer!

Peninsulares: odes,

A modificação das quadras toca num ponto nevrálgico, raramente abordado na relação autor e fruidor da obra de arte.

Uma obra literária, cinqüenta anos passados da morte do escritor, passa a ser, por lei, de domínio publico, livre de direitos autorais, e portanto, patrimônio popular, desde que ao povo assim lhe apeteça.

Antes desse prazo regulamentar, no entanto, nas quadras em questão, o senso comum interiorano português achou-se por tal modo identificado no sentir com o brilho setissílabo de Simões Dias que essas quadras modificaram-se ao sabor das vontades, numa literatura, digamos, quase oral, percorrendo um sinuoso trajeto de casa para casa, a ecoar de uma aldeia para outra, entoada por cantadores ambulantes, jograis e cegos de feira em feira das entre-beiras até os “algarves”, pois foi no sul peninsular que Estácio da Veiga ouviu o canto popular das trovas de “O Teu Lenço”, poema aqui reproduzido, em parte:

O lenço que tu me deste
Trago-o sempre no meu seio,
Com medo que desconfiem
D’onde este lenço me veio.
As letras que lá bordaste
São feitas do teu cabelo;
Por mais que o veja e reveja,
Nunca me farto de vê-lo.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A cismar neste bordado
Não sei até no que penso;
Os olhos trago-os já gastos
De tanto olhar para o lenço.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quanto mais me ponho a vê-lo,
Mais este amor se renova;
No dia do meu enterro
Quero levá-lo p’ra cova.
Peninsulares: canções, 5ª ed. Comemorativa
I Centenário da Morte de J. Simões Dias, Porto, 1999.

Se alguns versos do autor das Peninsulares - a obra mais renomada – converteram-se quase ao anonimato, talvez o fato se deva a que o poeta - o homem, o cidadão - ascendeu social e culturalmente, mas a sua poesia jamais perdeu a feição, o tom e a sabedoria da gente simples da sua aldeia - Benfeita. Simplicidade essa, tão marcante que, ainda hoje, decorridos mais de cem anos da morte do escritor, acha-se a povoação natal de Simões Dias tão distante da regência capitalista e do seu poder predatório, que sequer possui um comércio estruturado de portas abertas.

Não é difícil reconstruir, pela visão e mente, a terra que moldou a natureza, o imaginário, a emoção e o modo de estar no mundo de Simões Dias, pois a Benfeita preservou uma feição própria, pouco se alterou, avizinhando-se graciosamente do passado.

Na aldeia, as ruas permanecem de uma estreiteza afoita e raro permitem a circulação de um veículo no seu interior. Mesmo a via de circulação pública e o pequeno largo que conduzem à casa onde o poeta nasceu, sequer possuem uma denominação própria. Tudo permaneceria como então, não fossem o acesso que a construção da estrada permitiu, a eletrificação, algumas reduzidas comodidades tecnológicas e a rara presença de crianças.

Na Benfeita contemporânea, o ilustre poeta achar-se-ia próximo ao seu tempo, tempo no qual ela denominava-se Santa Cecília.
Das Peninsulares reproduzimos versos de saudade, evocações de folguedos, rumores de uma infância distante:

NOITE DE LUAR
. . . . . . . . . . . . . . . .
E aquela fresca ribeira
Onde à tarde ao pôr do sol
Vem cantar o rouxinol
Na copa da romãzeira;
E o toque da Ave-Maria,
Lamento de mãe aflita,
Tão doce que nem o imita
Uma rola ao fim do dia;
E os domingos de folgança,
Em que ao pé da ermida se arma,
Em festiva e doida alarma,
Uma fogueira e uma dança;
E aquelas tardes no rio,
Tardes e tardes inteiras,
Escutando as lavadeiras
A cantar ao desafio;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
São invocações recorrentes das quais Simões Dias ficou para sempre refém, não se cansando de louva-las, como neste outro poema:

A VOLTA DO PEREGRINO
A ver-vos torno, ó grutas,
Ó côncavos penedos,
Onde hei depositado
Meus infantis segredos!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Montanhas arrelvadas,
Vergéis do meu país,
Vendo-vos torno aos dias
D’essa idade feliz!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Por isso eu vos saúdo,
Por isso eu vos bendigo,
Lugares que me fostes
Berço, consolo e abrigo!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um não sei quê de vago,
Um tão suave encanto,
Que involuntário acode
A borbulhar meu pranto!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Além campeia a torre
Da solitária igreja,
E ao pé triste cruzeiro
No cemitério alveja!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ai! Quem me dera agora
A cândida ignorância
Dos tempos que sorriram
À minha alegre infância!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Então um cemitério,
A recender a flores,
Era um breve canteiro
Falando-me de amores!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Bendita seja a hora
Em que te torno a ver,
Ó terra abençoada,
Que és parte do meu ser!
Quando te piso e apalpo,
Que sonho e que ilusão!
Penso que vive ainda
Meu pobre coração!

A infância benfeitense e as alegrias pueris, contudo, foram cedo abandonadas. O jovem Simões Dias despertou a atenção do mestre-escola que, reconhecendo-lhe uma inteligência incomum, recomendou aos pais a continuação dos estudos.

Logo, ficaram para trás a aldeia de Santa Cecília – como a Benfeita chamava-se ao tempo - que o vira nascer a 05 de fevereiro de 1944, e os socalcos verdejantes entre os contrafortes da Serra da Estrela.

Uma educação formal e religiosa iniciou-se em Pedrógão Grande (1854-57), continuando no Seminário de Coimbra, onde concluiu o Curso Teológico em 1861, terminando os estudos superiores com a Formatura em 1968.

A vida acadêmica coimbrã fomentou-lhe o gosto pelas letras e ensejou a colaboração em variadas periódicos.

No dizer do seu biógrafo autorizado, Visconde de Sanches de Frias, no Bosquêjo da sua vida e obras, ficou registrado: “...num período de 9 anos, de 1861 a 1870, não houve em Coimbra publicação literária, que não tivesse a sua colaboração.”

Da época de estudos superiores, datam seus primeiros versos, o cantar da idade verde:

Gentis namoradas, tal sou como o vento
Que em brandos suspiros se expraia no ar,
As notas que tiro do alegre instrumento,
São vozes que gemem d’amor, ao luar!
....................................................................
Arcanjos dormentes, ó pálidas moças,
Correi às janelas a ouvir descantar;
As trovas que solto são minhas, são vossas,
Ouvi lindas trovas d’amor, ao luar!
"Canção ao Luar"

terça-feira, 21 de novembro de 2006

"el lenguaje y sus trampas"

"Durante milenios las palabras encerraban los secretos del nacimiento y de la muerte, del éxito y del fracaso, de la vida y de todas sus posibilidades. Los problemas, sin embargo, aparecen cuando comienza a cuestionarse la representación de los hechos desde el universo del lenguaje. Llegamos así a una primera e inquietante conclusión: las palabras nunca son inocentes o cristalinas, constituyen una realidad compleja. Están sumergidas en un conjunto de relaciones que si son guiadas por la mala fe o por una intención torcida desvían su sentido, alteran su contenido y pervierten su significado.

Surge así el lenguaje como arma política, que en vez de incluir, excluye; en vez de aglutinar, separa; en vez de sumar, resta; en vez de agrupar, dispersa; en vez de permitir, censura, y en vez de ayudar, traiciona.

El poder de las palabras, en su lado oscuro, se desarrolla a través de un entramado expansivo y totalitario que pretende imponer el dominio del significante sobre el significado. De esta manera, el primero, en manos de un poder interesado y corporativo, borra el sentido de lo real, deforma el orden social y político y facilita la manipulación y el engaño.

Si nos detenemos a observar esa realidad veremos con estupor de qué manera las palabras pronunciadas desde el poder, dueño del capital lingüístico y simbólico, traicionan y derriban lo que decimos y hasta lo que pensamos. El sentido de la responsabilidad y del compromiso, de la seriedad, de la firmeza, se han perdido irremediablemente.

En este mercado lingüístico, las reglas del discurso gobiernan lo que se dice y queda sin decir e identifican a los que pueden hablar con autoridad y a los que sólo deben escuchar y callar. El discurso verbal dominante en la clase política determina lo que cuenta como verdadero y relevante, lo que se debe hablar y lo que debe ser disimulado u ocultado. Así, el poder protege la forma de pensar y actuar de los ciudadanos al informar y modelar nuestra psique.

El truco es de sobra conocido: un ejército de lexicógrafos al servicio del poder nos vende, "desplazados" por deportados o expulsados, "daños colaterales" por víctimas civiles, "valla de seguridad" por muro de la vergüenza, "ayuda humanitaria" por ocupación militar en toda regla o "movimiento de liberación nacional" por terrorismo. Y esto ocurre para acomodar armoniosamente la realidad a la visión de cada una de las partes dentro de lo que se entiende como políticamente correcto. Las palabras, así utilizadas, esconden la realidad o en el peor de los casos consuman su muerte, y se convierten en mera incoherencia o sonido que ni siquiera llega a tener una clara articulación de significados. Con toda razón decía Adamov: "Gastadas, raídas, vacías, las palabras se han vuelto fantasmas en las que nadie cree".

Los nuevos lingüistas de la política se preparan para hacer del idioma un arma efectiva de dominio y para degradar con él la dignidad del habla humana y reducirla a retórica irresponsable. No debemos engañarnos. Las palabras no son ajenas al horror. Cuando se habla entre la niebla y la obscenidad, se favorece la vuelta de botas implacables de corte totalitario. Cuando el lenguaje se utiliza para entrar sin pudor y con impunidad en el infierno de los oprimidos, las palabras pierden su significado y adquieren tintes de pesadilla. Cuando la lluvia de mentiras verbales se convierte en estrepitoso diluvio, hemos de temer lo peor.

Que Hitler Y Goebbels hablaran en público con entusiasmo no fue pura casualidad. En su tratado Cinco dificultades con que se tropieza cuando se escribe la verdad, Bertolt Brecht soñaba con un nuevo idioma capaz de enfrentar vitalmente la palabra y el hecho, el hecho y la dignidad humana, de forma que ésta recuperara el lugar perdido por la degradación de los hombres en sus comportamientos y relaciones basadas en la mentira y la manipulación.

Devolver al lenguaje su musculatura moral, su pureza originaria, su condición de don supremo del hombre, rehabilitar el sentido y la verdad de las palabras debe ser nuestro compromiso. La mentira lingüística también es violencia, violencia simbólica. La más insidiosa de todas.

Retornar a las palabras esenciales significa decretar una guerra incruenta al lenguaje parasitario, frívolo y truculento, propio de algunos medios de comunicación, repleto de pontificaciones enlatadas y de lugares comunes que mantienen y propagan la bulimia consumista. Frente a éstos, la intransigencia ética debe ser la norma.

Frente a un lenguaje prostituido se debe luchar por otro que defienda los valores básicos de la dignidad, la libertad, la tolerancia y la democracia."

Baltasar Garzón - Juez español

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

A matança do porco

A matança significava fartura, boa disposição e entreajuda. Era feita com tempo frio, mas nunca em dia de vento suão, que atraía as varejeiras.Para matar um porco eram necessários no mínimo quatro homens. O bicho era deitado num banco e ajoujado com uma faca. As mulheres recolhiam imediatamente em gamelas ou bacias de barro o sangue para os enchidos.Uma vez morto, o porco era chamascudo com carquejas acesas e depois esfregado com bocados da mesma carqueija até a pele exterior sair quase completamente. Finalmente era barbeado com uma navalha afiada e lavado com minúcia.Chegava então a vez de ser preso pelas duas patas traseiras a um chambaril e pendurado num caibro ou trave de uma loja. Abria-se-lhe a barriga, retiravam-se as miudezas e separavam-se as carnes de acordo com as diferentes utilizações.Do porco, absolutamente nada se desperdiçava: As tripas, depois de lavadas, eram utilizadas nos enchidos;As costelas, o lombo e os torresmos (uma mistura de carne magra, fígado e outras miudezas), temperavam-se e conservavam-se em azeite, nas caçoilas de barro preto;As coleiras,as bandas e as orelhas eram guardadas na salgadeira;Os presuntos e as pás eram também conservados em sal um ou dois meses; depois de lavados penduravam-se ao fumeiro cerca de quinze dias; por fim, depois curados besuntavam-se com azeite e colorau;Os chouriços e chouriças (de carne, de sangue ou de bofes) começavam a fazer-se no dia seguinte ao da matança. As carnes temperavam durante alguns dias e depois, com o auxílio da enchedeira, eram colocadas nas tripas. Os enchidos secavam ao fumeiro oito a quinze dias e depois conservavam-se em azeite;As farinheiras eram feitas com farinha de milho e com ossadas do porco que, por serem muitas, se coziam (suprema ironia) na panela do porco.A vianda do porco (nabos, batatas, couves, botelhas) cozinhava-se na "panela do porco" - uma enorme panela de ferro com três pernas que quase todo o dia fervia e refervia ao lume, nas cozinhas. Esta vianda, misturada com água e farinha, era transportada para o curral nas ferradas, de madeira ou latão. Os porcos comiam-na em maceiras, escavadas em troncos de árvores, ou nas pias, de granito mais ou menos tosco, conforme as regiões e a pedra existente.
Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor

domingo, 19 de novembro de 2006

Finalmente a Broa!

A broa cozia-se de oito em oito ou de quinze em quinze dias. A cozedura era feita nos fornos individuais ou, no caso dos que os não possuíam, nos fornos comunitários.
Fazia-se o crescente no dia anterior, misturado no malgão as sobras da última cozedura com alguma farinha e água morna.
Para a amassadura utilizava-se uma gamela de madeira - o crescente era então misturado com farinha de milho, água morna, sal e alguma farinha triga ou centeia, para a broa não ficar tão arroliçada.
Feita a massadura, a broa ficava a fintar à fogueira, enquanto se aquecia o forno.
Depois de quente, o forno era limpo com o rodo e o vassoiro; as broas eram tendidas no malgão e uma a uma colocadas com a pá no forno.
Com a massa que sobrava na gamela fazia-se uma bola de crescente que se guardava no malgão até à próxima cozedura.
As broas, uma vez cozidas, eram guardadas numa loja fresca e arejada.
Havia quem fizesse a broa só com milho, de modo a fundir (render) para quinze dias - é que quanto mais pesada no estômago, menos se levava à boca...
Em certos casos, esta "poupança forçada" constituía o único modo de enganar a fome, pois em muitas aldeias metade das famílias não tinham sequer milho que lhes chegasse para o ano inteiro.
Eram os mais pobres entre os pobres; os que não tinham sequer uma côdea para acompanhar o caldo das couves. A estes bem se podia aplicar o ditado: "Poupa que comer, não guardes que fazer."
O mel era um dos poucos "luxos" alimentares ao alcance de quase todos. Bastava fazer alguns cortiços e adquirir conhecimentos práticos elementares sobre as técnicas da apicultura.
O equipamento utilizado era também rudimentar e de fácil fabrico caseiro.

Dr. Paulo Ramalho, Tempos Difíceis - Tradição e Mudança na Serra do Açor